Louis Athusser (1918-1990) sendo conhecido como um teórico das ideologias, establece que para ele a ideologia deriva dos conceitos do inconsciente e da fase do espelho (apoiando-se em Freud e Lacan, respectivamente). Athusser define que um sujeito concreto ao estar inserido na sociedade vai inevitavelmente achar-se Sujeito, este assujeitamento surge como construcção ideológica: a posição de Sujeito não depende apenas do sujeito concreto mas do facto de este nascer num conjunto e desde o nascimento lhe ser transmitida a ideia de ser um Sujeito óbvio.
A interpelação e a linguagem com as quais o homem é confrontado desde início na sociedade é o que primeiramente lhe transmite a ideia de que é um Sujeito separado do Mundo, mas permitindo-lhe descobrir que apesar de separado, não está sozinho. Ao representar o que o rodeia, o homem começa a representar-se separado em separado do resto da “paisagem”, e isto é-lhe permitido através das relações culturais que vai criando na sociedade desde o seu nascimento.
O reconhecimento da imagem do sujeito concreto num espelho é o que lhe dá a possibilidade de realizar, através do olhar que este está realmente separado do mundo enquanto Sujeito.
Victor Aveyron (1788-1828) é uma criança que nasceu e viveu em ambiente selvagem e isolada da sociedade até aos seus onze anos. Encontrado nu em 1799 nos bosques na proximidade do povoado de Saint-Sernin em Aveyron, no sul de França, Victor, apesar da sua fisionomia humana, assemelhava-se a um animal pelo seu comportamento primitivo: grunhia, farejava, roía alimentos, não tinha qualquer sentido de higiene. O seu olhar não transmitia expressão, dando a ideia de ter vivido desde bebé só e isolado do resto dos humanos.
Inicialmente foi acolhido por um orfanato próximo, mas recusava-se a ter os comportamentos ditos “normais” e incutidos desde início na sociedade francesa, negava a vestir-se, a comer alimentos confeccionados e escava constamente como um animal selvagem, tornando a sua captura muito difícil.
Apesar de Philippe Pinel, considerado o pai da psiquiatria moderna ter diagnosticado a Victor “acometido de idiotia” (não susceptível a socialização ou instrucção), Jean Marc Gaspard Itard não se conformou e adoptou a criança com o objectivo de a educar.
Victor foi colocado diante de um espelho e nas primeiras vezes viu a sua imagem sem se reconhecer imediatamente. Após sucessivas tentativas, acabou por se reconhecer ao apanhar uma batata que estava acima da sua cabeça, identificando-a apenas através do reflexo, identificando assim também o seu posicionamento no espaço, reconhecendo que o seu corpo estava separado do mundo. Mas para além deste reconhecimento, o menino reagia como um animal respondendo apenas às sua necessidades naturais e não como humano. Um Sacerdote disse: “Poderia pensar-se que não existe conexão entre sua alma ou sua mente e seu corpo. (Shattuck, 1980 p.69).
Ainda assim Itard não desistiu, sempre na tentativa de transformar “a besta em humano”. Mas as evoluções eram pequenas: aprendeu a usar a casa de banho, a vestir-se sozinho e a dizer um número reduzido de palavras. Morreu em 1828 sem nunca ter progredido muito, parecendo que lhe era impossível aprender, ou simplesmente não queria e não lhe interessava aprender, restando sempre a dúvida.
Por outro lado, surge a ideia de que Itard errou na abordagem que tomou com a criança. Focado em disciplinar e apostar nas relações sensoriais de causa e efeito para educar o menino, esqueceu a importância das emoções e o potencial do convívio e das relações pessoais(afirmado por Izabel Galvão, professora de Educação da Universidade de São paulo, e também organizadora da “A educação de um Selvagem”). Diz-se ainda que foi Madame Guérin, a governanta que tomou conta de Victor, que lhe permitiu a “humanização”, respondendo aos gostos dele, dando-lhe afecto e atenção. A palavra “lait” (leite) foi uma das poucas que Victor conhecia, e que muito provavelmente aprendeu ao conviver com Madame Guérin. Frustrado, Itard não conseguiu alcançar o seu objectivo.
Através desta história, podemos ver que o Assujeitamento óbvio apenas se verifica quando a criança nasce incluída num conjunto de Sujeitos, é uma “transferência” cultural e que deve partir da nascença para que seja, como anteriomente referido, óbvia. Victor Aveyron conseguiu representar-se separado do mundo através do espelho, mas a interpelação e linguagem foram incluídas na sua vida numa fase mais tarda, em que até à data nada disso lhe era conhecido. Victor Aveyron não conheceu aquilo que a maior parte de nós toma por garantido: o facto de sermos Sujeitos óbvios e nos julgarmos insubstituíveis. Victor quando conheceu o mundo pela primeira vez, fazia parte dele, fazia parte da natureza e nunca procurou um sentido naquilo que era a vivência no Mundo, como a maior parte de nós faz.
Verificamos assim a tese de Athusser em que “define que um sujeito concreto ao estar inserido na sociedade vai inevitavelmente achar-se Sujeito, este Assujeitamento surge como construcção ideológica: a posição de Sujeito não depende apenas do sujeito concreto mas do facto de este nascer num conjunto e desde o nascimento lhe ser transmitida a ideia de ser um Sujeito óbvio” (referido no ínicio do comentário). Assim como ao contrário, um sujeito concreto que não nasce neste panorama, naturalmente não evoluí idealizando que é um Sujeito.
Resta a dúvida, se Itard e todos os que rodeavam Victor se tivessem focado mais no convívio e em ter relações mais comunicativas com a “besta”, será que esta não se teria mais tarde reconhecido como Sujeito?
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