domingo, 24 de novembro de 2013

Para uma Postura Relativista

Na herança de um pensamento positivista, o ato de conhecer implica uma distância entre o observador e o objecto observado. Só esta fronteira permite produzir um pensamento de substituição que constitui, em si, o Conhecimento. Neste processo a língua desempenha um papel fundamental. A realidade material é virtualizada num sistema de significados através de um processo mental  inconsciente (F. de Saussure).

Na linha de pensamento de A. Comte, através da abstração dos interesses pessoais – e, portanto, subjetivos – é possível obter-se uma posição neutra que permite um conhecimento objetivo, verdadeiro e absoluto. Objetividade e neutralidade são pilares fundamentais do “otimismo epistemológico” que carateriza o Conhecimento tal como os positivistas o concebem.

Para Hegel, a verdade absoluta não é possível porque ela implica necessariamente o instrumento que levou ao Conhecimento: o próprio processo de conhecer. De modo a atingir conhecimento, é imprescindível uma separação do Geist, o Espírito. A noção de Geist de Hegel é concebida como o oposto da matéria, nele estando incluído toda a existência. É uma consciência universal que se manifesta na realidade concreta, uma unidade que contém uma infinidade de partes que são expressão de si. É unidade e separação simultaneamente.
De modo a conhecer separamo-nos do Geist criando uma individualidade, um sujeito, que para se conhecer a si mesmo necessita afinal de se alienar de si. Assim, também para Hegel o conhecimento implica exterioridade.

O otimismo epistemológico, a neutralidade científica e o paradigma positivista do Iluminismo Francês são postos em causa pelas descobertas no âmbito da física moderna, nomeadamente com a física quântica de M. Planck, a teoria atómica de N. Bohr e a teoria da relatividade de A. Einstein. A Ciência não é já um decalque da realidade para ser um estudo probabilístico (W. Heisenberg), a realidade torna-se “incomensurável” (T. Kuhn) e o observador está necessariamente implicado no observado.

Ao contrário de Descartes que enuncia uma oposição radical entre razão e sentidos, Kant entende que os “fenómenos” -  os nossos sentidos, interesses e demais influências na nossa percepção – são indissociáveis da razão e, portanto,  a relação que temos com o mundo é sempre mediada e filtrada pelos mesmos. Não é para Kant possível, portanto, conhecer o “Númeno”, a verdadeira existência, que permanecerá para sempre oculta.

Toda esta problematização nos é útil para a análise cultural. C. Geertz opõe-se à natureza universalista de alguma explicação antropológica, que procura leis, fazendo a apologia do concreto, do contextual e do particular. A compreensão da cultura implica necessariamente subjetividade e é essencialmente interpretativa. O observador faz parte integrante do processo de construção de sentidos. Geertz leva o seu relativismo a ponto de dizer que os textos antropológicos são verdadeiras “interpretações de interpretações”. Os nativos de uma cultura interpretam a realidade e o estudioso da cultura interpreta as interpretações dos nativos. Desta forma, Geertz chega a dizer-nos que a etnografia é mais uma descrição daquele que descreve do que daquele que é descrito, aproximando-se de um texto autobiográfico e ficcional. “O observador é o próprio objecto observado” (J. Krishnamurti). Nesta linha de pensamento, o sujeito não se pode alienar nem de si, nem do todo em que se encontra inserido, nem – nas palavras de Hegel – do Geist. Numa postura relativista extrema nada é, afinal, passível de conhecimento.