Não sei há quantos dias foi, mas era hora de
jantar e eu tinha a televisão ligada como tenho sempre sem lhe prestar grande
atenção, quando oiço o seguinte plot de noticia: “pintura mais cara de sempre vendida em leilão atingiu os 106 milhões de euros”, admito que
parei tudo o que estava a fazer e olhei incrédula para o ecrã da televisão. 106
Milhoes de euros? Deve ter ouro, só pode!
Escutei com atenção
os factos. A obra é o tríptico Três estudos de Lucian Freud, de Francis Bacon.
O triplo retrato do artista britanico foi arrematado em Nova iorque por 142,2
milhoes de dolares, ultrpassando assim O Grito, de Munch, que ocupava até então
o primeiro lugar na lista.
Três estudos de Lucian Freud, de Francis Bacon
O que é que faz com que esta
obra tenha um valor monetário tão elevado? A qualidade técnica e os nomes de
pessoas marcantes na nossa história da sociedade que lhes estão associados é
indiscutível, mas o que ganha o propietario do quadro com isso? Apenas o prazer
que ter ele tal objecto único, apenas para safisfazer algum “fetiche”. A arte
é, cada vez mais, uma mercadoria de luxo.
Imaginemos que tinhamos dois objectos
semelhantes, por exemplo uma replica perfeita da obra de Francis Bacon por um
falsificador talentoso mas para os media desconhecido e a obra em si.
Continuaria ser valorizada a obra em concreto? Obvio que sim. Para além de ter
sido pintada por alguem de remone, tido como superior na sua area artistica, representa outra importante personalidade do século
XX que não era só o seu objecto de estudo mas era também seu amigo.
O preço desse quadro provém do fetiche que se criou envolta da história do objecto, das relações sociais implicadas e do desejo de fazer parte dessa mesma relação ou de ter direitos sobre uma parte dela.
De facto, os objectos de desejo trazem em si
a aura que esconde o que realmente a mercadoria é, que esconde que aquele
objecto pelo qual alguem pagou quantidades ridiculas de dinehiro é nada mais é
do que tinta numa tela que mesmo com a mão de obra e o tempo dispendido custa
muito muito menos.
O fetichismo é uma relação social entre pessoas e coisas, e os
objectos de desejo escondem que aquela mercadoria é apenas um produto das
relações sociais que lhe vêm agarradas. O conceito de fetichismo da mercadoria, para Marx, define o processo social
e psicológico pelo qual um objecto/mercadoria ganha diferentes valores e
simbolismos quando é processado e trabalhado pelo Homem. Simbolismos esses alterados de acordo com a intervenção da mercadoria na vida e no mundo com a
sua intervenção social.
O quadro ganha pela sua "história de vida".
