segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A Cultura nos Dias de Hoje

 O modo como se experiencia a cultura sofreu grandes alterações. Hoje em dia já não se precisa do aqui e do agora para se chegar à cultura, ou seja, não é necessária a deslocação do ser vivo para adquirir conhecimento.
 Não é necessário sair de casa para conhecer um artista. Virtualmente, na internet, pode-se pesquisar e ver toda a sua obra, tudo à distância de um clique. Contudo a experiência directa é a única convivência real; ver uma obra de arte num livro ou na internet é muito diferente de a ver ao vivo, em que se partilha o tempo e o espaço com o objecto em questão, existe uma experiência de aqui e agora.
 Nos dias de hoje o corpo deixou de ser o veículo para chegar ao conhecimento, a tecnologia veio substituir a experiência real, mas será que esta substituição nos permite realmente chegar à cultura?

 Talvez seja apenas uma ilusão pois, se só quando nos deparamos ao vivo com uma pintura é que a sentimos em plenitude e as moléculas do corpo convivem no presente com as moléculas do objecto, então talvez seja necessário fazer uma diferenciação entre os vários tipos de cultura. No mundo da arte - pintura, escultura, arquitectura - acredito que seja necessário estar fisicamente presente no mesmo espaço da obra para a conhecer inteiramente.

domingo, 24 de novembro de 2013

Ter e não Ser

       O consumo chega ao extremo quando a olhos nus, vemos que o objecto final do consumismo e a grande vítima do mesmo é o nosso próprio corpo. Nas ruas de qualquer cidade ocidental do século XXI, a obesidade torna-se epidémica. No caminho pedonal diário, de casa para a faculdade, evidenciam-se corpos lentos pelos quilos a mais que carregam. A qualquer hora do dia, os botequins de fast food encarregam-se de servir dezenas de pessoas que, pelo acto em si, parecem ter perdido a consciência do que é melhor para elas, abraçando, de certa forma, um suicídio lento. Esta inconsciência espelha a sobreposição do ter em relação ao ser, num exemplo de extremo, obsessivo e impulsivo.

        O que vem a ser afinal a acumulação obsessiva do capital e da matéria? A actualidade está preenchida de contradições crescentes das sociedades com uma postura materialista no lugar de progressos espirituais que contribuiriam para uma evolução contraposta à actual. Assim, esta esmera-se pelo estatuto social, emocional e físico assente nas aparências, no impacto primário do que se tem e nunca na revelação dos interiores das estruturas mentais de cada um dos indivíduos que forma a grande maioria, adjectivada com sabedoria, por “massas”. Uma massa subentende um aglomerado disforme, assente em fusões e aglomerados de corpos, ausentes da importância personificada do “eu”. Cada vez mais distanciadas do enriquecimento advindo da diversidade, as massas encontram-se no ponto de fusão através de uma realidade crescente materialista. Encontram-se danificadas por “bombardeamentos” lobotómicos constantes por parte dos detentores do poder económico, político, religioso e de todos os que se alimentam da fabricação de pessoas iguais entre si e por isso adormecidas e entorpecidas pelos mandatórios de consumismo, superficialidades, ritos do ter, distanciamento do ser. A publicidade, usada como porta-voz dos poderes capitais, ensinada por décadas de academias de vendas e técnicas do engano, aproveita-se do todo com propostas indecentes de promessas vãs associadas ao bem-estar como o éden prometido ainda em terra.


       Segundo Jean Baudrillard, sociólogo e filósofo francês, “... o beneficiário do milagre do consumo também se apresenta através de uma série de objectos falsos, de sinais característicos de felicidade e depois aguarda (aguarda desesperadamente, um moralista diria) para que a felicidade seja atingida.“


       A intensidade e os métodos de venda da ideia de felicidade são tão eficazes que se sobrepõem à ideia básica de sobrevivência elementar, justapondo o desnecessário e fútil aos bens de primeira necessidade, como a comida, o tecto, a saúde, a educação. A construção do interior está tão falsamente ligada ao material palpável que surge, agora, como um meio viável para a obtenção de uma felicidade iludida através do domínio de objectos inadequados à vontade do próprio “eu”. O mesmo vai-se distorcendo, alienado e sem vontade própria, cada vez mais e mais arrebatado pela espiral das lavagens cerebrais constantes dos peritos das vendas e da produção de riquezas desiguais. Essas entidades do marketing destroem o amanhã de cada um, fazendo com que se despersonalizem e se fundam ao amontoado disforme das massas, reprimindo a habilidade de perspectivar o pensamento ao exercitar a mente que cada vez mais se torna distante da consciência e mais aproximado do atrofio cerebral e de uma dormência suicida das almas. O fetichismo da matéria adquire contornos ainda mais cimentados do que os previstos pelos grandes pensadores, alastrados por um mar de entorpecimentos individuais mas fundidos entre si, como um todo alienado, inconsciente da essência da vida, distanciados do propósito do eu e contrários ao conceito estruturante da pessoa enquanto espécie pensante e capaz de positivar o seu mundo e de todos aqueles que a rodeiam, sem que para isso tenha que se abraçar impulsivamente e inconscientemente a desgastes funestos da natureza que a sustém.   

Sequelas, prequelas e remakes

Assombrado pelas problemáticas das sequelas, prequelas  e remakes, grande parte do cinema que se produz acrescenta gradualmente ao que não é mais do que o resultado da cultura de massas e das facilidades de reprodução. Será relevante mencionar aqui que o empobrecimento da imaginação nesta arte é também ela um resultado da massificação e do consumo desenfreado. Desde cedo na chamada sétima arte se passou pela cultura do refazer, da influência explícita ou até da cópia descarada a que alguns denominam como homenagem. Numa indústria dominada pelas grandes produções norte americanas, com orçamentos que ultrapassam largamente a escala da maioria das produções independentes, não será de espantar que grande parte do seu cinema não passe disso mesmo. A título exemplar, Vanilla Sky(2001), aclamado filme do director Cameron Crowe não é mais que um remake do filme Open Your Eyes(1997), do director Alejandro Amenábar, em si este facto não será nada de novo, como já foi mencionado, esta é uma prática corrente neste meio. Será de espantar, no entanto, que a personagem secundária mais relevante no filme, tanto num como no outro, seja interpretada exactamente pela mesma actriz.(1) Por outro lado, personagens fictícias como Sherlock Holmes de Sir Arthur Conan Doyle ou a mítica personagem de Drácula do escritor Bram Stoker, foram adaptadas e introduzidas ao longo do tempo em cerca de 287 e 330 produções diferentes, respectivamente. É claro que paralelamente a fenómeno existe o chamado cinema de culto, inovador e criativo, desprendendo-se do banal , mas este é um modelo de nicho. Se retirarmos ao bolo que constitui o cinema aqueles filmes que ou são remakes ou são transições de livros para o ecrã ou adaptações de novelas gráficas ou qualquer outra variante de produção escrita ou gráfica, reparamos que com quase nada ficamos de original, se é que ficamos com alguma coisa. Talvez seja por esse motivo que a esses chamem cinema de culto, enquanto que aos outros reste o seu antónimo. De qualquer forma é simples ver como grande parte das ideias defendiadas por Adorno e  Horkheimer em ‘A Indústria Cultural’, aqui encaixam, bem como a complexidade da reprodutibilidade técnica defendida por Walter Benjamin. Desde a ideia da atrofia da imaginação passando pelas falsas novidades e falsas diferenças, os esquemas de produção que prevêem o consumo, o estilo como estereótipo ou até mesmo a ideia do Kitsch.



(1)Talvez exista alguma relação com a produção que justifique que a mesma actriz desempenhe exactamente o mesmo papel nas duas produções, mas é para todos os efeitos irrelevante nesta dissertação.

A cultura como impedimento evolutivo

Joseph Chilton Peace, no seu livro The Biology of Transcendence alerta para o fenómeno da cultura como um processo baseado na violência. Entender o significado de cultura é fundamental, cultura como um modo de vivência das sociedades ocidentais ou que se organizam por sistemas monetários, governacionais, que constroem tribunais, catedrais, sistemas de punição e conduta.

Conseguir ver além do que até hoje construímos e como vivemos enquanto uma sociedade ocidental, é conseguirmos entender os nossos problemas como problemas biológicos, na sua forma mais básica, olhar além das fronteiras criadas pela cultura. O nosso sistema biológico natural está feito para adaptar e ultrapassar as limitações que nos são impostas ― de nos transcendermos (transcender não num sentido darwiniano) mas num processo biológico de evolução permanente.

Se pensarmos no conceito de "evolução biológica" apercebemo-nos que nos ocorre como algo distante, algo já atingido e estabelecido. O último e mais recente estado evolutivo do nosso cérebro, de nome neocórtex está, segundo a comunidade cientifica, apenas a 10% da sua evolução completa. Durante séculos temos vindo a danificá-lo permanentemente através do efeito cultural, que assenta desde sempre, em medo e violência, vivendo maioritariamente em survival mode, fazendo uso maioritário do primeiro nível de organização cerebral, o cérebro reptiliano ou basal.

Facilmente percebemos que a nossa sociedade vive e respira violência, somos todos os dias influênciados em discursos baseados no medo, em discursos morais e éticos. No entanto, a cultura nunca foi posta em causa como o inimigo. Desde a infância que somos indiscutivelmente danificados na nossa capacidade de sermos realmente humanos. Colocamos as nossas crianças desde cedo em modo de defesa, nutrindo o sistema basal e bloqueando o seu desenvolvimento nas estruturas neurais mais altas. Tendemos a assumir que o ser humano é por defeito naturalmente violento, a cultura nutre essa ideia e desde a infância que percorremos uma série de regras estruturadas levadas a cabo pelos nossos progenitores, somos institucionalizados para não permanecermos básicos, primitivos e hostis.

Divorciamo-nos da natureza e destruímos a sabedoria de saber pertencer a um todo. Somos de certa forma intolerantes a outras formas de organização da sociedade e de ser humano, (presos à ideia de que todos queremos o que nós temos e o que valorizamos).

No livro Original Wisdom ― Stories of an Ancient way of Knowing, de Robert Wolff, é-nos dado um exemplo de uma sociedade não cultural, de um tribo na selva da Malásia, os aborígenos Sng'oi, que vivem numa sociedade desprovia de anxiedade, competição e sentimento de posse. Incluido como um elemento da familia além dos laços de sangue, Robert viveu e aprendeu a sua línguagem. Tendo desaprendido a aprender, conseguiu ultrapassar as assunções básicas da nossa cultura ocidental sobre o comportamento humano, onde algo "normal" e socialmente aceite nos impede de perceber em que pilares assenta. Percebeu, que nós como seres humanos, não podíamos estar mais alienados da forma pura e básica de viver no planeta terra.

Todo o processo cultural está embebido na linguagem. Aprender e ensinar está profundamente enraizado na nossa sociedade como processos verbais e ideológicos. Na tribo Sng’oi, assim como noutras partes do mundo, a linguagem raramente possui forma escrita, mas é sim entendida como a voz do organismo, assim como ‘o canto de um pássaro’, é fluente e livre. Perceber que o nosso afastamento do mundo natural tem vindo a danificar-nos no que significa ser humano e pertencer a um mundo inclusivo e interelacionado, é também, limitamo-nos a experienciar outras formas de conhecimento, que vão muito além do medir, quantificar, categorizar e interpretar.
Com isto, perceber o efeito da cultura na civilização humana, é estar atento à forma como educamos desde cedo e nos percepcionamos como seres biológicos que possuem estruturas pré-determinadas a evoluir e a se transcenderem a outras formas de conhecimento. Entender tal como Robert, que possuímos algo profundamente embotido na nossa natureza, que depois de desbloqueados os nossos sentidos, nos permite chegar ao nosso inner knowing.

Mulher, mulher...Mulher!

Simone Beauvoir. Se estivesse viva, faria 105 anos. É dela uma das principais frases do movimento feminista: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” 

A mulher não tem um destino biológico, é formada dentro de uma cultura que define qual a sua função dentro da sociedade. Por muito tempo, as mulheres ficaram aprisionadas ao papel de mãe e mulher (casamento), tirando outro caminho possível, o Convento. Porém, a própria Simone rompe com esse destino e faz com a sua vida algo completamente diferente do que seria de esperar para uma senhora.
Quando nascemos e somos crianças, não há, para além da sociedade, algo que nos distinga sexualmente, sentimos o mundo com os olhos e com as mãos. " O corpo é, primeiramente, a irradiação de uma subjectividade,  o instrumento que efectua a compreensão do mundo: é através dos olhos, das mãos e não das partes sexuais que apreendem o universo".
Quando somos adolescentes o nosso corpo passa a assumir e a integrar aquilo que é o nosso futuro, aquilo que já estaria predeterminado pela sociedade. A "juventude consome-se na espera. Ela aguarda o Homem." 
Depois, o homem chega, iniciando-se a vida sexual. O "Destino que a sociedade propõe é o casamento." A mulher torna-se vassala dele. Ela segue o trabalho dele, ele tem o poder económico, ela faz parte da família dele, ela fica como nome dele. Ela deve-lhe a virgindade e uma fidelidade rigorosa. 
A maternidade, de seguida, é a sua "vocação natural", que em vez de ser por sua vontade, acontece por vontade do Outro. 

“O Segundo Sexo” não é um livro que retrata a história da mulher desde a antiguidade. Mas sim uma obra de inspiração, fundamental para dar a mostrar a maneira pela qual as mulheres são criadas justamente para serem menos que os homens. O livro mostra-nos a diferença entre sexo e género: enquanto o sexo é uma diferença biológica, o género é uma diferença social, que parte de "criação" em vez de "natureza". Seguindo a noção existencialista de que a experiência precede a essência, argumenta que "NÃO SE NASCE MULHER, TORNA-SE MULHER". Ao longo da história, a mulher tem sido definida como "o outro" sexo, uma aberração do natural, do masculino, normal. Começou por escrever um texto que a caracterizava escrevendo "Sou uma mulher", e depois de reflectir sobre isto pensou que nenhum homem começaria por se descrever assim, "Sou um Homem" porque isso é um facto que lhes é dado desde sempre. Então começou a escrever um ensaio sobre a mulher, transformando-se neste belíssimo livro, que nos faz mesmo pensar em como se realiza um ser humano dentro da condição feminina.

Simone, com esta lógica tão característica de se colocar no mundo, decidiu escrever “O Segundo Sexo” ao perceber que nunca havia se perguntado: o que é ser mulher? Essa continua a ser uma pergunta actual, que deve ser feita por todas em algum momento da vida.

Do livro "O Segundo Sexo" de Simone De Beauvoir , TRADUÇÃO DE SÉRGIO MILLIET  


Identificação Cultural vs Identificação Natural

Identificação Cultural é aquilo que nós cremos que somos, quando na realidade não o somos. Identificação natural é Ser. Identificação cultural é aquilo que a sociedade nos conduz a crer que somos, quando na realidade não o somos. Identificação Natural é o que É. Identificação Cultural é Significado. O que É não se descreve, não se vê, sente-se. Identificação Natural é Significante.


Podemos nós viver nesta sociedade sem nos identificarmos culturalmente? Não, não podemos. Podemos nós viver nesta sociedade sem nos identificarmos naturalmente? Sim, podemos, contudo não devemos.

Tempos Modernos

“O trabalhador torna-se mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão.”

Em “O Trabalho Alienado” de Karl Marx, esta é uma das ideias essenciais que nos leva a entender o domínio do desenvolvimento sobre o próprio ser humano.
Com o forte aumento da industrialização o homem adaptou-se a este aumento de produção, deixou de ser o artista ou artesão e passou a fazer parte de um processo, tornou-se apenas mais uma “peça” num conjunto de mecanismos que levam à realização de algo.
O valor das coisas aumentou em proporção à desvalorização do homem e de quem as produz, o trabalhador tornou-se a mercadoria , que quanto mais produz, mais barata e desvalorizada fica. 
O homem trabalha pois essa é uma necessidade na sua vida enquanto ser humano, mas o capitalismo levou o homem a perder o controlo da sua própria vida,  tornou-se um objecto desvalorizado, apanhado a meio de um processo, sem importância alguma. O homem tornou-se o escravo do próprio objecto que produz, esta apropriação do objecto manifesta-se como alienação na medida em que quanto mais produzir, menos possui realmente.
Todo este poder que gera, acaba por se opor a ele próprio, retira-lhe a liberdade, é uma força hostil e antagónica.

Relacionei este tema a um filme que revi recentemente, “Tempos Modernos” de Charles Chaplin. É um filme que retrata exactamente esta questão da alienação do  trabalho, de uma forma satírica.
Vi este filme pela primeira vez quando era bastante mais nova, e toda a critica social e forte condenação que Charles Chaplin faz à sociedade passou-me completamente ao lado, mas depois de abordar mais profundamente este assunto e revendo o filme recentemente fez me ver o principal objectivo do filme.
A personagem Charlot trabalha numa fábrica, onde realiza a mesma função milhares de vezes durante o dia, que se repetem por vários meses, anos....

O trabalho é tão desmotivante e repetitivo, que acaba por levar Charlot à loucura, acabando por não ver mais nada a frente.  O filme pretende mostrar que o homem está a virar máquina, e que esta está cada vez mais ligada a ele, está a perder a sua essência em detrimento de um objecto, de algo que não é seu, que apenas produz.



Excerto do filme "Modern Times" de Charles Chaplin 

Pepsi

Uma publicação oficial da marca norte americana Pepsi fez escandalizar o povo português após o jogo da selecção contra a Suécia, trata-se de uma publicidade a favor da selecção sueca, obviamente com o apoio da bebida, directamente dirigida ao jogador Cristiano Ronaldo apelando ao seu fracasso nessa competição, representando-o através de um boneco de trapos acorrentado numa linha de comboio pronto a ser "esmagado" tal como a propaganda o diz. Trata-se de uma imagem ironicamente violenta.
As reacções portuguesas a esta publicidade destacada em horário nobre português, evidenciaram um claro e imediato  sentimento de repugna pela marca, criou-se rapidamente uma espécie de irmandade nacional contra a firma, as opiniões, todas do mesmo carácter de fúria, publicadas em jornais, revistas e paginas de Internet preencheram os dias seguintes à publicação.
Subitamente, o ícone Ronaldo condensou todo o sentir de um povo, instintivamente as massas portuguesas criaram um inimigo fictício ao sentir o seu prodígio humilhado por algo que até apreciavam e nesse sentido sentiram-se atraiçoados por essa marca. Este comportamento contra a pepsi demonstra uma atitude alienada do ser humano, a marca/objecto passou a ser o inimigo número um do povo português, este numa atitude inconsciente perante o suposto inimigo desvia a sua atenção do seu verdadeiro problema social que o afecta verdadeiramente na sua maioria,o facto de estar empobrecer cada vez mais deixa de ser da sua principal preocupação, os cortes dos seus direitos e da sua dignidade, conceitos que dizem respeito à sua própria natureza humana são ignorados, direitos que este novo orçamento vem a a retirar. Em vez do povo se revoltar a quem lhe tira a democracia e o empobrece indigna-se contra uma marca que a ele directamente não prejudica absolutamente nada.
Penso que este episódio foi um bom exemplo de uma alienação perigosa do ser humano, infelizmente é possível encontrar muitos outros exemplos que distraem os portugueses do que realmente importa...basta ligar a televisão, escolher o canal e a nossa opinião do que está a acontecer no mundo está concebida.
Talvez por ser mais fácil pensar sobre ou chatear-se por algo que não existe do que é bem real isto acontece. 
Deixo aqui um vídeo exemplar da descontrolada indignação relacionado com o exemplo, foi a fonte desta publicação fez-me pensar de quando for o momento de acordar.

A previsibilidade do cinema



O cinema, existente há practicamente um século, tem hoje um significado duplo. Por um lado é uma das artes mais importantes na história da humanidade, já que consegue representar um momento passado, a nível visual e auditivo, tornando-o eterno e multiplicável; por outro lado é o produto de uma das maiores indústrias mundiais. 

Apesar de ao início ser encarada como uma técnica artística, esse elemento da arte foi se a pouco e pouco perdendo, dando lugar à sua industria produtora em massa. O cinema começou a ser encarado como uma forma de entretenimento e escapismo do quotidiado, e a sua produção a ser cada vez mais dirigida ao espectador. Graças ao aumento da indústria, e à crescente facilidade de se criar um filme, gerou-se uma explosão cinematográfica, de filmes criados para serem best-sellers, utilizando sempre essencialmente aquilo que apelava ao público: uma storyline simples, com os naturais clichês das dualidades entre o bem e o mal, e um já aguardado fim feliz.

Esta utilização de simples clichês deve-se pela criação de um objecto para as massas, com o objectivo de satisfazer o maior número de pessoas possível. O facto de a indústria se assumir, não como uma forma de arte, mas sim de simples entretenimento também provoca que o nível de desenvolvimento crítico dos filmes diminua. Entertenimento, na nossa cultura ocidental, significa conforto, algo agradável que nos permita desfrutar do tempo livre que temos, incluindo pouco esforço intelectual.

Consumo na Procura de Felicidade

Actualmente, vivemos numa sociedade caracterizada pelo consumismo, que, supostamente, nos aproximaria da desejada felicidade mas que na verdade só nos traz comodidade, alienação e até frustração, afastando-nos ironicamente do que procuramos.
Principalmente isto se deve aos media, e, em consequência, aos hábitos daqueles que nos rodeiam. O ser humano tem vivenciado um mundo em que os meios de comunicação têm divulgado e implantado nas suas mentes a ideia da felicidade comprada. Isto é feito com inúmeras artimanhas, das quais posso citar a utilização da sexualidade, da imagem de alguém famoso utilizando certo produto ou a exibição de uma pessoa poderosa obtendo um item que lhe traz mais “felicidade”. Da dificuldade de preencher o seu vazio interior os homens deixam-se assim manipular e procuram preencher o que é espiritual com bens superficiais. Mesmo os indivíduos que inicialmente resistem diretamente a este ataque dos media acabam, na sua maioria, a serem levados a adquirir um comportamento consumista pelo convívio com os demais, pois estes fazem, até sem se aperceberem, constante pressão psicológica para que os dissidentes percam o seu comportamento individual e adquiram o comportamento da massa – exemplo disto é a descriminação daqueles que se vestem de uma forma fora dos parâmetros da maioria ou o impulso que um jovem sente de comprar a consola de última geração para poder acompanhar os amigos.

Infelizmente a omnipotência e a omnipresença dos media uniformiza os homens, determinando o que se come, onde se vive, como nos devemos divertir, o que devemos trajar, o que se ler e em que se acreditar. As pessoas não procuram, pelo menos fulcralmente, o seu bem-estar no convívio real com os outros, na procura de conhecimento, no contacto com a natureza ou na sua própria elevação como ser humano, em vez disso, pensam que vão encontrar a felicidade numa consola, comprando roupa da moda ou ridiculamente num carro que atinge os 300 km/h quando vivemos num país em que a velocidade máxima permitida são os 120 km/h.
Nunca nos sentiremos preenchidos, a insatisfação faz parte da natureza do homem, mas poderíamos satisfazer-nos um pouco mais se começássemos a pensar por nos próprios e se nos focássemos em bens espirituais e não na procura da felicidade em bens materiais. 

A separação do viver natural

Ao longo da história tem-se assistido à alienação do homem, isto é, à sua desumanização. Segundo  Karl Marx , o desenvolvimento tecnológico ,ou melhor, de meios de produzir riqueza  e bens  que  satisfaçam  as necessidades  do ser humano  é o  fator evidente que levou  a separação do homem do viver natural.
As condições materiais passaram  a  condicionar a vida, tornamo-nos  cada vez mais afastados de uma relação natural com o ambiente.  Modificamo-nos, alterando aquilo que é necessário à nossa  existência.  Criamos novas necessidades que passaram a ser tão fundamentais quanto as  denominadas  necessidades básicas  a nossa sobrevivência .
Velhas necessidades  obtiveram  características  diferentes. O homem   alterou  a natureza, através de sua ação tornando-a humanizada.  Tentou descobrir o que lhe dará maior satisfação,maior conforto. Na sua procura de conforto, o homem construiu através dos séculos as seguranças da religião, dos ideais, das crenças, e a idéia de Deus. Procurou cada vez mais o lazer na sociedade,que hoje em dia significa mais consumo do que descanso.   Como por exemplo : os shoppings centers,  espaços destinados a "proporcionar momentos de lazer e diversão para toda a família", onde a pessoa encontra tudo o que procura: alimentação, diversão, produtos e serviços etc.  Ou seja,tanto o trabalho  que faz o trabalhador  estar convencido de que o lazer deve ser “recompensa pelo trabalho”como também - o não trabalho(o lazer )  favorece o sistema capitalista e a sociedade do consumo, a mercadoria  que nos parece uma  coisa física  , mas na verdade  é social, é simbólica  tendo uma relação simbólica e não natural.
 O desenvolvimento tecnológico,para alem de diminuir o tempo de trabalho do ser humano,  não contribuiu  para a qualidade de vida  do ser humano ,mas fez com que o  homem ficasse  dependente da necessidade do salário ,como também o tornou  de certo modo,ignorante e escravo dessa nova sociedade de consumo,pois muitas das vezes ,acaba por nunca ver o  produto do seu  próprio trabalho como também não se reconhece no que produz.Como tal, no tipo  de produção capitalista, o trabalhador perde a sua dignidade tornando-se coisa”, coisa comprada e vendida no mercado. E “a vida mesma”, diz Marx,resumida na  luta pela sobrevivência ,perde toda a dignidade, e “aparece só como meio de vida”
 Deste modo há uma separação  da cultura em relação a natureza . A relação  do homem com a parte natural  já não acontece a muito tempo.  De momento só existe o convívio codificado por publicidades, represenções, moda e a pseudonecessidade por produtos e serviços diversos . Assim, somos simplesmente peças  que favorecem o funcionamento de um sistema(quer seja econômico ou político), e escravos da opinião pública. Desde modo,nunca poderemos descobrir os valores verdadeiros,os únicos que nos proporcionam a felicidade eterna enquanto estivermos a procura de conforto.Nem somos indivíduos  quando não temos a consciência dos valores aos quais nos acostumamos , através de religiões ,busca de crenças e ideais .

 O cenário moderno dificultou o relacionamento do homem com a natureza.

Alienação em Lost in Translation


O filme de Sofia Coppola, Lost in Translation (2003), além de retratar o caso amoroso entre as personagens de Bill Murray e Scarlett Johansson, também oferece uma visão singular do choque cultural que é a transição de um mundo anglo-saxónico para um universo cultural bastante diferente, neste caso o Japão. 

Esta transição é explorada na óptica de dois americanos, incapazes de se integrar na cultura onde foram inseridos, de uma forma centrada nas suas angústias e na maneira em que as partilham. Seria inevitável que este filme não caísse em estereótipos baseados na diferença linguística, rácica e cultural que aliena os protagonistas do meio envolvente. 

Porém, este distanciamento entre as personagens e a cultura em que são colocadas foi mal interpretado. Um grupo anti-racismo japonês quis tirar o filme da corrida aos Óscares, acusando-o de fazer um retrato do povo japonês baseado em estereótipos e de tratar a sua cultura com desconsideração e desdém. No entanto, tal protesto foi em vão, Lost in Translation venceu o Óscar de Melhor Argumento Original nesse ano.

Enfatizar as diferenças entre Tóquio e os Estados Unidos é algo vital para a narrativa do filme. Ambas personagens sentem um desconforto mundano que é consequente do ambiente que as rodeia. Ao partilharem este sentimento, há uma conexão instantânea e profunda que transcende a linha ténue entre romance e amizade. A única coisa que torna credível esta aproximação é a alienação das personagens do que as rodeia. Por esta razão, dar ênfase à estranheza de Tóquio é necessário para fundamentar a relação entre os protagonistas.


A nossa vida predeterminada

A linguagem é a forma mais clara que os indivíduos utilizam para comunicar entre si. Mas existem também certos comportamentos-padrão que nos são incutidos quando crescemos, que nos permitem relacionarmo-nos com um grupo de pessoas. Gestos como um aperto de mão, cumprimentar as pessoas com beijinhos, bater palmas, acenar com a mão para dizer adeus, ou até esticar o braço para chamar o autocarro, são naturais em nós, automáticos. Usualmente não reflectimos sobre qual a melhor maneira de cumprimentar uma pessoa, ou como chamar o autocarro.

Mas tal como estes gestos nos foram incutidos, outros um pouco mais complexos também foram. E não só gestos, como também formas de pensar. As crianças são educadas pelos pais de forma a serem bem vistas pelos outros, serem bem educadas e simpáticas, mesmo quando isso é o contrário da sua vontade. Então, as crianças ao adaptarem-se ao mundo à sua volta, não conseguem manter a sua essência na totalidade. E, à medida que crescem, vão-se habituando a comportar-se como a maioria das pessoas, pois não querem ser repreendidas ou consideradas “estranhas”.


Por exemplo, um indivíduo que não tenciona estudar pois não é isso que o motiva, e prefere antes estar em contacto com outro tipo de coisas, é visto como ignorante. O senso comum da sociedade considera que esta atitude é errada, pois ele deveria ir para a escola e de seguida para a faculdade como as pessoas “normais”. Um indivíduo homossexual esconde o seu verdadeiro eu, criando assim uma “máscara” de si mesmo, que mostra ao mundo, enquanto não assume a sua orientação. Essa máscara pode vir a ser fatal para ele, pode criar uma verdadeira crise de identidade em si. Tudo isto porque a sociedade diz: vai para a escola, trabalha, ganha dinheiro, tem uma vida normal. Desde que nascemos que a sociedade nos diz isto, e isso faz com que a nossa vida já esteja estipulada, de acordo com a sociedade em que nos encontramos e outros factores com a família.


Se não nos atrevermos a sair das regras, a nossa vida será assim, a que nos foi pré-concebida. Mas ao mesmo tempo que a sociedade nos mete estes preconceitos na cabeça, diz nos que cada indivíduo é único e livre de fazer as suas escolhas. Mas na prática não é. A sociedade não está preparada para aceitar que as pessoas sigam o seu próprio caminho. Se o senso comum se continuar a comportar desta forma, a concretização que as pessoas sentem será cada vez menor.


Sociedade em Questão

Vivemos numa sociedade que se alimenta á base de criticas e dramas. Todos acham que sabem como os outros deviam ser, o que deviam fazer. Criticam o modo de viver e de ser dos outros e no fim acabam por se revoltar por estarem a ser criticados. 
  Dizem que o mundo é um lugar injusto, que cada um deve viver como quer, desde que na liberdade de ser ele próprio continue respeitando o outro, no entanto, ninguém está realmente disposto a mudar para que essa sociedade sonhada por tantos se torne a sociedade onde vivemos.

  “Everybody wants to change the world, but nobody wants to change.”

  E isto porque até as crianças são vitimas destas criticas, os “não faças isso que é feio”, os “as raparigas não gostam se fizeres isso”, “as meninas bonitas não fazem isso”, estes tipos de frases ficam presas na mente duma criança e tornam-se regras para sobreviver neste tipo de sociedade. Acabam por crescer a pensar que o que lhes foi ensinado é o correcto e a única forma de ver as coisas. 
  Ao verem os adultos criticarem e sendo vitimas de algumas dessas criticas, as crianças tomam-nas como acções correctas, algo “bom” de se fazer, então começam também a criticar e julgar os que os rodeiam. 
  Um pouco como Marx e Engels mostram em “Ideologia alemã”, tudo isto gira á volta duma ideia do que o ser humano deve ser e como se deve comportar, levando a que, quando uma pessoa sai um pouco fora do normal ou faz algo inesperado seja criticado, porque não corresponde ás expectativas da sociedade. 

  Não queremos que a sociedade nos manipule e nos deixe desconfortável, queremos viver numa sociedade respeitadora e que viva em comunidade, mas esquecemo-nos que nós somos a sociedade, se não começarmos a mudar, a sociedade também não mudará.

Another Brick In The Wall



We don't need no education
We don’t need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers leave them kids alone
Hey! Teachers! Leave them kids alone!
All in all it's just another brick in the wall.
All in all you're just another brick in the wall.

Another Brick In The Wall, música dividida em 3 partes, composta por Roger Waters, lançada no inicio da década de 80 pelo legendário grupo britânico Pink Floyd. Acredito que todos já tenham ouvido esta música ou visto o seu videoclip... Eu já e considero-o a rampa de lançamento perfeita para explorar um tema que podemos encontrar à nossa volta, todos os dias, manifestado das mais variadas maneiras: a alienação.
Este polémico vídeo causa diversas reações pelo mundo fora e desde o seu lançamento até aos nossos dias encontra-se envolto em polémicas e discussões. Tudo isto por colocar em causa uma das mais importantes bases da sociedade: a educação, mais especificamente, a escola. A escola assume o papel de educadora, com o objetivo de formar cidadãos pensantes, criativos e questionadores, assumirem um papel ativo na nossa sociedade. Contudo, acredito no que é exemplificado no vídeo acima referido. Na maior parte dos casos, a escola assume o papel de alienação, não nos ensina a pensar ou a questionar, mas sim a moldarmos a nossa mente como nos impõem, utilizando um método de educação igual para todos, formando sim cidadãos descaraterizados e padronizados na sociedade. Como nos é exemplificado no vídeo Another Brick In The Wall, um grupo de crianças com máscaras iguais, a deambularem pela escola como zombies ou máquinas. As crianças perdem a sua identidade desde cedo, tornando-as iguais e fazendo-as pensar como a sociedade quer que pensem, acabando por se tornar em apenas mais uma, igual a tantas outras”. Outro exemplo no vídeo, quando o aluno é humilhado e ridicularizado pelo professor por escrever poemas. Isto acontece todos os dias em toda a parte, as capacidades criativas que tornam o aluno num individuo e não numa máquina são postas de lado pelo próprio professor (que pode também ser alvo de alienação), pelo ensino, e pior ainda, são destruídas. O que antes eram qualidades são assumidas como defeitos e alvos a abater. Resumindo, a escola é uma forma de alienação que nos transforma em tijolos e todos juntos formamos um enorme muro que parece indestrutível.
Perante tudo isto, Another Brick In The Wall não é apenas uma música/vídeo, é um hino de revolta. Não de revolta pura e sem motivo, mas de uma revolta consciente, de indivíduos que não se acomodam ao que vêm de errado e se manifestam contra, no fundo, que querem deixar de ser apenas "mais um tijolo no muro".
 

Manipulação de mentes através da Indústria Cultural


A sociedade contemporânea pensa ter atingido nas últimos décadas um total de liberdade nunca antes conseguido. Pensamos ter liberdade de escolha e sobretudo de pensamento. Pensamos que sem um regime autoritário que dita mentalidades e comportamentos como os vários que houve durante séculos somos livres de pensar, fazer e ser aquilo que queremos mais do que alguma vez a humanidade foi. Infelizmente não poderíamos estar mais enganados.
Subtilmente, somos a todo o instante observados e manipulados pela indústria cultural. Essa manipulação é de tal forma subtil que é até difícil acreditar que nos deixamos enganar tão facilmente, e poderemos inicialmente ficar um pouco ou tanto relutantes com esta ideia tão evasiva de que nem liberdade de escolha possuímos. A verdade, é que se tivermos atenção somos capazes de reparar que todos os produtos que consumimos são apenas distinguidos por pequenas diferenças, diferenças estas que são cruciais para perpetuar a ilusão de possibilidade de escolha que todos achamos ser um dado adquirido quase por natureza. Tudo isto não passa duma manipulação inteligente duma sociedade em que os dominados vivem sob o poder dos dominantes, sem talvez sequer saber a que lado da equação pertencem. Tal só é possível por sermos constantemente distraídos por uma indústria de entretenimento que nos dá esta sensação que se somos livres de escolher, quando a escolha já foi feita por nós. Pertencemos a esta sociedade alienada de si mesma, sem a menor consciência do que se passa dentro no interior do seu núcleo. Talvez já tenhamos tido uma pequena ideia da manipulação que nos é feita através da propaganda de produtos, porque no fundo até parece fazer sentido que a Indústria queira atrair consumidores seja de que maneira for. Mas será que já pensámos como as restantes indústrias nos distorcem o pensamento?  
Talvez para muitos ainda não seja visível a forma como todas as vias de comunicação servem como veiculo de condução à mentalidade que os dominantes pretendem atribuir aos dominados. Seja pela distorção de factos dada pelos noticiários ou pelo conteúdo genérico aplicável a toda uma sociedade que as novelas e filmes apresentam, somos cuidadosamente e subtilmente conduzidos à ideologia e moralização que os dominantes pensam ser a apropriada ou desejada. Talvez inconscientemente tenhamos um pouco consciência disto, porque afinal, todos nós já notámos o quão previsível se tornou o entretenimento que nos é dado pela indústria. Todavia permanecemos estáticos e apáticos, consumindo todo este entretenimento cuidadosamente planeado, sem notar que o fim pretendido com esta manipulação já está intrinsecamente penetrado em cada um de nós. Talvez tal aconteça por ser mais difícil revoltarmos -nos contra uma indústria tão poderosa do que simplesmente deixarmos -nos manipular. É que estes produtos são tão cuidadosamente planeados que a forma de os apreendermos torna impossível toda uma actividade intelectual que consequentemente torna mais simples a forma como iremos absorver os objectos que a indústria cultural seleccionou cuidadosamente para modificar subtilmente a nossa maneira de pensar e agir.
Resta a questão, será que se todos os membros da sociedade tivessem inteira consciência de que com esta funciona e da forma como somos enganados e manipulados a cada instante, conduzidos a uma ideologia preparada genericamente para nós, continuaríamos a apreciar da mesma maneira de todos aqueles pequenos prazeres como ir ao cinema ou comprar uma camisola? Ou será que iríamos ficar tão repugnados pela forma como somos manipulados que tentaríamos quebrar toda esta concepção?










A Ideologia nas Calças de Ganga



Que o nosso pensamento possa ser ideológico é uma sugestão que rejeitamos quase instintivamente, não venham as bases das nossas mais queridas convicções a revelar-se compostas de areias mais movediças do que desejaríamos… (McLellan, 1986, p.13)

É por esta razão que o estudo do conceito de ideologia, se traduz em várias tentativas de encontrar um ponto fora da esfera do discurso ideológico, de onde seja possível observar os mecanismos da ideologia em acção. 
Marx chegou à "falsa consciência" da classe trabalhadora, na qual a "consciência de si", das suas relações com os outros e da sua própria experiência social seria produzida pela sociedade e não pela natureza ou psicologia individual. Assim, seria inevitável uma transformação do estado social, para uma sociedade justa e igualitária (sem classes dominantes ou oprimidas) e livre de ideologias onde todos teriam uma verdadeira consciência de si mesmos.
Mas se para Marx esta mudança era inevitável, Althusser considerava-a improvável. Este entendia que a ideologia era de facto mais eficiente do que Marx julgava, estando profundamente inscrita na forma de pensar e viver de todas as classes. 
Gramsci, embora concordando com Althusser quanto ao facto dos oprimidos consentirem na ideologia dominante, participando assim na propagação do discurso ideológico, apresenta uma teoria mais satisfatória, que tem em conta as contradições e resistências que a experiência social apresenta, tornando a mudança social possível.
O teórico propõe então um conceito de ideologia como luta que implica a conquista e reconquista constante do consentimento da maioria em relação ao sistema que a subordina - a hegemonia. A ideologia dominante tem de ultrapassar as resistências que a classe oprimida apresenta, impondo-lhe um sistema que a desfavorece.
Estas resistências são estudadas por Fiske, que apresenta inúmeros exemplos práticos do discurso ideológico na sociedade.

Ao ler o seu estudo sobre as práticas ideológicas implicadas no uso das calças de ganga fiquei perplexa com a quantidade de conclusões etnográficas e sociais que se podem extrair da sua utilização. De facto, tinha a consciência de que a disseminação deste objecto transcende sexos, classes, raças e idades, mas nunca tinha reflectido sobre o porquê da sua popularidade. 
A verdade é que para além da sua óbvia funcionalidade, existem muitas outras justificações para o seu domínio no sector do vestuário: Fiske dividiu estas razões em três grupos de significações dominantes.
A primeira seria a associação com o trabalho duro, passatempos violentos, actividade física e dignidade do trabalho; de seguida a associação com o Oeste americano em torno da liberdade, naturalidade, dureza, inconformidade e tradição; e por fim o consenso social que criam, transcendendo as categorias sociais e conferindo o individualismo procurado, que não significa ser diferente dos outros, mas ter ligeiras diferenças dentro do modelo social aceitável.
Assim, para contradizer estas significações dominantes, alguns indivíduos apresentam resistências à sua utilização, rasgando-as, tingindo-as ou deformando-as. No entanto esta não é uma rejeição completa e absoluta, pois apesar de deformadas, as calças continuam a ser de ganga. 
A indústria reage e procura incorporar essas resistências na ideologia dominante, criando modelos novos que possuam as características enunciadas. Através da publicidade e comunicação é também dada a sensação de que cada modelo foi criado especialmente para um grupo ou público que reconhece os seus valores e identidade social no produto, e é tentado a adquiri-lo.
De facto, as calças de ganga proporcionam comodidades (próprias do sistema capitalista) como o aquecimento do corpo, o conforto, a decência… pelo que ao utilizá-las estamos a viver, validar e promover a ideologia dominante. Posto isto, ao estarem rasgadas e ainda assim em uso, a compra de umas calças novas é adiada, o que contribui para a recusa da comodidade e consequentemente do capitalismo. Este paradoxo da recusa da comodidade usando recursos da própria comodidade (não deixam de ser calças de ganga) é a conquista da ideologia dominante perante uma resistência apresentada.
Conclui-se assim que a incorporação é a arma mais eficaz da ideologia, pois permite o controlo da própria resistência: é concedida liberdade suficiente para manter os resistentes iludidos mas não para ameaçar o sistema ideológico e permite ainda a sensação diferenças sociais e conflitos de interesse que são essenciais para que a heterogeneidade da sociedade seja produtiva mas não estática, progressiva mas não reaccionária.

Referências:
Fiske, J. (1989) Understanding Popular Culture. New York: Routledge
Fiske, J. (1990) Introdução ao Estudo da Comunicação. Porto: Asa
McLellan, D. (1986) A Ideologia. Lisboa: Estampa

Para uma Postura Relativista

Na herança de um pensamento positivista, o ato de conhecer implica uma distância entre o observador e o objecto observado. Só esta fronteira permite produzir um pensamento de substituição que constitui, em si, o Conhecimento. Neste processo a língua desempenha um papel fundamental. A realidade material é virtualizada num sistema de significados através de um processo mental  inconsciente (F. de Saussure).

Na linha de pensamento de A. Comte, através da abstração dos interesses pessoais – e, portanto, subjetivos – é possível obter-se uma posição neutra que permite um conhecimento objetivo, verdadeiro e absoluto. Objetividade e neutralidade são pilares fundamentais do “otimismo epistemológico” que carateriza o Conhecimento tal como os positivistas o concebem.

Para Hegel, a verdade absoluta não é possível porque ela implica necessariamente o instrumento que levou ao Conhecimento: o próprio processo de conhecer. De modo a atingir conhecimento, é imprescindível uma separação do Geist, o Espírito. A noção de Geist de Hegel é concebida como o oposto da matéria, nele estando incluído toda a existência. É uma consciência universal que se manifesta na realidade concreta, uma unidade que contém uma infinidade de partes que são expressão de si. É unidade e separação simultaneamente.
De modo a conhecer separamo-nos do Geist criando uma individualidade, um sujeito, que para se conhecer a si mesmo necessita afinal de se alienar de si. Assim, também para Hegel o conhecimento implica exterioridade.

O otimismo epistemológico, a neutralidade científica e o paradigma positivista do Iluminismo Francês são postos em causa pelas descobertas no âmbito da física moderna, nomeadamente com a física quântica de M. Planck, a teoria atómica de N. Bohr e a teoria da relatividade de A. Einstein. A Ciência não é já um decalque da realidade para ser um estudo probabilístico (W. Heisenberg), a realidade torna-se “incomensurável” (T. Kuhn) e o observador está necessariamente implicado no observado.

Ao contrário de Descartes que enuncia uma oposição radical entre razão e sentidos, Kant entende que os “fenómenos” -  os nossos sentidos, interesses e demais influências na nossa percepção – são indissociáveis da razão e, portanto,  a relação que temos com o mundo é sempre mediada e filtrada pelos mesmos. Não é para Kant possível, portanto, conhecer o “Númeno”, a verdadeira existência, que permanecerá para sempre oculta.

Toda esta problematização nos é útil para a análise cultural. C. Geertz opõe-se à natureza universalista de alguma explicação antropológica, que procura leis, fazendo a apologia do concreto, do contextual e do particular. A compreensão da cultura implica necessariamente subjetividade e é essencialmente interpretativa. O observador faz parte integrante do processo de construção de sentidos. Geertz leva o seu relativismo a ponto de dizer que os textos antropológicos são verdadeiras “interpretações de interpretações”. Os nativos de uma cultura interpretam a realidade e o estudioso da cultura interpreta as interpretações dos nativos. Desta forma, Geertz chega a dizer-nos que a etnografia é mais uma descrição daquele que descreve do que daquele que é descrito, aproximando-se de um texto autobiográfico e ficcional. “O observador é o próprio objecto observado” (J. Krishnamurti). Nesta linha de pensamento, o sujeito não se pode alienar nem de si, nem do todo em que se encontra inserido, nem – nas palavras de Hegel – do Geist. Numa postura relativista extrema nada é, afinal, passível de conhecimento.