domingo, 24 de novembro de 2013

A cultura como impedimento evolutivo

Joseph Chilton Peace, no seu livro The Biology of Transcendence alerta para o fenómeno da cultura como um processo baseado na violência. Entender o significado de cultura é fundamental, cultura como um modo de vivência das sociedades ocidentais ou que se organizam por sistemas monetários, governacionais, que constroem tribunais, catedrais, sistemas de punição e conduta.

Conseguir ver além do que até hoje construímos e como vivemos enquanto uma sociedade ocidental, é conseguirmos entender os nossos problemas como problemas biológicos, na sua forma mais básica, olhar além das fronteiras criadas pela cultura. O nosso sistema biológico natural está feito para adaptar e ultrapassar as limitações que nos são impostas de nos transcendermos (transcender não num sentido darwiniano) mas num processo biológico de evolução permanente.

Se pensarmos no conceito de "evolução biológica" apercebemo-nos que nos ocorre como algo distante, algo já atingido e estabelecido. O último e mais recente estado evolutivo do nosso cérebro, de nome neocórtex está, segundo a comunidade cientifica, apenas a 10% da sua evolução completa. Durante séculos temos vindo a danificá-lo permanentemente através do efeito cultural, que assenta desde sempre, em medo e violência, vivendo maioritariamente em survival mode, fazendo uso maioritário do primeiro nível de organização cerebral, o cérebro reptiliano ou basal.

Facilmente percebemos que a nossa sociedade vive e respira violência, somos todos os dias influênciados em discursos baseados no medo, em discursos morais e éticos. No entanto, a cultura nunca foi posta em causa como o inimigo. Desde a infância que somos indiscutivelmente danificados na nossa capacidade de sermos realmente humanos. Colocamos as nossas crianças desde cedo em modo de defesa, nutrindo o sistema basal e bloqueando o seu desenvolvimento nas estruturas neurais mais altas. Tendemos a assumir que o ser humano é por defeito naturalmente violento, a cultura nutre essa ideia e desde a infância que percorremos uma série de regras estruturadas levadas a cabo pelos nossos progenitores, somos institucionalizados para não permanecermos básicos, primitivos e hostis.

Divorciamo-nos da natureza e destruímos a sabedoria de saber pertencer a um todo. Somos de certa forma intolerantes a outras formas de organização da sociedade e de ser humano, (presos à ideia de que todos queremos o que nós temos e o que valorizamos).

No livro Original Wisdom Stories of an Ancient way of Knowing, de Robert Wolff, é-nos dado um exemplo de uma sociedade não cultural, de um tribo na selva da Malásia, os aborígenos Sng'oi, que vivem numa sociedade desprovia de anxiedade, competição e sentimento de posse. Incluido como um elemento da familia além dos laços de sangue, Robert viveu e aprendeu a sua línguagem. Tendo desaprendido a aprender, conseguiu ultrapassar as assunções básicas da nossa cultura ocidental sobre o comportamento humano, onde algo "normal" e socialmente aceite nos impede de perceber em que pilares assenta. Percebeu, que nós como seres humanos, não podíamos estar mais alienados da forma pura e básica de viver no planeta terra.

Todo o processo cultural está embebido na linguagem. Aprender e ensinar está profundamente enraizado na nossa sociedade como processos verbais e ideológicos. Na tribo Sng’oi, assim como noutras partes do mundo, a linguagem raramente possui forma escrita, mas é sim entendida como a voz do organismo, assim como ‘o canto de um pássaro’, é fluente e livre. Perceber que o nosso afastamento do mundo natural tem vindo a danificar-nos no que significa ser humano e pertencer a um mundo inclusivo e interelacionado, é também, limitamo-nos a experienciar outras formas de conhecimento, que vão muito além do medir, quantificar, categorizar e interpretar.
Com isto, perceber o efeito da cultura na civilização humana, é estar atento à forma como educamos desde cedo e nos percepcionamos como seres biológicos que possuem estruturas pré-determinadas a evoluir e a se transcenderem a outras formas de conhecimento. Entender tal como Robert, que possuímos algo profundamente embotido na nossa natureza, que depois de desbloqueados os nossos sentidos, nos permite chegar ao nosso inner knowing.