Talvez a distancia entre o que somos e o que dizemos seja
tão ou mais extensa do que a das palavras e elas mesmas; talvez o paradigma na
escolha de uma palavra não seja mais que uma ilusão e uma divagação, habito
comum de alguém
que se afastou na unidade, ilusão na qual toda e qualquer forma de
representação onde se possa estabelecer uma ligação significado significante é
apenas um afastamento da realidade a transmitir, tentando nós seres humanos
fazer entender e entender algo afastando-nos do que cremos compreender e dar a
compreender. Entre nós e o que dizemos, falando ou pensando, da palavra ao ser
respectivamente estará o paradigma, a ilusão, a constatação da presença destes
dois anteriores e dos que se seguem (pois a meu ver de momento, tal como o
paradigma o tempo poderá se representado não por uma linha horizontal mas sim
por uma vertical no qual o ser o ser humano permanece estático fazendo-se a
linha passar por ele), o sentir e o vazio.
Perdoem me o afastamento
Estas palavras são aparentemente tão verdadeiras quão a fictícia
realidade que criam, haverá então um outro mundo por conhecer entre nos e as
palavras.
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Elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a
morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores
venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo
do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário
Cesariny
Pena
Capital
Lisboa,
Assírio & Alvim, 1982
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