sábado, 23 de novembro de 2013

Seguindo o rebanho

 À primeira vista, pensamos que aquilo que caracteriza determinado indivíduo são as suas próprias escolhas, retiradas de um gigantesco leque de possibilidades e que, por terem sido aquelas e não outras, o definem como "A" e não como "B". Deste gigantesco leque de possibilidades fazem parte certos princípios como hábitos de alimentação, estilos musicais, gostos literários, formas de vestir, etc. Mas na realidade, e dada a crescente procura de "imitação", estes princípios e respetivas escolhas nada revelam em relação à verdadeira identidade/personalidade de determinada pessoa. Em vez disto, assiste-se a uma grande procura de assemelhação, como pessoas transformadas em rótulos, constituindo assim "uma sociedade que se comporta como um fecho".

   As pessoas ambicionam ser iguais aos atores da televisão e aos modelos dos catálogos, porque vestir bem é vestir-se como eles e boa música é a que eles ouvem. Deste modo, a semelhança perfeita deixou de ser a diferença absoluta. O homem atual deixou de ser quem realmente é, transformando-se num simples exemplar, numa cópia. É alguém que apenas escolheu do gigantesco leque de opções. Esta transformação do indivíduo em massas resulta então numa sociedade de massas, influenciada e movida pela Indústria Cultural, que apenas se interessa pelos homens como clientes e empregados.

   E falando em tendências, se até agora o indívíduo diferente era aquele que "não seguia o rebanho", neste momento este mesmo conceito parece ter-se instalado. As pessoas já querem assumir uma postura diferente, arrojada, até mesmo underground, introduzindo cada uma delas a sua própria marca, o seu próprio estilo e acabando mais uma vez por cair neste paradoxo de diferença/ igualdade, no qual impreterivelmente continuam a imitar um determinado modelo que têm em vista.

   Neste sentido, deixo alguns excertos de uma crónica de Carlos "Pac" Nobre, que tocam de certo modo neste tema, essencialmente na área da música.

"(...) Apaixonei-me de imediato pelo conceito. Fiz dele meu também, pelo menos da forma que gosto de o assumir... Vejamos: Otherground - não underground. Parece-me bem. E justo. Porque é que a cultura - desde a poesia, música, pintura, street art, de inspiração negra ou branca, do rock ao hip-hop - há-de ser catalogada como underground (supostamente fiel a um código ético que não se sabe bem quem criou, destinada a uma minoria iluminada) ou mainstream (supostamente deficiente da verdade artística e feito com um e apenas um propósito - estritamente comercial).

   Se, por um lado, há muitos nomes, artistas e produtos que se enquadram justa e perfeitamente, nestas definições, tenho de as considerar por demais redutoras. São muito mais os casos que não podem ser resumidos a elas do que vice-versa. (...) Devo confessar que desde adolescente tive problemas com rótulos e géneros, bem como fundamentalismos de qualquer tipo. (...)

   (...) Cresci a ouvir Michael Jackson, depois U2, depois heavy metal e depois hip-hop e depois embrulhei praticamente todos os géneros e sub-géneros musicais de que se possam lembrar no mesmo saco. Pelo meio tentei optar uma série de modas e estilos de vestir e falar sem sucesso - nunca me senti confortável, até perceber, na recta final do ensino secundário, que não tinha que fazer parte de grupo ou tribo nenhuma, como de resto quase todos os meus amigos. (...) E aí, quando me perguntavam qual o tipo de música que eu gostava, pergunta que ainda hoje abomino, comecei a responder: da boa. (...)"