segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Tabu

Minuciosamente escrito e pensado, Miguel Gomes apresenta-nos o seu filme, Tabu, de uma forma peculiar e até pouco fora do comum.


Tabu divide-se em duas partes, uma primeira passada em Lisboa contemporânea, que transparece a vida quotidiana e quase solitariamente aborrecida de Aurora, uma senhora de idade, a sua criada Santa e a prestável vizinha Pilar; e uma outra parte que toma o monte Tabu, numa África dos anos 50/60 como cenário e onde as nossas dúvidas em relação à amargura de Aurora se dissipam, quando a observamos no seu “habitat natural” e testemunhamos o seu passado atribulado. Unindo as duas paisagens distintas da Lisboa confusa e barulhenta e dos infinitamente calmos campos Africanos pelo preto e branco do ecrã, Miguel Gomes homenageia os filmes clássicos mudos e sem cor, por onde passaram actores como Charlie Chaplin e os Irmãos Marx. E, numa escrita quase barroca, ouvimos a narração das acções africanas substituir a voz das personagens, acompanhada pelas melancólicas (mas com um travo de humor) Variações Pindéricas Sobre a Insensatez, escritas e interpretadas ao piano por Joana Sá. Além do piano melancólico de Joana Sá, a narração é interrompida ocasionalmente por rituais africanos cantados e por músicas interpretadas pela banda a que algumas personagens da segunda parte do filme pertencem. 
Fui surpreendida com uma simplicidade fotográfica que, no entanto, demonstrou de forma arrebatadora uma verdade nua e crua das personagens e que se tornou, aos meus olhos, em algo belo. Quer pela troca temporal das acções que desde cedo planta dúvida e curiosidade no espectador; quer pela beleza simplista da imagem saturada que, de uma forma magistral, engole as cores fortes africanas sem lhes tirar o calor; quer pela ausência de voz que torna as personagens misteriosas e estranhamente próximas, já que damos atenção redobrada às suas expressões e acções; quer pela melancolia que nos acompanha desde o final de 2010 com a maturidade já enlouquecida de Aurora, até à sua realidade africana juvenil, existe algo que nos atrai nesta obra intemporal de Miguel Gomes. 
Talvez a resposta esteja, como diz a revista francesa Cahiers du Cinéma, na liberdade aproveitada por Gomes, como sendo “aquilo que tem faltado ao cinema contemporâneo“.


Benedita Pinto Gonçalves, 6479
FBAUL Design de Comunicação, 2º ano