domingo, 24 de novembro de 2013

Alienação em Lost in Translation


O filme de Sofia Coppola, Lost in Translation (2003), além de retratar o caso amoroso entre as personagens de Bill Murray e Scarlett Johansson, também oferece uma visão singular do choque cultural que é a transição de um mundo anglo-saxónico para um universo cultural bastante diferente, neste caso o Japão. 

Esta transição é explorada na óptica de dois americanos, incapazes de se integrar na cultura onde foram inseridos, de uma forma centrada nas suas angústias e na maneira em que as partilham. Seria inevitável que este filme não caísse em estereótipos baseados na diferença linguística, rácica e cultural que aliena os protagonistas do meio envolvente. 

Porém, este distanciamento entre as personagens e a cultura em que são colocadas foi mal interpretado. Um grupo anti-racismo japonês quis tirar o filme da corrida aos Óscares, acusando-o de fazer um retrato do povo japonês baseado em estereótipos e de tratar a sua cultura com desconsideração e desdém. No entanto, tal protesto foi em vão, Lost in Translation venceu o Óscar de Melhor Argumento Original nesse ano.

Enfatizar as diferenças entre Tóquio e os Estados Unidos é algo vital para a narrativa do filme. Ambas personagens sentem um desconforto mundano que é consequente do ambiente que as rodeia. Ao partilharem este sentimento, há uma conexão instantânea e profunda que transcende a linha ténue entre romance e amizade. A única coisa que torna credível esta aproximação é a alienação das personagens do que as rodeia. Por esta razão, dar ênfase à estranheza de Tóquio é necessário para fundamentar a relação entre os protagonistas.