Nascemos,
crescemos e morremos. O percurso natural das coisas podemos dizer. Sendo que hoje em dia fazemo-lo de maneira diferente. Fazemo-lo nas nuvens.
Envelhece-se
no sonho sonhando com uma vida longe de tudo. Longe do monstro que
nos agarra e puxa bem para cima, tão para cima que só se vê luz.
Encadeados, impossibilitados de ver algo mais do que essa luz,
ficamos cegos. Só o que está à nossa frente é perceptível, e
poucas vezes pensamos em olhar para baixo. Custa olhar para baixo.
Dói olhar para baixo e ainda mais, dói questionar o que há para
além da luz.
Vive-se
afastado da Terra, alienados dizia Marx, com a cabeça no mundo das
imagens, das ideias, da imaginação, dos produtos. Vivem-se tempos
onde a imagem é tudo, onde se desperdiça uma vida inteira a
construir essa dita perfeição, aceite e respeitada por todos.
Interessante, divertida e cheia de aventura. Despersonalizada.
Para
o alcançarem as pessoas rodeiam-se de coisas. Coisas repletas de
ideias que as transportam para um mundo diferente que só se adquire
quando se obtém esse objecto. Passando esse agora a ser o "meu
mundo". Compro, compro, compro, compro. Tenho, tenho, tenho,
tenho. Meu, meu, meu, meu. Eu. Eu. Eu. Eu. O importante é ter e
parecer.
Rapidamente
entra-se no jogo. Se é que alguma vez se esteve fora. Passa-se a mero pião. Mais um a cair na cadeia da objetificação e
materialização do ser humano. A partir de agora é-se mercadoria,
um número, uma moeda que entra no bolso de alguém. Desmembrado e
transformado, sou um autómato deslumbrado. Deixo de se
ser para pertencer a alguém que me controla com as mesmas imagens
que tanto quis e ainda estimo.
É
difícil ver com tantas luzes, cores, sons, cheiros e texturas. Sou
constantemente provocado, envolvido, abordado... Corrompido seguimos a maré. É impossível fugir. O mundo das ideias é
aliciante quando desconhecido e descompreendido, porém, igualmente
perigoso e mortífero.