Na herança de um pensamento positivista, o ato
de conhecer implica uma distância entre o
observador e o objecto observado. Só esta fronteira permite produzir um
pensamento de substituição que constitui, em si, o Conhecimento. Neste processo
a língua desempenha um papel fundamental. A realidade material é virtualizada
num sistema de significados através de um processo mental inconsciente (F. de Saussure).
Na linha de pensamento de A. Comte, através da
abstração dos interesses pessoais – e, portanto, subjetivos – é possível
obter-se uma posição neutra que permite um conhecimento objetivo, verdadeiro e
absoluto. Objetividade e neutralidade são pilares fundamentais do “otimismo
epistemológico” que carateriza o Conhecimento tal como os positivistas o
concebem.
Para Hegel, a verdade absoluta não é possível
porque ela implica necessariamente o instrumento que levou ao Conhecimento: o
próprio processo de conhecer. De modo a atingir conhecimento, é imprescindível
uma separação do Geist, o Espírito. A noção de Geist de Hegel é
concebida como o oposto da matéria, nele estando incluído toda a existência. É
uma consciência universal que se manifesta na realidade concreta, uma unidade
que contém uma infinidade de partes que são expressão de si. É unidade e
separação simultaneamente.
De modo a conhecer separamo-nos do Geist criando uma individualidade, um
sujeito, que para se conhecer a si mesmo necessita afinal de se alienar de si. Assim, também para Hegel
o conhecimento implica exterioridade.
O otimismo epistemológico, a neutralidade
científica e o paradigma positivista do Iluminismo Francês são postos em causa pelas
descobertas no âmbito da física moderna, nomeadamente com a física quântica de
M. Planck, a teoria atómica de N. Bohr e a teoria da relatividade de A. Einstein.
A Ciência não é já um decalque da realidade para ser um estudo probabilístico
(W. Heisenberg), a realidade torna-se “incomensurável” (T. Kuhn) e o observador
está necessariamente implicado no observado.
Ao contrário de Descartes que enuncia uma oposição
radical entre razão e sentidos, Kant entende que os “fenómenos” - os nossos sentidos, interesses e demais influências na nossa percepção – são indissociáveis da razão e, portanto, a relação que temos com o mundo é sempre
mediada e filtrada pelos mesmos. Não é para Kant possível, portanto, conhecer o
“Númeno”, a verdadeira existência, que permanecerá para sempre oculta.
Toda esta problematização nos é útil para a
análise cultural. C. Geertz opõe-se à natureza universalista de alguma
explicação antropológica, que procura leis, fazendo a apologia do concreto, do
contextual e do particular. A compreensão da cultura implica necessariamente
subjetividade e é essencialmente interpretativa. O observador faz parte
integrante do processo de construção de sentidos. Geertz leva o seu relativismo
a ponto de dizer que os textos antropológicos são verdadeiras “interpretações
de interpretações”. Os nativos de uma cultura interpretam a realidade e o estudioso da cultura interpreta as interpretações dos
nativos. Desta forma, Geertz chega a dizer-nos que a etnografia é mais uma
descrição daquele que descreve do que daquele que é descrito, aproximando-se de
um texto autobiográfico e ficcional. “O observador é o próprio objecto
observado” (J. Krishnamurti). Nesta linha de pensamento, o sujeito não se pode alienar nem de si, nem do todo em que se
encontra inserido, nem – nas palavras de Hegel – do Geist. Numa postura relativista extrema nada é, afinal, passível de
conhecimento.