sábado, 23 de novembro de 2013

Nas nuvens


Nascemos, crescemos e morremos. O percurso natural das coisas podemos dizer. Sendo que hoje em dia fazemo-lo de maneira diferente. Fazemo-lo nas nuvens.

Envelhece-se no sonho sonhando com uma vida longe de tudo. Longe do monstro que nos agarra e puxa bem para cima, tão para cima que só se vê luz. Encadeados, impossibilitados de ver algo mais do que essa luz, ficamos cegos. Só o que está à nossa frente é perceptível, e poucas vezes pensamos em olhar para baixo. Custa olhar para baixo. Dói olhar para baixo e ainda mais, dói questionar o que há para além da luz.

Vive-se afastado da Terra, alienados dizia Marx, com a cabeça no mundo das imagens, das ideias, da imaginação, dos produtos. Vivem-se tempos onde a imagem é tudo, onde se desperdiça uma vida inteira a construir essa dita perfeição, aceite e respeitada por todos. Interessante, divertida e cheia de aventura. Despersonalizada.
Para o alcançarem as pessoas rodeiam-se de coisas. Coisas repletas de ideias que as transportam para um mundo diferente que só se adquire quando se obtém esse objecto. Passando esse agora a ser o "meu mundo". Compro, compro, compro, compro. Tenho, tenho, tenho, tenho. Meu, meu, meu, meu. Eu. Eu. Eu. Eu. O importante é ter e parecer.
Rapidamente entra-se no jogo. Se é que alguma vez se esteve fora. Passa-se a  mero pião. Mais um a cair na cadeia da objetificação e materialização do ser humano. A partir de agora é-se mercadoria, um número, uma moeda que entra no bolso de alguém. Desmembrado e transformado, sou um autómato deslumbrado. Deixo de se ser para pertencer a alguém que me controla com as mesmas imagens que tanto quis e ainda estimo.

É difícil ver com tantas luzes, cores, sons, cheiros e texturas. Sou constantemente provocado, envolvido, abordado... Corrompido seguimos a maré. É impossível fugir. O mundo das ideias é aliciante quando desconhecido e descompreendido, porém, igualmente perigoso e mortífero.