Que o nosso pensamento possa ser ideológico é uma sugestão que rejeitamos quase instintivamente, não venham as bases das nossas mais queridas convicções a revelar-se compostas de areias mais movediças do que desejaríamos… (McLellan, 1986, p.13)
É por esta razão que o estudo do conceito de ideologia, se traduz em várias tentativas de encontrar um ponto fora da esfera do discurso ideológico, de onde seja possível observar os mecanismos da ideologia em acção.
Marx chegou à "falsa consciência" da classe trabalhadora, na qual a "consciência de si", das suas relações com os outros e da sua própria experiência social seria produzida pela sociedade e não pela natureza ou psicologia individual. Assim, seria inevitável uma transformação do estado social, para uma sociedade justa e igualitária (sem classes dominantes ou oprimidas) e livre de ideologias onde todos teriam uma verdadeira consciência de si mesmos.
Mas se para Marx esta mudança era inevitável, Althusser considerava-a improvável. Este entendia que a ideologia era de facto mais eficiente do que Marx julgava, estando profundamente inscrita na forma de pensar e viver de todas as classes.
Gramsci, embora concordando com Althusser quanto ao facto dos oprimidos consentirem na ideologia dominante, participando assim na propagação do discurso ideológico, apresenta uma teoria mais satisfatória, que tem em conta as contradições e resistências que a experiência social apresenta, tornando a mudança social possível.
O teórico propõe então um conceito de ideologia como luta que implica a conquista e reconquista constante do consentimento da maioria em relação ao sistema que a subordina - a hegemonia. A ideologia dominante tem de ultrapassar as resistências que a classe oprimida apresenta, impondo-lhe um sistema que a desfavorece.
Estas resistências são estudadas por Fiske, que apresenta inúmeros exemplos práticos do discurso ideológico na sociedade.
Ao ler o seu estudo sobre as práticas ideológicas implicadas no uso das calças de ganga fiquei perplexa com a quantidade de conclusões etnográficas e sociais que se podem extrair da sua utilização. De facto, tinha a consciência de que a disseminação deste objecto transcende sexos, classes, raças e idades, mas nunca tinha reflectido sobre o porquê da sua popularidade.
A verdade é que para além da sua óbvia funcionalidade, existem muitas outras justificações para o seu domínio no sector do vestuário: Fiske dividiu estas razões em três grupos de significações dominantes.
A primeira seria a associação com o trabalho duro, passatempos violentos, actividade física e dignidade do trabalho; de seguida a associação com o Oeste americano em torno da liberdade, naturalidade, dureza, inconformidade e tradição; e por fim o consenso social que criam, transcendendo as categorias sociais e conferindo o individualismo procurado, que não significa ser diferente dos outros, mas ter ligeiras diferenças dentro do modelo social aceitável.
Assim, para contradizer estas significações dominantes, alguns indivíduos apresentam resistências à sua utilização, rasgando-as, tingindo-as ou deformando-as. No entanto esta não é uma rejeição completa e absoluta, pois apesar de deformadas, as calças continuam a ser de ganga.
A indústria reage e procura incorporar essas resistências na ideologia dominante, criando modelos novos que possuam as características enunciadas. Através da publicidade e comunicação é também dada a sensação de que cada modelo foi criado especialmente para um grupo ou público que reconhece os seus valores e identidade social no produto, e é tentado a adquiri-lo.
De facto, as calças de ganga proporcionam comodidades (próprias do sistema capitalista) como o aquecimento do corpo, o conforto, a decência… pelo que ao utilizá-las estamos a viver, validar e promover a ideologia dominante. Posto isto, ao estarem rasgadas e ainda assim em uso, a compra de umas calças novas é adiada, o que contribui para a recusa da comodidade e consequentemente do capitalismo. Este paradoxo da recusa da comodidade usando recursos da própria comodidade (não deixam de ser calças de ganga) é a conquista da ideologia dominante perante uma resistência apresentada.
Conclui-se assim que a incorporação é a arma mais eficaz da ideologia, pois permite o controlo da própria resistência: é concedida liberdade suficiente para manter os resistentes iludidos mas não para ameaçar o sistema ideológico e permite ainda a sensação diferenças sociais e conflitos de interesse que são essenciais para que a heterogeneidade da sociedade seja produtiva mas não estática, progressiva mas não reaccionária.
Referências:
Fiske, J. (1989) Understanding Popular Culture. New York: Routledge
Fiske, J. (1990) Introdução ao Estudo da Comunicação. Porto: Asa
McLellan, D. (1986) A Ideologia. Lisboa: Estampa