segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Entre a Igualdade e a Distinção

Muitos são os sujeitos, que hoje, mesmo perante uma colectânea das mais diversas opções de indumentária, vestem, voluntária ou involuntariamente, uma farda. Quem enverga esta farda traz consigo um significado, sentimento, apelo visual ou sentido, algo que cifra e logo de imediato consequentemente permite descodificar a pessoa, enquanto um ser que se insere em determinada comunidade.
A questão aqui será, é essa interpretação bem aplicada pelos demais transeuntes, numa sociedade cada vez mais multicultural?
O conceito de farda pode ter uma carga negativa ou substancialmente positiva, dependendo, claro está, da cultura e circunstâncias em que se insere. Está-lhe intrínseca uma linguagem visual, que pode ser dotada de significados mais ou menos acertados. O pensamento concebido de uma farda, remete automaticamente para um trabalhador fabril, um soldado/militar, traje estudantil, escuteiros, elementos do clero, de uma instituição singular, prisioneiros ou grupos políticos isolados, como os maçons e os seus aventais… São portanto grupos ou subculturas que usam um uniforme para se identificarem ou igualarem.
Esta tentativa de expressar igualdade é deveras subjectiva, na medida em que não constitui o indivíduo que a emprega, mas sim parte dele, representando uma escolha de determinada fase da sua vida, formas de pensar e encarar a sociedade ou outras que mais.
A verdade é que uma forma de vestir pode evidenciar-se muito mais ao invés de ser ignorada. Está imbuída de grande simbolismo, dependendo do espaço e tempo em que se insere, e daí adquire significado. Este é transmitido ou comunicado na linguagem visual, andando na rua o que se pensa ao ver um indivíduo fardado depende do conhecimento adquirido pela vida fora e de um outro campo de aspectos condicionantes. O que realmente interessa é o facto de a farda querer dizer algo ao mundo.
“O amor à camisola”, o orgulho e honra que cada um pode sentir, num íntimo imparcial, ou por outro lado humilhação, são consequências inerentes ao próprio individuo, que de uma forma ou outra é como que obrigado a vestir-se dessa forma. Se por um lado a identidade mundial é retirada, são criados à priori pequenos grupos etiquetados por aquilo que levam como casca do corpo individual e seu pensamento. Pressupõe-se que certos ideais ou crenças façam parte de quem emprega um determinado traje, mas não clarificam se o individuo se quer inserir num grupo para se massificar, fazer sentir parte ou por valores menos dissimulados. Isto quer dizer que alguém que está uniformizado não tem sempre de ser tomado como X ou Y, podendo claro ter as suas escolhas e pensamentos, que de certo modo fazem variar o sentido da farda de cada um. Imprime-se um certo respeito, divulga-se uma certa crença genuína ou não que pode não ser tão mundana e vulgar assim, transmite-se resignação, igualdade em forma crua, não fascista como pressupostamente entendida.
Se por um lado a utilização da farda uniformiza ou padronizar um determinado grupo com ideias idênticos, por outro lado, esta evita preconceitos de classes, ao encobrir modos de vestir e consequentemente evidenciar uma classe social de trabalho ou gostos pessoais.
De certo modo pode dizer-se que é de alguma ignorância atribuir à farda um sentido globalizado, de poucas variâncias, pois esta pode antes significar reuniões de grupos de bons valores que pretendem harmonizar-se sem criar grande conflito, indicando apenas a sua existência e combatendo pela igualdade de direitos civis, sociais, um movimento de força humana.
Uma farda pode ser uma prova em forma de metáfora de que a realidade não é o que os olhos realmente vêm, e muito menos o que estes comunicam ao cérebro. Caracteriza-se por uma ambiguidade contraditória de um individuo que se assemelha e insere no meio de tantos outros, mas que prevalece ou se destaca do resto da multidão, é reveladora de um movimento, mas poder-se-á dizer que descreve o sujeito? Talvez toda esta reflexão seja ilusória, de quem acha que pode ser um elemento activo e revolucionário na sociedade e ainda assim contradizer-se “ao fazer parte” porque pertence a grupos onde a igualdade e a distinção andam de mãos dadas. Fora de questão está tentar renovar o mundo e enche-lo de códigos visuais têxteis idênticos, mas a excepção faz a regra e as aparências iludem como a plebe diz…
Implícitos estão os conceitos de irregularidade comunitária, expectativas, decepções e conflitos, mudanças de comportamento, resgate de dignidade, prestigio, descriminação controlo camuflado e subtil, pelos quais se veste uma farda periodicamente e princípios pelos quais muitas são despidas.
Há uma linha ténue entre distinção e igualdade, união e separação, uma separação pouco estipulada, uma anarquia de anti globalização ou um comunismo de um só.