segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Entre nós e as palavras


Talvez a distancia entre o que somos e o que dizemos seja tão ou mais extensa do que a das palavras e elas mesmas; talvez o paradigma na escolha de uma palavra não seja mais que uma ilusão e uma divagação, habito comum de alguém que se afastou na unidade, ilusão na qual toda e qualquer forma de representação onde se possa estabelecer uma ligação significado significante é apenas um afastamento da realidade a transmitir, tentando nós seres humanos fazer entender e entender algo afastando-nos do que cremos compreender e dar a compreender. Entre nós e o que dizemos, falando ou pensando, da palavra ao ser respectivamente estará o paradigma, a ilusão, a constatação da presença destes dois anteriores e dos que se seguem (pois a meu ver de momento, tal como o paradigma o tempo poderá se representado não por uma linha horizontal mas sim por uma vertical no qual o ser o ser humano permanece estático fazendo-se a linha passar por ele), o sentir e o vazio.
Perdoem me o afastamento

Estas palavras são aparentemente tão verdadeiras quão a fictícia realidade que criam, haverá então um outro mundo por conhecer entre nos e as palavras. 

                                                                                                                                              


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Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas      portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny
Pena Capital
Lisboa, Assírio & Alvim, 1982