A mulher não tem um destino biológico, é formada dentro de uma cultura que define qual a sua função dentro da sociedade. Por muito tempo, as mulheres ficaram aprisionadas ao papel de mãe e mulher (casamento), tirando outro caminho possível, o Convento. Porém, a própria Simone rompe com esse destino e faz com a sua vida algo completamente diferente do que seria de esperar para uma senhora.
Quando nascemos e somos crianças, não há, para além da sociedade, algo que nos distinga sexualmente, sentimos o mundo com os olhos e com as mãos. " O corpo é, primeiramente, a irradiação de uma subjectividade, o instrumento que efectua a compreensão do mundo: é através dos olhos, das mãos e não das partes sexuais que apreendem o universo".
Quando somos adolescentes o nosso corpo passa a assumir e a integrar aquilo que é o nosso futuro, aquilo que já estaria predeterminado pela sociedade. A "juventude consome-se na espera. Ela aguarda o Homem."
Depois, o homem chega, iniciando-se a vida sexual. O "Destino que a sociedade propõe é o casamento." A mulher torna-se vassala dele. Ela segue o trabalho dele, ele tem o poder económico, ela faz parte da família dele, ela fica como nome dele. Ela deve-lhe a virgindade e uma fidelidade rigorosa.
A maternidade, de seguida, é a sua "vocação natural", que em vez de ser por sua vontade, acontece por vontade do Outro.
“O Segundo Sexo” não é um livro que retrata a história da mulher desde a antiguidade. Mas sim uma obra de inspiração, fundamental para dar a mostrar a maneira pela qual as mulheres são criadas justamente para serem menos que os homens. O livro mostra-nos a diferença entre sexo e género: enquanto o sexo é uma diferença biológica, o género é uma diferença social, que parte de "criação" em vez de "natureza". Seguindo a noção existencialista de que a experiência precede a essência, argumenta que "NÃO SE NASCE MULHER, TORNA-SE MULHER". Ao longo da história, a mulher tem sido definida como "o outro" sexo, uma aberração do natural, do masculino, normal. Começou por escrever um texto que a caracterizava escrevendo "Sou uma mulher", e depois de reflectir sobre isto pensou que nenhum homem começaria por se descrever assim, "Sou um Homem" porque isso é um facto que lhes é dado desde sempre. Então começou a escrever um ensaio sobre a mulher, transformando-se neste belíssimo livro, que nos faz mesmo pensar em como se realiza um ser humano dentro da condição feminina.
Simone, com esta lógica tão característica de se colocar no mundo, decidiu escrever “O Segundo Sexo” ao perceber que nunca havia se perguntado: o que é ser mulher? Essa continua a ser uma pergunta actual, que deve ser feita por todas em algum momento da vida.
Do livro "O Segundo Sexo" de Simone De Beauvoir , TRADUÇÃO DE SÉRGIO MILLIET