Tabu divide-se em duas partes, uma primeira passada em Lisboa contemporânea, que transparece a vida quotidiana e quase solitariamente aborrecida de Aurora, uma senhora de idade, a sua criada Santa e a prestável vizinha Pilar; e uma outra parte que toma o monte Tabu, numa África dos anos 50/60 como cenário e onde as nossas dúvidas em relação à amargura de Aurora se dissipam, quando a observamos no seu “habitat natural” e testemunhamos o seu passado atribulado. Unindo as duas paisagens distintas da Lisboa confusa e barulhenta e dos infinitamente calmos campos Africanos pelo preto e branco do ecrã, Miguel Gomes homenageia os filmes clássicos mudos e sem cor, por onde passaram actores como Charlie Chaplin e os Irmãos Marx. E, numa escrita quase barroca, ouvimos a narração das acções africanas substituir a voz das personagens, acompanhada pelas melancólicas (mas com um travo de humor) Variações Pindéricas Sobre a Insensatez, escritas e interpretadas ao piano por Joana Sá. Além do piano melancólico de Joana Sá, a narração é interrompida ocasionalmente por rituais africanos cantados e por músicas interpretadas pela banda a que algumas personagens da segunda parte do filme pertencem.
Fui surpreendida com uma simplicidade fotográfica que, no entanto, demonstrou de forma arrebatadora uma verdade nua e crua das personagens e que se tornou, aos meus olhos, em algo belo. Quer pela troca temporal das acções que desde cedo planta dúvida e curiosidade no espectador; quer pela beleza simplista da imagem saturada que, de uma forma magistral, engole as cores fortes africanas sem lhes tirar o calor; quer pela ausência de voz que torna as personagens misteriosas e estranhamente próximas, já que damos atenção redobrada às suas expressões e acções; quer pela melancolia que nos acompanha desde o final de 2010 com a maturidade já enlouquecida de Aurora, até à sua realidade africana juvenil, existe algo que nos atrai nesta obra intemporal de Miguel Gomes.
Talvez a resposta esteja, como diz a revista francesa Cahiers du Cinéma, na liberdade aproveitada por Gomes, como sendo “aquilo que tem faltado ao cinema contemporâneo“.
Benedita Pinto Gonçalves, 6479
FBAUL Design de Comunicação, 2º ano
Benedita Pinto Gonçalves, 6479
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