domingo, 24 de novembro de 2013

Ter e não Ser

       O consumo chega ao extremo quando a olhos nus, vemos que o objecto final do consumismo e a grande vítima do mesmo é o nosso próprio corpo. Nas ruas de qualquer cidade ocidental do século XXI, a obesidade torna-se epidémica. No caminho pedonal diário, de casa para a faculdade, evidenciam-se corpos lentos pelos quilos a mais que carregam. A qualquer hora do dia, os botequins de fast food encarregam-se de servir dezenas de pessoas que, pelo acto em si, parecem ter perdido a consciência do que é melhor para elas, abraçando, de certa forma, um suicídio lento. Esta inconsciência espelha a sobreposição do ter em relação ao ser, num exemplo de extremo, obsessivo e impulsivo.

        O que vem a ser afinal a acumulação obsessiva do capital e da matéria? A actualidade está preenchida de contradições crescentes das sociedades com uma postura materialista no lugar de progressos espirituais que contribuiriam para uma evolução contraposta à actual. Assim, esta esmera-se pelo estatuto social, emocional e físico assente nas aparências, no impacto primário do que se tem e nunca na revelação dos interiores das estruturas mentais de cada um dos indivíduos que forma a grande maioria, adjectivada com sabedoria, por “massas”. Uma massa subentende um aglomerado disforme, assente em fusões e aglomerados de corpos, ausentes da importância personificada do “eu”. Cada vez mais distanciadas do enriquecimento advindo da diversidade, as massas encontram-se no ponto de fusão através de uma realidade crescente materialista. Encontram-se danificadas por “bombardeamentos” lobotómicos constantes por parte dos detentores do poder económico, político, religioso e de todos os que se alimentam da fabricação de pessoas iguais entre si e por isso adormecidas e entorpecidas pelos mandatórios de consumismo, superficialidades, ritos do ter, distanciamento do ser. A publicidade, usada como porta-voz dos poderes capitais, ensinada por décadas de academias de vendas e técnicas do engano, aproveita-se do todo com propostas indecentes de promessas vãs associadas ao bem-estar como o éden prometido ainda em terra.


       Segundo Jean Baudrillard, sociólogo e filósofo francês, “... o beneficiário do milagre do consumo também se apresenta através de uma série de objectos falsos, de sinais característicos de felicidade e depois aguarda (aguarda desesperadamente, um moralista diria) para que a felicidade seja atingida.“


       A intensidade e os métodos de venda da ideia de felicidade são tão eficazes que se sobrepõem à ideia básica de sobrevivência elementar, justapondo o desnecessário e fútil aos bens de primeira necessidade, como a comida, o tecto, a saúde, a educação. A construção do interior está tão falsamente ligada ao material palpável que surge, agora, como um meio viável para a obtenção de uma felicidade iludida através do domínio de objectos inadequados à vontade do próprio “eu”. O mesmo vai-se distorcendo, alienado e sem vontade própria, cada vez mais e mais arrebatado pela espiral das lavagens cerebrais constantes dos peritos das vendas e da produção de riquezas desiguais. Essas entidades do marketing destroem o amanhã de cada um, fazendo com que se despersonalizem e se fundam ao amontoado disforme das massas, reprimindo a habilidade de perspectivar o pensamento ao exercitar a mente que cada vez mais se torna distante da consciência e mais aproximado do atrofio cerebral e de uma dormência suicida das almas. O fetichismo da matéria adquire contornos ainda mais cimentados do que os previstos pelos grandes pensadores, alastrados por um mar de entorpecimentos individuais mas fundidos entre si, como um todo alienado, inconsciente da essência da vida, distanciados do propósito do eu e contrários ao conceito estruturante da pessoa enquanto espécie pensante e capaz de positivar o seu mundo e de todos aqueles que a rodeiam, sem que para isso tenha que se abraçar impulsivamente e inconscientemente a desgastes funestos da natureza que a sustém.