Uma das características da sociedade, a nível praticamente mundial, é o consumismo. Somos bombardeados com publicidade para todo o tipo de coisas, principalmente coisas que não nos fazem falta. Crescemos sempre a querer mais, o que tem tendência para se agravar com o tempo - conseguimos o que queremos, então procuramos ainda mais, porque percebemos que não é aquilo que nos vai fazer felizes, mas sim outra coisa qualquer que vimos no centro comercial. Ao sermos influenciados por anúncios que nos fazem crer que só seremos bonitos como aqueles modelos quando usarmos aquele produto, ou só seremos bem sucedidos quando tivemos aquele carro, ou até mesmo por "publicidades disfarçadas" que estão à nossa volta diariamente, como as redes sociais, programas de televisão, etc, em que a futilidade é o que mais sobressai, acabamos por sentir um vazio interior pois toda esta informação e este mundo de possibilidades à nossa volta não nos faz sentir melhor connosco próprios, cada vez vai acabando mais com a nossa individualidade, auto-estima e essência de cada um de nós.
Somos criados para sermos todos semelhantes, mais fáceis de atingir com estratégias de marketing, somos levados a diminuir os nossos horizontes, pois de outra forma não nos encaixamos na sociedade em que vivemos. Temos todos os mesmos gostos, temos as mesmas roupas, os mesmos hobbies, a mesma vida. Mesmo que nos consideremos diferentes, é complicado atingir aquele estado de espírito de liberdade em que sabemos que somos o que queremos ser e vivemos o que queremos viver na totalidade. Muitas das coisas que queremos já as esquecemos, e outras vamos esquecendo ao longo do tempo. Porque o mundo não tem lugar para isso, para os nossos sonhos, dá muito trabalho controlar uma sociedade cheia de ideias e sonhos, com a mente aberta, que lutam por tudo o que de fundo querem. Em vez disso, é mais simples atacarem-nos com produtos e fazer com que pensemos que a nossa vida fará todo o sentido com eles. É mais fácil trocar os sonhos por coisas que podem ser compradas. Acabamos por nos esquecer do que queremos no fundo, e deixamo-nos consumir pelo consumismo.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Swag man
O que é um Swagman?
Será um homem com swag?
Pois essa será a primeira ideia que virá à cabeça de quem está habituado ao termo swag utilizado entre os adolescentes, mas olhando para a imagem abaixo denota-se algumas diferenças entre esse termo e homem.
Pois bem, um swagman é um trabalhador australiano ambulante que carrega seus pertences pessoais em uma mala enquanto viaja em busca de trabalho.
“v.intr.
1. To walk or conduct oneself with an insolent or
arrogant air; strut.” (The free dictionary)
Depois de uma pequena busca
descobri que este termo provem da palavra swagger, um termo escocês utilizado
para definir uma forma de caminhar, forma essa oscilante, confiante, que
demonstra carisma, carisma esse que os “swaggers” tentam demostrar. Adotam esta palavra como sendo sinónimo de estilo.
O Swag não é muito
mais do que outra moda/estilo social, é uma forma dos adolescentes se sentirem
populares, mas com certo ironismo aparece como uma forma de expressão de
despreocupação relativamente ao que os outros pensam ou dizem, vestir o que se quer e
ouvir o que se gosta, um pensamento correto se fosse como seria suposto, uma forma de combater
o preconceito, mas não passam de uma ilusão, sendo eles os primeiros a preocuparem-se com o que possam dizer deles, escondendo-se atrás deste estilo por saberem que assim serão socialmente aceites, pois terão "swag" tal como os outros.
Swag, divisão, seleção de grupos de pessoas por algo tão subjetivo como estilo.
Swag, divisão, seleção de grupos de pessoas por algo tão subjetivo como estilo.
Os jovens que seguem este estilo gostam de se achar diferentes dos outros, quando não passam de produtos em série, todos com o mesmo estilo, personalidade e necessidades. A escolha de roupa passa pela utilização de bonés que demonstra corretamente a sua alienação, com referências a equipas de desportos que não seguem, nem ligam, mas que insistem em utilizar. Em acréscimo estes produtos também vêm com uma grande necessidade de atenção que tentam ocultar pelo “estilo”, demonstrando que não se afetam mas utilizando redes sociais como refúgio onde procuram ter cada vez mais seguidores e gostos nas suas fotos e publicações.
Não sei se a melhor definição para Swag não seria alguma das palavras escolidas pelo Watsky no seu video.
Consciência: inibidora e um obstáculo à acção?
Marx dizia, “não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência”. A nossa consciência é fruto do mundo em que vivemos, do contexto social que conhecemos, e como seres humanos e com consciência individual, somos confrontados com a realidade e com a necessidade de fazer escolhas e tomar decisões. Desta forma, pode a consciência ser inibidora e um obstáculo à acção?
A consciência surge em nós como capacidade de nos apercebermos do que fazemos. Sem ela, somos como qualquer outro animal que age unicamente por necessidade ou por instinto, reagindo assim de forma automática. Torna-se assim uma componente da acção. Ao sermos dotados desta, antes de agir, pensamos e esse pensamento pode surgir como obstáculo.
A hesitação é o resultado da consciência: queremos agir, mas por vezes a nossa acção é travada pelo pensamento. Surge como fruto dos nossos medos, ou como uma análise da eficiência ou utilidade da nossa acção. Em certas situações a consciência leva-nos à reflexão sobre a decisão, e ao levar tempo a ser tomada ou ainda ao ser contrária à vontade inicial, pode impedir a realização do nosso desejo. Já Hamlet, no terceiro acto da peça de Shakespeare, dizia “Thus conscience does make cowards of us all” (A consciência faz de todos nós covardes).
Em todo o caso, a escolha é sempre acção, e provém sempre da nossa consciência. A escolha tomada, independentemente desta ser a que inicialmente queria, é resultado do julgamento que o sujeito fez, julgamento esse que pode ou não ser posto em questão pela sociedade que o envolve. Não existe acção reflectida automática, e toda acção surge como fruto da consciência e da vida e mundo em que estamos.
A consciência é o que nos permite saber o que estamos a fazer, nasce com o sujeito, e não é à partida a verdadeira inibidora da acção. O mundo em que nos encontramos, o nosso contexto social, as nossas relações com o próximo é que tornam essa consciência inibidora. Mas apesar da escolha do sujeito ser posta em questão, a acção “para bem ou para mal” acaba por ser realizada. O sujeito não é impedido de realizar a acção porque acaba por realizá-la, de uma maneira ou de outra. Sendo assim, a consciência é de certa forma inibidora, mas não é propriamente um obstáculo à acção do sujeito.
Necessidade das Séries
The smart thing in the art world is to have one
good idea and never have another.
Brian Eno
A grande prova do sucesso desta
receita é exactamente todos os artistas extablecidos a seguirem, desde Damien
Hirst ,Dan Flavin, Anish Kapoor, Thomas Ruff, Donald Judd … todos eles não só
possuem uma produção artística em autenticas
escalas industriais, bem como executam na perfeição a nossão primitiva de
desejar um objecto.
Através de constantemente sermos
confrontados com as séries serigráficas de Andy Warhol ou as esculturas de Jeff
Koons, mesmo que inicialmente a primeira sensação causada pelos mesmos nos seja
de indiferença, após grande trabalho de
marketing e de exposição, algo começa a mudar. Começamos assim não só a
apreciar o sentido mais profundo de imagens perfeitamente comuns… como começa a
crescer o desejo de as obter e das coleccionar.
Actualmente
não divergindo muito do mundo de produtos consumíveis, onde se não existir um
confronto constante através dos mais diversos métodos de publicidade e
divulgação.
Existe cada vez mais um paralelismo
entre a produção artística e produtos do dia, contudo num progressivamente mais
próspero mercado de arte, os artistas porem tem a necessidade de criar ícones
para alimentar a constante procura dos coleccionadores. Gravuras e serigrafias
cada vez mais estão em voga, registando não só recordes monetários, como
quantitativos em leilioeiras como a Phillips, Christie’s e a Sotheby´s.
Ao obter uma serigrafia ou gravura, não é apenas um exemplar artístico, como ainda é relativamente mais acessível que um original.
| Colour dots, Damien Hirst, 2012 |
Disconnect to Connect
Há cerca de um ano, o
meu pai mostrou-me um vídeo no youtube com um título bastante interessante - Disconnect to Connect
De uma forma muito sucinta , posso
descrever o vídeo dividindo-o em duas partes: na primeira, são apresentados
diversos momentos de pessoas "agarradas" aos seus telemóveis. Supõe-se que estas
se encontram acompanhadas, no entanto as outras pessoas não aparecem. Há então um
momento essencial no vídeo - aquele em que as diversas pessoas que estavam com os seus telemóveis, o desligam ou guardam. Aí, entra a segunda parte do vídeo: todas aquelas pessoas que se encontravam aparentemente invisíveis, aparecem; e as pessoas que inicialmente estavam com
os telemóveis, apercebem-se finalmente daquilo que as rodeia: a filha que está
a fazer um desenho, o passeio à beira mar, etc.
Este excelente anúncio, produzido pela operadora tailandesa de telemóveis DTAC,
fez-me, no mínimo, pensar um pouco.
Karl Marx afirma que, com
o crescente poder do mundo dos objectos, aumenta em proporção directa a
desvalorização do mundo dos homens. Á medida que o trabalhador se vai esgotando
a si próprio, mais poderoso se torna o mundo dos objectos. O trabalhador vai
ficando cada vez mais pobre na sua vida interior e cada vez menos pertence a
si próprio.
Actualmente, assististe-se
a uma maior fidelidade às coisas, objectos, do que às próprias pessoas. É mais
importante dar atenção à nova notificação no telemóvel do que à filha que
cresce. Cada vez mais nos tornamos escravos dos objectos, dominados por eles, e
estranhamente isso consola-nos, torna-nos confortáveis e felizes. Tudo isto
revela uma felicidade “pobre”, um vazio da vida interior. Tudo isto afasta-nos
do que realmente interessa, da verdadeira vida interior.
Deixo então o
link do vídeo que me impulsionou à realização desta reflexão, mostrado pelo meu
pai que, ironicamente, trabalha na Optimus, no departamento de marketing.
http://www.youtube.com/watch?v=7ae0tzVo8Fw
Espero que gostem e que no final também ponham de lado os vossos telemóveis!!
有许多环境友 [i.e., amigos do ambiente há muitos]
Este fim-de-semana foi necessário um saco forte, que aguentasse transportar um certo volume de coisas pesadas, e encontrou-se um,
daqueles "amigos do ambiente", habitualmente à venda nas cadeias [substantivação apropriadíssima] de supermercados, com o nome da marca impresso e bem visível (caso estranho em que, sob um certo ponto de vista, se paga para usar publicidade), mas também pontualmente oferecidos, por exemplo, com os jornais semanários. Há uns meses vinha um de oferta com o Expresso, em parceria ecológica com a ex-electricidade de portugal:
A criação deste saco surge integrada num plano de um ano inteiro dedicado pelo jornal ao tema do ambiente, cada uma das 52 edições com reportagens diferentes e dossiers aprofundados, publicados em várias partes ao longo de várias semanas, muitos dos quais patrocinados por empresas portuguesas que procuram mostrar elevadas preocupações ambientais.
A ilustração usada vale milhares de palavras, ou pelo menos algumas reflexões soltas na senda do espírito apocalíptico deste blog:
- No seu design infantil e nada inocente, nas "boas práticas de gestão ambiental" ou no papel de Noé salvador de espécies em perigo, com (b)arca atracada no Lago Alqueva, a edp acaba por revelar, sim, a violenta ambição do seu programa empresarial, e a vermelho bem vivo, para avisar do perigo. Que natureza é esta que a edp vê? Um par de árvores e arbustos, três girassóis, duas espigas --- tudo o resto campos e montes desertos. De animais, quase apenas os de "criação": galinha, pintos, coelho. Animais "naturais": uma caracoleta, a coruja que já não tem sítio onde se esconder; ao longe, a reintroduzida águia da edp, com direito a texto de apresentação mais abaixo no saco.
- A bicicleta do cliente e leitor do expresso deverá ser eléctrica, para o ajudar a percorrer estas longas paisagens abandonadas pela natureza mas não pela edp;
- o próprio balão será um dia eléctrico, pois a edp domina também o vento, e pontilha com as suas hélices gigantes os horizontes das auto-estradas, e são eles os objectos em maior número na ilustração, talvez a par dos girassóis porque a edp também tem um pé na energia solar, e dos pintos, embora um dos três tenha ficado para trás, na contemplação desolada das duas últimas espigas de cereal do mundo, desfazendo o trio como que para explicar a falta de interesse da edp na criação avícola doméstica, estando por ora mais concentrada nos altos vôos da singular águia pesqueira.
- Ao cliente-edp-leitor-do-expresso sugere-se que explore a natureza ao alcance da bateria da sua bicicleta eléctrica. Em Portugal já é pouca e muito escondida. Follow the white rabbit deixou de ser uma opção, o coelho cansou-se de esperar, resignou-se, engordou, já não cabe na toca. Está parado. Já não te irá conduzir a lado nenhum, agora tens a edp e o expresso e tens que defender o planeta.
- Esta recente imagem corporativa da edp, criada por alturas da privatização (vide manual da marca), tentou suavizar a imagem da empresa num momento em que se acumulavam críticas por destruir património ambiental através da criação contínua de barragens hidroeléctricas. Algumas décadas antes, a imagem da empresa foi a de um relâmpago de energia domado pela força da edp, mas agora não interessaria ter sinais de perigo tão evidentes, a própria caligrafia do logotipo é infantil, ali já não cabe o trovão [a luz expulsou o papão, a edp é o sol que alumia o mundo que perdeu a sua cor].
- O grosso desta imagética está reproduzido em três dimensões cinéticas nas grandes montras da sede da empresa em Lisboa, na esquina da Praça Marquês de Pombal com a Avenida Fontes Pereira de Melo, e também em duas dimensões estáticas nos tapumes das obras da colossal futura sede, entre a Avenida 24 de Julho e a Rua D. Luís I, por enquanto tão-só um poço infernal a céu aberto, ali mesmo em frente à Adega do Lagarto, coio de cultura alfacinha.
- Entretanto, continuam a ser construídas duas das barragens mais contestadas por biólogos e associações ambientalistas, a da Foz do Tua e a do Baixo Sabor. Ironicamente, uma boa fatia da população local parece aprovar a obra. É difícil esquecer aquela troca de palavras entre António Mexia, face da edp antes e após a privatização, e José Sócrates, o primeiro-ministro, em passeio mediático pelo início das obras de uma dessas barragens, no documentário Pare, Escute e Olhe (interessante banda-sonora de Frankie Chavez), sobre as consequências das ditas barragens e o fim das ferrovias na região. Diz o primeiro-ministro (cerca dos 39 minutos e 43 segundos), fazendo tabula rasa de todos os estudos do impacte ambiental: "Agora só falta aqui é cimento…"
Uma Pequena Parte de Um Todo
As
pessoas não têm todas uma vida igual. Pelo que tenho vindo a compreender, esse
é um facto difícil de aceitar por muita gente. Num mundo onde habitam biliões
de pessoas, ainda há quem pense que, na prática, existe algum tipo de sistema
perfeito que permita a toda a gente ter o mesmo grau de felicidade, como se
esta, para além de poder ser “medida”, partisse na sua essência da
materialidade e em nada tivesse que ver com a atitude interior de cada pessoa.
O mundo só não é justo porque os seres humanos também não são. Cabe-nos a cada
um de nós procurar ser justo, independentemente da nossa posição relativamente
a uma sociedade. A justiça está intimamente ligada às acções de cada pessoa,
individualmente, e não em ideias conceitos ou movimentos generalizados. Em
muitas conversas ouvi pessoas queixarem-se disfarçadamente de que outros
possuem tudo e da culpa que têm por não terem problemas nenhuns na vida. Às
vezes juro que quase os ouço a dizerem baixinho que desejavam ter o mesmo mas,
então, o seu sarcasmo fala mais alto e disfarça o murmúrio. Todos temos um
papel a desempenhar neste mundo e todos são diferentes segundo os parâmetros
humanos do que é bom ou mau. É verdade que alguns são mais facilitados que
outros, mas isso não é decisivo para a felicidade; para a verdadeira
felicidade, a que preenche verdadeiramente as pessoas. A dificuldade de uma
vida não a definirá. De muitas outras coisas depende a felicidade para além das
condições de vida e a maioria delas está em nós mesmos. É importante que todos
tentemos encontrar a nossa maneira de contribuir para uma sociedade e ficarmos
realizados com essa mesma contribuição. Por mais distante e metafórico que
pareça, todos nós somos uma pequena parte que pode ser essencial para uma
construção sólida de um todo. Uma vez que estejamos a contribuir, o nosso
trabalho é sempre imprescindível e mesmo que por vezes nos pareça “menor”-
relativamente a outros- ele acrescenta sempre uma pequena e importante parte a
algo maior. São precisamente essas pequenas coisas que fazem toda a diferença.
Por
isso quando ouço dizer que o trabalho é decisivo no estatuto social de uma
pessoa, algo soa a falso. Se faz, não devia fazer. Vejo como as pessoas
transformaram essa ideia, repetiram-na para si próprias tantas vezes ao ponto
de se convencerem disso e discretamente o têm passado ao longo das gerações.
Todo o trabalho digno e honesto, independentemente do seu rendimento monetário,
tem o mesmo valor social. O valor social que uma sociedade atribui a um
determinado trabalho nem deveria ser relevante. Ser avaliado como trabalhador
ou ser avaliado como pessoa pelo meu trabalho são duas coisas completamente
diferentes. Depois dizem que o trabalho escraviza as pessoas, quando a única
coisa que as escraviza são elas mesmas. Como levam as pessoas o trabalho? Quanto
investimos, cada um de nós, naquilo que estamos a fazer por mais detestável que
achemos ser? Será que há algum trabalho digno e honesto que seja inteiramente
penoso? Parece-me às vezes que fazemos questão de não procurar as pequenas
grandes coisas que fazem cada trabalho valer a pena. Aliás, por vezes fazemos
questão de alimentar exactamente o contrário.
Quando
expostos a situações que nos desagradam e que estão fora do nosso controlo
podemos ainda escolher a atitude que queremos adoptar. A nossa atitude estará
sempre sobre o nosso controlo e penso que é um grande mediador tanto para a
felicidade como para a miséria de espírito. Está claro que é importante
garantir as necessidades básicas num ambiente de trabalho e que se deve lutar
por aquilo a que se te direito e isso nem é posto em causa. Toda essa luta pode
ser feita com serenidade e paciência e isso será muito mais recompensador do
que ganhar ódios de estimação. E muita gente tem os seus ódios de estimação no
trabalho...
Quando
a atitude é bem escolhida e uma pessoa encontra humildade e persistência no que
faz, é impossível que o trabalho escravize. Pode sim libertar.
Exploração personalizada
Século XXI, sento-me perante o ecrã do meu computador e pesquiso algo. Deste gesto apenas posso retirar a essência da razão da minha pesquisa - curiosidade, entretenimento, estudo ou trabalho – nada no gesto, me indicia qualquer tipo de exploração humana. Será em grande parte aquele rectângulo branco que me liga ao resto do mundo. Está na instantaneidade do gesto, que anseia por resultados após 1 segundo da confirmação dada pelo enter, que o homem entende uma nova forma de explorar o seu mundo. Informação listada em links, sem espaço nem tempo, que embora organizada, se afasta da capacidade humana de a percepcionar, tornando-a invisivelmente perigosa. Os browsers trazem consigo a ideia de simplicidade e facilidade em pesquisar dentro da web. É neste enorme repositório virtual de informação que as pistas da exploração são editadas para o indivíduo. Segundo Eli Pariser, o facto de os resultados da nossa vivência online condicionarem os resultados obtidos na pesquisa, está a conduzir-nos a um efeito de ‘bolha’. Este é o efeito da constante personalização baseada em algoritmos que nos devolvem resultados relacionados com aquilo que já pesquisámos anteriormente, que já demos feedback (exemplo dos ‘likes’), que já partilhámos e que indirectamente está próximo dos interesses dos nossos amigos online. Sem dúvida que este parece ser um bom conceito teórico se pensarmos dentro dos conformes desejáveis no século XXI - eficiência e rapidez. Na verdade, vivemos segundo padrões repetitivos, dentro da nossa bolha de interesses e pessoas, mas temos sempre à nossa disposição um mundo físico a explorar. Extrapolando a barreiras virtuais criadas por estes algoritmos personalizados para o mundo real, poderia colocar-se a situação de um indíviduo que todos os dias percorre determinado caminho, se deparar com um muro físico que o impedisse de tomar um percurso alternativo. A procura pelo conhecimento e informação deve-se expôr sempre na totalidade não editada de hipóteses. A linha que separa a possibilidade de obter resultados personalizados e resultados fora da bolha, é ténue; e coloca-nos entre a extrema personalização e a possibilidade de nos isolarmos do mundo. Enquanto ser humano, o grande passo evolutivo está em aprender e saber trabalhar nas circunstâncias que se geram fora da nossa bolha de conforto, fora do que nos é familiar e esperado.
Do desejo e da busca da forma visual:
O desejo cultural, aquele que se distingue da forma instintiva do cheiro
ou de qualquer outro sensor vai condicionar a nossa busca da forma “perfeita”.
O afastamento em direção às “nuvens” o “levantar os pés da terra” faz-nos
querer um desejo que só por si é alienado dos desejos involuntários dos outros
seres naturais. Este desejo nasce com a linguagem, com a representação de nós
mesmos, permitindo a nossa própria explicação, o que nos causou, o que nos
originou, o falso sentido.
O apreciar a forma está condicionado mais que nunca, os preconceitos
formais são os sociais, são os sexuais, são aqueles que surgem no
pós-reconhecimento em frente ao espelho, pós-surgimento do ego e da
auto-consciência.
Quantos teóricos são negativistas por natureza ao inspirarem uma forma de
pensar falsa, em que criticam a própria cultura e o afastamento?
Até que ponto o “super-homem” vitorioso e glorioso de Nietzsche não é o
mais natural e a verdadeira ordem? O mais próximo do ético ou correto nunca
auferiu na sociedade. O sentido do sentimento de piedade pode também fechar o círculo
da percepção das formas, de tudo o que pode ser filmado, fotografado, ou até
mesmo pintado. A veneração da forma na pintura é de um valor sagrado em que a
piedade anti-Nietzsche nunca poderá interferir com a espontaneidade da forma.
Mas esta espontaneidade entra em colisão quando encontra o sentido do que pode
ser chamado de individual. O sentido antropomórfico da pintura, do cinema, da
fotografia e da arte enquanto alienação pelo próprio ego, é e sempre será uma
condicionante maior no pensamento. Detenho-me algumas horas numa reflexão do
caminho independente da forma, horas diárias, uma confusão de instintos.
Do Capitalismo ao Consumo
O começo da revolução industrial impulsionou a criação de um
sistema político-económico – O Capitalismo, vinculado ao comércio e ao consumo
que por sua vez, produz o maior objetivo deste método, o lucro. A geração de
riquezas é uma das capacidades do sistema capitalista, ainda que de forma
desigual, pois apenas uma pequena porção restrita da população mundial tem a satisfação
de usufruir dessas vantagens e regalias. Apesar das várias contribuições que á
primeira vista podem parecer positivas, o capitalismo produziu diversos aspetos
negativos na sociedade, através do crescimento exagerado das novas formas de
conforto.
O
sistema capitalista está ligado à produção em
massa e ao consumo na mesma proporção, produzindo com isso o lucro, mas
exigindo cada vez mais obtenção de matéria-prima, retirando da natureza uma elevada
quantidade dos seus recursos. A exploração constante tem deixado um resultado
de devastação profunda no meio-ambiente e no último século, o mundo passou por
profundas evoluções e a natureza sempre foi usada nesse processo, porém sem planeamento,
a mesma demonstra agora demonstra saturação e incapacidade de regeneração.
A busca incessante por lucros faz com que exista uma grande
exploração do trabalho por parte dos proprietários dos meios de produção, intensificando
o aparecimento das desigualdades sociais. Estas situações são reforçadas pela
falta de emprego, que por sua vez se deve à oferta em demasia de trabalhadores,
que consequentemente recebem salários baixos, e ainda são ameaçados pela
modernização da produção que retira um número elevado de postos de trabalho. A
exploração da força de trabalho aumenta cada vez mais a disparidade económica
existente, pois a concentração de riquezas aumenta apenas nas mãos dos poucos
que já as possuem.
Porém a extinção dos valores humanos, é o ponto
máximo do capital, despoletado pelo consumo, que se encontra armado por uma
série de estratagemas para que as pessoas aumentem gravemente a necessidade de possessão,
muitas vezes sem necessidade, pois são apenas forçadas por uma coletividade de
anúncios publicitários que as influenciam, para que de uma forma inconsciente, se
incorporem num processo articulado pelo sistema. É precisamente nessa busca de
aquisição materialista que se perdem os valores humanos, que são postos de lado
e perdidos na ânsia de obtenção de objetos que se tornam mais importantes do
que a bondade, acabando por eclipsar relações humanas, como amizade,
solidariedade e a própria verdade que acaba por ser ignorada, em prole de
materialismos e desnecessidades.
RE-conhecer, RE-existir, Re-sistir
Com base numa significação simplificada, pode definir-se ideologia como o conjunto de ideias ou
valores defendidos por determinada pessoa, grupos ou institucionalização, a fim
de justificar a sua acção. Neste conceito pode incluir-se, por exemplo, o
comunismo. É a ideologia numa das suas vertentes políticas, mas com especificidades
próprias que em alguns lugares do mundo já foram dominantes não sendo, contudo,
globalizadas.
O comunismo, na
sua ala mais puritana – a do Marxismo – defende ideais de igualdade social,
sendo que o ponto nevrálgico do equilíbrio da Humanidade se rege pela força do
trabalho. Ideologicamente, o comunismo defende uma distribuição de riqueza
equitativa, valorizando por igual o papel de cada um no todo do proletariado.
Para além de coexistir numa hierarquia piramidal através da qual há superiores e
subordinados, o Marxismo defende uma hegemonia económica que pretende diluir
fossos classicistas e valorizar o papel de cada um na sociedade.
O sistema ideológico Marxista do comunismo nunca vingou em
alguma parte do mundo, pela deturpação de que era vitimizado na sua génese.
Criaram-se correntes e subcorrentes do mesmo, através das quais eram
disseminados ideais adulterados para servir os interesses do topo piramidal,
numa filosofia ditatorial e tirânica. Com base nesses exemplos práticos, o
comunismo foi, historicamente, estando associado a uma ideologia non grata (não aceite) passando a ser o
ideal eleito por pequenos segmentos fragilizados por pertencerem a uma minoria.
Em simultâneo com o comunismo, desenvolveu-se o ideal da democracia que vingou
na grande maioria dos países ocidentais e ocidentalizados. Contudo, as ideias de
justiça e equidade que lhe asseguravam um mar de seguidores começou a
revelar-se utópica e muito distante das promessas que disseminava inicialmente.
A resistência, que surgiu
sorrateiramente através do processo de hegemonia,
no qual uma classe dominante conquista o consenso das classes subordinadas assegurando
a sua subordinação, foi sendo fortificada pelos poderes detentores do capital
económico. Com o capitalismo não só se assistiu a um maior distanciamento dos
valores Marxistas apregoados pelo próprio Marx, como a um gradual
desaparecimento da democracia pela resistência defendida pelos chamados donos
do mundo. A sua subtileza assente em falsas promessas de riqueza individual,
bem-estar social e valorização do ter em vez do ser, conseguiu transformar-se
ela própria num ideal de vida irresistível querido pela grande maioria. Aqui
chegamos ao conceito de incorporação
– através de um processo insidioso de uma ideologia resistente à global é
atingido o ponto em que ela própria se transforma na ideologia dominante,
assentando o seu poder no lugar da anterior. Tendo o capitalismo revelado a sua
cara ditatorial e tirânica, recentemente, assiste-se a crescentes
contestações e a uma recusa ao conformismo a este ideal, sendo posto em causa
por uma (ainda) minoria à concepção de vida tal como ela se apresenta.
Tal
como Ernesto Sabato nos afirma na sua obra A Resistência (2008), esta crise não é a crise do sistema
capitalista, como muitos imaginam: é a crise de toda uma concepção do mundo e
na vida baseada na idolatria da técnica e na exploração do homem.
Podemos,
deste modo, constatar que a trilogia de Ideologia/Resistência/Incorporação
não é mais do que um ciclo da História, apresentando contornos inconstantes, de
altos e baixos que produzem oscilações na própria vontade do Homem. A
incorporação de qualquer ideologia passa, assim, pela fase de resistência,
seguida pela hegemonia. Concluímos que a grande diferença da resistência actual
é que a mesma não parte do topo piramidal mas sim da sua base. Chegada a vez da
sua hegemonização surgirá um novo ideal, por enquanto desconhecido, mas que
trará promessas igualmente irresistíveis à maioria. A característica cíclica da
História ensina que tudo se repete. Só o futuro dirá se a próxima ideologia vai
dar passos pelos caminhos da deturpação das anteriores.
Insularidade
Quando se nasce numa ilha, vive-se a
ilusão de que o mundo são apenas 17 Km2, uma pista de aviões de
pequeno porte, uma escola, um hospital e um posto de bombeiros. Com o
passar do tempo tomamos consciência de que o pedaço de terra que os
nossos pais nos reservaram, é insuficiente para a nossa existência.
Um dia acordamos com a sensação claustrofóbica, mas sabemos que
nada podemos fazer – estamos destinados a passar uma parte
significativa das nossas vidas rodeados de mar, tendo como escape o
imenso oceano que embora nos devolva todos os dias a realidade e a
consciência do isolamento, permite-nos projectar na linha do
horizonte todos os sonhos que nos fazem crescer e expandir a nossa
imaginação. Aqui o tempo é contado de maneira diferente. É a
natureza que nos controla o dia e a noite. É o mar alteroso que nos
desperta e nos interrompe os sonhos alertando para a nossa
vulnerabilidade. Não raras as vezes, a natureza recorda-nos
duramente a sua superioridade, a nós, seres indefesos, que habitam
um pedaço de terra onde os alimentos escasseiam, onde não há
condições para a prática da agricultura porque as rajadas de vento
castram qualquer tentativa de fertilização. Aqui, a única coisa
que se movimenta são os moinhos. Limitados a ligações externas
três vezes por semana, onde as ligações por cabo espreitaram
timidamente as nossas casas para depois as abandonarem. Estamos
esquecidos no atlântico. Somos o que resta do lado mais ocidental de
um continente que desconhece a nossa existência.
Durante o rigoroso
inverno, os limitados 17Km2 reduzem-se a metade. Há um recolher
obrigatório que nos torna, a nós humanos, imprescindíveis das
relações, do calor, da troca, da partilha, da empatia, da
cumplicidade. Somos apenas homeo spiritualis porque
aqui temos maior consciência da nossa ignorância face à força da
natureza e por isso, agarramo-nos a uma religião que, sabendo que
nos ilude, torna-se no único narcótico capaz de tornar os nossos
dias mais suportáveis. Aqui, quatrocentas
pessoas no mesmo espaço, onde primos casam com primos e o cenário
congénito propaga-se a olhos vistos. Aqui, muitos estarão
destinados à neurose, à psicose e ao mundo autistico. Somos o lado
romantico de uma civilização com a qual não nos identificamos.
Vivemos o primitivismo e sentimos a liberdade de quem alimenta uma
ignorância induzida pelo isolamento. O conhecimento aqui não se
justifica, não alimenta, não constroi...não há condições para
usufruirmos da nossa inteligência. Ao sairmos deste pedaço de
terra, descobrimos que há um mundo, mas muito diferente do imaginado
no contexto insular. Percebemos o quão perdidos e à deriva nos
deixaram, e olhamos para uma parte significativa da nossa vida como
um autêntico deserto. Decerto, nem todos os dias serão tão negros
como esta ilha: o Corvo
Consumir o Natal
Chega a altura Natalícia e somos inesperadamente bombardeados por um enorme excesso de marketing e publicidade dos mais variados produtos. É nesta altura que a sociedade actual abusa da tendência moderna de consumir desenfreadamente bens que não necessita.
Nesta época do ano o gosto pela reunião familiar,prática de boas acções e de oferecer prendas no natal como um acto de demonstrar o carinho está a tornar-se numa desculpa de adquirir os produtos da moda e basear essa compra em sentimentos fúteis.
Estamos a ser transformados num palco de consumo irrefletido e até mesmo irracional, em que os valores humanos foram substituídos pelos valores que alimentam impulsos consumistas .
O famoso " pai natal",que tirou o protagonismo ao "menino jesus" ( principal razão do natal) é um dos ou mesmo o melhor exemplo do consumismo que vivem as crianças nesta época.
Começam assim desde pequena idad a mentalizarem-se que têm que ter um bom comportamento para receberem o prémio,que acaba por ser um super-herói de plástico ou a boneca que fala e que aparece na série da tarde. Objetos que na maior parte das vezes é a recompensa pela falta de carinho e atenção dos pais.
Uma época em que é maior o" sentimento de obrigação" de oferecer presentes aos amigos e familiares, em especial às crianças, do que um real valor afectivo.
bip bip bip "ERRO"
Hoje é dia 30, o penúltimo do ano, e mais uma vez pouco ou nada mexe pelas ruas dos subúrbios da capital. Pelas janelas conseguimos ver uma ou outra luz ligada, ou uma árvore de Natal cheia de enfeites e luzinhas que piscam. As pessoas fogem e abrigam-se do frio nas suas tocas, vêem-se apenas uns miúdos a brincar e a gritar nos parques com as novas aquisições das festividades ou outros esperando pelo autocarro que os levará ao conforto caseiro da família.
Mesmo assim de todas estas personagens, poucos são os que prevalecem e ficam em casa pois a maioria arruma as coisas e parte para a festa. Os que já foram, entopem vias rápidas com os seus automóveis, cheios de bagagem e amigos, cada um sonhando com a melhor maneira de se perder na noite de amanhã, que acabará esquecida no dia seguinte.
Este ano decidi questionar este pensamento, a obrigatoriedade da festa e do gasto e da confusão e do enorme nível de embriaguez simplesmente por ser esta específica altura do ano. Porquê? Porque é que toda a gente faz e quer fazer isto? Como resposta a esta pergunta optei por aproveitar ficar em casa, visto que os meus progenitores decidiram seguir o exemplo do resto do mundo e deslocarem-se para algum local inóspito onde pudessem desfrutar do barulho e da algazarra.
Esta decisão foi tomada não há muito tempo mas à medida que as pessoas, atarefadas com a organização do "festão da PDA!!", me perguntavam ou convidavam para o seu respectivo evento e me explicavam todos os pormenores, eu ia entendendo que não era bem isso que me estava a apetecer. Fui respondendo que não me dava muito jeito, que era longe, ou que era caro, até que finalmente aceitei que este ano não quero confusões e vou ficar em casa. As pessoas ficam intrigadas com tal afirmação e dizem-me quase todas "A sério?! Vais ficar em casa?! Mas... É a passagem de ano, a sério que vais ficar em casa?! Com quem?! Blablablablabla". Começo a achar que as pessoas são realmente obtusas. Não pode haver comportamentos fora da norma. Somos máquinas programadas para aceitar uma determinada realidade, se algo foge ao leque de opções pré-definidas, bip bip bip ''ERRO''. Mais que isso, porque é que o ser humano tem constantemente a necessidade de obter mais quando o que já tem chega e sobra?
Amanhã, dia 31 de Dezembro, o último dia deste ano de 2013, passarei a minha meia-noite no sofá ou na cozinha, talvez no quarto ou até mesmo na casa de banho, mas certamente em casa com a minha namorada e com o meu cão, pois acordei e vi, senti e pensei que isto que tenho aqui chega-me e faz-me feliz.
Mesmo assim de todas estas personagens, poucos são os que prevalecem e ficam em casa pois a maioria arruma as coisas e parte para a festa. Os que já foram, entopem vias rápidas com os seus automóveis, cheios de bagagem e amigos, cada um sonhando com a melhor maneira de se perder na noite de amanhã, que acabará esquecida no dia seguinte.
Este ano decidi questionar este pensamento, a obrigatoriedade da festa e do gasto e da confusão e do enorme nível de embriaguez simplesmente por ser esta específica altura do ano. Porquê? Porque é que toda a gente faz e quer fazer isto? Como resposta a esta pergunta optei por aproveitar ficar em casa, visto que os meus progenitores decidiram seguir o exemplo do resto do mundo e deslocarem-se para algum local inóspito onde pudessem desfrutar do barulho e da algazarra.
Esta decisão foi tomada não há muito tempo mas à medida que as pessoas, atarefadas com a organização do "festão da PDA!!", me perguntavam ou convidavam para o seu respectivo evento e me explicavam todos os pormenores, eu ia entendendo que não era bem isso que me estava a apetecer. Fui respondendo que não me dava muito jeito, que era longe, ou que era caro, até que finalmente aceitei que este ano não quero confusões e vou ficar em casa. As pessoas ficam intrigadas com tal afirmação e dizem-me quase todas "A sério?! Vais ficar em casa?! Mas... É a passagem de ano, a sério que vais ficar em casa?! Com quem?! Blablablablabla". Começo a achar que as pessoas são realmente obtusas. Não pode haver comportamentos fora da norma. Somos máquinas programadas para aceitar uma determinada realidade, se algo foge ao leque de opções pré-definidas, bip bip bip ''ERRO''. Mais que isso, porque é que o ser humano tem constantemente a necessidade de obter mais quando o que já tem chega e sobra?
Amanhã, dia 31 de Dezembro, o último dia deste ano de 2013, passarei a minha meia-noite no sofá ou na cozinha, talvez no quarto ou até mesmo na casa de banho, mas certamente em casa com a minha namorada e com o meu cão, pois acordei e vi, senti e pensei que isto que tenho aqui chega-me e faz-me feliz.
"Se desejam
esboçar uma amizade, um namoro, devem evitar cuidadosamente parecer tomar a
iniciativa; os homens não gostam de mulher-homem, nem de mulher culta, nem de
mulher que sabe o que quer: ousadia demais, cultura, inteligência, caráter,
assustam-nos. - Simone de Beauvoir
Muito me
parece que desde o curto espaço de tempo que Simone de Beauvoir imortalizou O segundo sexo, pouca coisa mudou. O
texto que é atual por um período indefinido de tempo. Obviamente que há
exceções à regra. Gostaria de falar dum caso em particular e pessoal — o da
minha mãe.
Pelo que sei, das histórias que me contam em cada reunião de família, é que a minha mãe viveu em Paris muitos anos durante o regime Salazarista. Voltou para Portugal para um colégio religioso no Porto para fazer a 1º classe e passar consequentemente mais doze anos da sua vida lá fechada. Até aqui tudo normal, até que a minha tia, que estava presente, decide evocar um acontecimento curioso. "Lembras-te quando a Madre Superior te quis expulsar daquela vez em que defendeste o aborto?" Aí eu virei a cara, perplexa com esta pequena analepse vinda da boca da minha tia. A minha mãe riu-se e eu em poucos segundos pensei e realmente apercebi-me que era um ato completamente normal vindo dela. Pelo que me lembro hoje em dia, ela protestou para que se construíssem hospitais pediátricos antes de eu mesma ser planeada. Existem, mas infelizmente já sou maior de idade e significa que demoraram mais de vinte anos a ser construídos. Mas para mim não me importa. Ela estava lá a protestar para que um dia eu ou os meus filhos tivéssemos boas estruturas de saúde.
Pelo que sei, das histórias que me contam em cada reunião de família, é que a minha mãe viveu em Paris muitos anos durante o regime Salazarista. Voltou para Portugal para um colégio religioso no Porto para fazer a 1º classe e passar consequentemente mais doze anos da sua vida lá fechada. Até aqui tudo normal, até que a minha tia, que estava presente, decide evocar um acontecimento curioso. "Lembras-te quando a Madre Superior te quis expulsar daquela vez em que defendeste o aborto?" Aí eu virei a cara, perplexa com esta pequena analepse vinda da boca da minha tia. A minha mãe riu-se e eu em poucos segundos pensei e realmente apercebi-me que era um ato completamente normal vindo dela. Pelo que me lembro hoje em dia, ela protestou para que se construíssem hospitais pediátricos antes de eu mesma ser planeada. Existem, mas infelizmente já sou maior de idade e significa que demoraram mais de vinte anos a ser construídos. Mas para mim não me importa. Ela estava lá a protestar para que um dia eu ou os meus filhos tivéssemos boas estruturas de saúde.
Voltando
um pouco mais atrás nesta história, queria especificar o caso que foge à regra,
invocando um outro herói que tenho presente na minha vida — o meu pai. Conheceram-se
em Coimbra. E a minha mãe já tinha este espírito de protesto. Apaixonaram-se
numa república de estudantes quando o português do meu pai era provavelmente
erudito. O que os uniu, vejo eu, foi a cultura,
a inteligência e o carácter. Tudo
aquilo que provavelmente é diagnosticado como uma fobia, já que o mundo está
cheio de hipocondríacos de doenças imaginárias. Fobia a uma pessoa culta não
existe, não se tem medo de uma pessoa culta. O homem tem medo que a sua chama
de macho seja apagada.
Hoje em
dia, apesar de não haver um equilíbrio entre sexos, verifica-se que muitos
homens têm medo e nojo de mulheres com poder. E utilizo "poder" na
mulher que pensa por si própria e que escolhe livremente que emprego, que
roupas e que posição quer assumir.
Old Spice
Em Visual Pleasure and Narrative Cinema de Laura Mulvey é referido o tema da escopofilia e o seu desenvolvimento psicanalítico por parte de Freud. Este termo define a acção que o olhar toma enquanto fonte de prazer e por consequência o acto de tomar as pessoas por objectos através de uma observação voyeurista, controladora e curiosa. Freud mais tarde desenvolve a sua teoria admitindo que o olhar é por si só uma fonte de prazer e que enquanto pulsão, é independente das zonas erógenas. Liga ainda o termo ao auto-erotismo prégenital depois do qual o prazer é transferido para outro sujeito por analogia. Deixando de parte a essência do estudo de Mulvey, que se refere quase que exclusivamente ao cinema e à apropriação desta qualidade voyeurista neste meio, é interessante analisar este termo do ponto de vista da publicidade. Se Mulvey afirma que a mulher tem um papel passivo e que a escopofilia é uma consequência de um meio que à data era essencialmente dominado por homens, tal não se verifica nos dias de hoje, tanto no cinema como na publicidade. Com o feminismo, a mulher “adquire” uma dimensão e um estatuto equivalente ao homem, em todos os aspectos, social, político e económico. Por consequência a publicidade reflecte exactamente isso. Decerto que o objectivo da publicidade é a venda do produto que anuncia e como tal é produzida de acordo com o seu mercado alvo. Recentemente tornou-se célebre a recente vaga de anúncios da marca de desodorizante Old Spice, que embora anuncie um produto masculino a sua publicidade é produzida de acordo com o mercado que adquire de facto o produto, a mulher. Através de análise e estudos de mercado a marca determinou que uma vez que são as mulheres que normalmente fazem as compras domésticas, seria uma vantagem captar a sua atenção, em vez da do homem, para as vantagens dos seus produtos. Toda a sua envolvente comercial passou então a girar em torno da mulher, fazendo uso das qualidades da escopofilia mencionadas por Mulvey e Freud. De referir que os anúncios possuem apenas um actor, em tronco nu, e que regra geral começam com a frase “Hello ladies” desenvolvendo-se numa série de comparações entre o actor e o marido da mulher associadas de alguma forma à fragrância do produto. Será importante referir que o texto de Mulvey possui agora mais de 40 anos, que o mundo evoluiu e que o papel activo definido pela autora como exclusivo ao homem deixou de o ser. A publicidade da Old Spice é por isso um bom exemplo da teoria da escopofilia onde a mulher tem o papel activo, consequência dos avanços sociais, nomeadamente a emancipação da mulher.
Referências:
Mulvey, L. (1975) "Visual Pleasures and Narrative Cinema" Screen vol. 16 (Autumn), pp 6-18.
Referências:
Mulvey, L. (1975) "Visual Pleasures and Narrative Cinema" Screen vol. 16 (Autumn), pp 6-18.
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