A nossa cultura ocidental insiste, pelo menos em teoria, na importância do desenvolvimento de qualidades como a curiosidade, imaginação e a criatividade. No entanto, poucos, mas muito poucos são os que rentabilizam, metabolizam o que possuem. Somos seres aparentemente livres, pois a nossa liberdade do espírito está condicionada pelos valores da nossa cultura, pelo nosso inconsciente colectivo. Na verdade, a transmissão do que somos, encontra-se cronicamente limitada. O medo que se alastra desde a Antiguidade toma conta de nós. No momento presente, já não somos atirados para a fogueira por pormos em questão a nossa realidade, mas vivemos sob a ameaça constante de uma castração da sociedade ao tentarmos questionar o que nos rodeia.
Vivemos com medo, e em última análise, morremos para sobreviver. A vivência sob o domínio do medo torna-nos seres conscientes das nossas limitações. Por sermos inteligentes, criamos as nossas próprias defesas, separámo-nos do mundo para evitarmos o sofrimento.Tal custo, induz a estados patológicos que poderão ter o preço de uma vida. Por vezes, muitos destes mecanismos, dado a ânsia de viver, não sobrevivem e quebram-se constantemente na proximidade com o outro, quando ambos procuram descobrir a verdade. No mundo da Verdade, o falso é um momento verdadeiro. No mundo invertido, inúmeros são os momentos e as crenças que adoptamos como verdadeiras, mas que camuflam uma falha básica no entendimento do mundo. Os alienados, não sentem medo. Vivem com a confiança de quem se afundou no abismo da ignorância. Os que vivem no mundo das certezas, os que conservam as suas crenças, como quem preserva um grande tesouro, tem acesso ao conhecimento, mas não o utiliza, podem produzir arte a partir dos seus devaneios, mas vivem pobres por não entenderem o que projectam, alimentando tanto a sua alienação, como a dos que o admiram. No tempo, qualquer um de nós poderá alimentar um estado de alienação com uma infantilização e uma idealização comparável ao ambiente uterino, próspero, onde tudo funciona em harmonia e onde as relações de parasitismo não desencadeiam consequências. Este sim, é um mundo ideal.. Criamos as nossas próprias ideologias movendo-nos única e exclusivamente pelo nosso inconsciente. Não temos o total acesso ao que somos. Não entendemos o que somos, e inconscientemente arranjamos causas a defender, na ilusão e na defesa da nossa integridade, da nossa personalidade, mas sem nada perceber. Tornamo-nos no que repudiamos. Alimentamos, cada um, o seu Velho do Restelo. Matamos o sonho.