Parecem cíclicos os momentos de choque e indignação com os actos de uma qualquer estrela Pop. A própria cultura Pop, que até no seu nome o evidencia, tem na sua génese um método de sobrevivência e crescimento baseado na provocação e no imediatismo. É uma cultura em eterno movimento, emancipando a novidade, o improvável, o inadequado. Para as grandes massas que a acompanham, e que são relativamente indiferentes a outras movidas culturais, principalmente as de vanguarda, a cultura Pop reflete o estado da sociedade. É o que acontece quando vemos alguém a reagir, por exemplo, à nudez gratuita com generalizações como “hoje em dia” ou “estamos assim…”, entre outros. Mas o choque que a cultura Pop procura não é novidade e aquilo que o motiva tem implicações perigosas. Mas vamos por partes.
Qualquer pessoa que conheça um pouco de história, sobretudo história da arte, dificilmente encarará a sexualidade como um tema chocante, novo ou impróprio. Durante séculos, várias gerações de artistas abordaram este assunto, à altura polémico, correndo riscos bem maiores do que aqueles que são corridos hoje. Aliás, hoje convém a quem promove estas atitudes e imagens que as mesmas sejam encaradas como arriscadas ou arrojadas, aumenta o interesse público. Até o carácter subversivo da sexualidade comercial actual, chamemos-lhe assim, pode ser encontrada em grandes obras. Lembremo-nos do caso mais óbvio, o Êxtase de Santa Teresa de Bernini, uma imagem de teor quase pornográfico que a Igreja, inadvertidamente, aceitou ostentar. Mas há na história da arte e da cultura um momento que cristaliza estas revoluções da mentalidade face à sexualidade — as vanguardas do século XX e os movimentos que daí nascem, até à contemporaneidade. Mas esta provocação não atingia as massas, o que explica que estes temas tenham continuado a ser entendidos como tabu para grande parte das populações, referindo-me sobretudo ao Mundo Ocidental.
A cultura Pop, ou comercial, aproveita-se do tabu para, pondo-o de forma simples e directa, fazer dinheiro. O que move uma cantora semi-nua ou uma música cuja letra tem um cariz claramente sexual é o lucro. E é aí que reside o perigo, se assim lhe quisermos chamar, da ostentação sexual da cultura Pop. Nas vanguardas, bem como noutros momentos isolados da história, a abordagem à sexualidade acarretava um intuito quase didático, com uma forte condição conceptual, intelectual e ideológica. Podemos entender isto como educação sexual, inserida num plano maior de educação social. Exploravam-se os tabus para se quebrarem esses mesmos tabus. Hoje em dia, a sexualidade mainstream choca as pessoas porque sabe que o choque vende. É uma sexualidade cuja existência é cuidadosamente pensada e medida, e serve-se de um velho lema que afirma que não há má publicidade. Utilizo o termo mainstream porque existe, como sempre existiu, quem toque no assunto de formas que podemos considerar mais construtivas. A sexualidade promovida pelo apelo comercial é perigosa porque é gratuita, não tenta educar para a sua existência. Pelo contrário, é uma anestesia à sua existência. O choque que vemos nas reacções das pessoas é plástico e absurdo, como se fosse totalmente programado. E pouco a pouco, as mesmas pessoas que vão achando isto e aquilo inaceitável, vão aceitando cada vez mais o que as indignou, na verdade, sem saberem bem porquê. Esta indignação alimenta aquilo a que se dirige. É este o efeito anestésico da cultura Pop e do seu bombardeamento de imagens, acções e ideias avulsas. É por isso que a verdadeira pornografia não reside num par de seios expostos, mas na sua exploração gratuita.
A cultura Pop explora a figura feminina em busca do lucro, mascarando-o, no entanto, como uma procura da quebra de tabus. As massas respondem com raiva e indignação efémeras. Nunca se cria uma verdadeira discussão em torno do assunto. Se os movimentos feministas trouxeram uma aceitação geral da igualdade das mulheres na sociedade, o mesmo talvez não possa ser dito em relação à aceitação e entendimento da sexualidade, sobretudo da sexualidade feminina. Enquanto as pessoas se continuarem a indignar em vez de debater a sexualidade, o tabu prevalecerá. Enquanto a própria educação sexual for vista com reticências, as portas estão abertas a quem queira explorar o sexo como matéria-prima comercial, dando origem a uma outra educação sexual, deficiente e errónea. E aí o ciclo recomeça, sempre alternando entre choque e aceitação, nunca progredindo em nenhuma direcção.