A sociedade contemporânea pensa ter atingido nas últimos décadas um total de
liberdade nunca antes conseguido. Pensamos ter liberdade de escolha e sobretudo
de pensamento. Pensamos que sem um regime autoritário que dita mentalidades e
comportamentos como os vários que houve durante séculos somos livres de pensar,
fazer e ser aquilo que queremos mais do que alguma vez a humanidade foi.
Infelizmente não poderíamos estar mais enganados.
Subtilmente, somos a todo o instante observados e manipulados pela
indústria cultural. Essa manipulação é de tal forma subtil que é até difícil
acreditar que nos deixamos enganar tão facilmente, e poderemos inicialmente
ficar um pouco ou tanto relutantes com esta ideia tão evasiva de que nem
liberdade de escolha possuímos. A verdade, é que se tivermos atenção somos
capazes de reparar que todos os produtos que consumimos são apenas distinguidos
por pequenas diferenças, diferenças estas que são cruciais para perpetuar a
ilusão de possibilidade de escolha que todos achamos ser um dado adquirido
quase por natureza. Tudo isto não passa duma manipulação inteligente duma
sociedade em que os dominados vivem sob o poder dos dominantes, sem talvez
sequer saber a que lado da equação pertencem. Tal só é possível por sermos
constantemente distraídos por uma indústria de entretenimento que nos dá esta
sensação que se somos livres de escolher, quando a escolha já foi feita por
nós. Pertencemos a esta sociedade alienada de si mesma, sem a menor consciência
do que se passa dentro no interior do seu núcleo. Talvez já tenhamos tido uma
pequena ideia da manipulação que nos é feita através da propaganda de produtos,
porque no fundo até parece fazer sentido que a Indústria queira atrair
consumidores seja de que maneira for. Mas será que já pensámos como as
restantes indústrias nos distorcem o pensamento?
Talvez para muitos ainda não seja visível a forma como todas as vias de
comunicação servem como veiculo de condução à mentalidade que os dominantes
pretendem atribuir aos dominados. Seja pela distorção de factos dada pelos
noticiários ou pelo conteúdo genérico aplicável a toda uma sociedade que as
novelas e filmes apresentam, somos cuidadosamente e subtilmente conduzidos à
ideologia e moralização que os dominantes pensam ser a apropriada ou desejada.
Talvez inconscientemente tenhamos um pouco consciência disto, porque afinal,
todos nós já notámos o quão previsível se tornou o entretenimento que nos é
dado pela indústria. Todavia permanecemos estáticos e apáticos, consumindo todo
este entretenimento cuidadosamente planeado, sem notar que o fim pretendido
com esta manipulação já está intrinsecamente penetrado em cada um de nós.
Talvez tal aconteça por ser mais difícil revoltarmos -nos contra uma indústria
tão poderosa do que simplesmente deixarmos -nos manipular. É que estes produtos
são tão cuidadosamente planeados que a forma de os apreendermos torna
impossível toda uma actividade intelectual que consequentemente torna mais
simples a forma como iremos absorver os objectos que a indústria cultural
seleccionou cuidadosamente para modificar subtilmente a nossa maneira de pensar
e agir.
Resta a questão, será que se todos os membros da sociedade tivessem inteira
consciência de que com esta funciona e da forma como somos enganados e
manipulados a cada instante, conduzidos a uma ideologia preparada genericamente
para nós, continuaríamos a apreciar da mesma maneira de todos aqueles pequenos
prazeres como ir ao cinema ou comprar uma camisola? Ou será que iríamos ficar
tão repugnados pela forma como somos manipulados que tentaríamos quebrar toda
esta concepção?