sábado, 23 de novembro de 2013

A Arte de antecipar



Grande parte das obras de ficção científica baseia-se na sua previsão do futuro e esse é o ingrediente que faz com que este género literário possua um tão grande número de seguidores. É natural ao ser humano antecipar o desconhecido. A ficção científica ocupa assim o vazio do nosso desconhecimento, daquilo que está por vir.
Reflectindo sobre a ciência do mundo real, o autor aliado a uma grande imaginação especula sobre o futuro e principalmente sobres as consequências de determinadas descobertas científicas, ou de determinados usos de métodos científicos. Ao extrapolar os pressupostos científicos, o autor chegar a conclusões curiosas. É por vezes difícil distinguir na obra aquilo que realmente se baseia nas ciências duras e aquilo que as ultrapassa.
Curiosamente, há casos em que o processo de inspiração é inverso, sendo a ficção científica a inspirar certos cientistas, ou a desafia-los na procura de determinas respostas ou até mesmo a antecipar determinadas respostas. A inspiração artística coloca novas questões ao desenvolvimento científico. Ao fornecer uma nova visão a problemas clássicos da ciência, o autor abre novos mundos ao cientista. Dando novas bases de estudo e novos pontos de partida para antigos problemas. São disso exemplo, as obras de Jules Verne, onde o autor propõe novos objectos como o submarino ou o taser. Os pormenores das suas descrições parecem reportar para objectos que existem na realidade.  
Desde sempre a literatura, a arte escrita, respondeu aos problemas que a ciência sua contemporânea colocava.Durante a ameaça nuclear em plena Guerra Fria, multiplicavam-se os monstros nas páginas dos livros de ficção científica. 
Existe uma espécie de ciclo da vida das histórias de ficção científica. Começa com o nascimento de uma descoberta científica, da qual evolui para a novas especulações e teorias acerca da mesma. É criado um imaginário popular em volta destas ideias de ficção que são destruídas com uma nova descoberta científica que prove a sua impossibilidade. Depois desta descoberta é criada novamente uma teoria em volta dela, e assim o ciclo continua. É uma desvantagem que este género sofre, pois é sempre possível através das descobertas científicas catalogar este saber ou estas especulações, e rapidamente torna-las desactualizadas.
Estaríamos a menosprezar este género literário ao afirmar ser apenas capaz de inspirar e prever a ciência. Há também um contexto sociopolítico nas obras de ficção científica interessante de estudar. A maioria das obras de ficção científica critica o objecto científico e o cientista. O cientista é descrito muitas vezes como demente, pois ousa tentar alcançar aquilo que apenas aos deuses diz respeito, uma espécie de complexo de Prometeu. Na maioria das obras de ficção científica, o cientista aparece como um perpetuador do pecado original. A curiosidade é punida, aparecendo como um pecado. Mas não só o cientista é descrito como uma criatura abjecta também a sua criação, um ser que viola a natureza, é representado quase sempre como uma criatura inumana que sofre a pior das dores e acaba invariavelmente por custar a vida ao seu criador. Isaac Asimov chama a isso, o complexo de Frankenstein, pois para Asimov o monstro de Frankenstein teria sido provavelmente o primeiro robô verdadeiro na literatura, ainda que totalmente orgânico. 


Bibliografia


JAMES, Edward, MENDLESOHN, Farah. The Cambridge Companion To Science Fiction, Cambridge University Press, 2003

MILNE, Ira Mark. Literary Movements For Students, Gale, 2009