segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Complexo de herói

Todos os sentidos do ser humano comportam a possibilidade de sentir prazer. Como tal, o olhar não é excepção. Muito desse prazer de olhar que sentimos é causado pelas características físicas de um outro ser humano. É no entanto fácil de observar que o sexo feminino é aquele que por norma suporta o olhar do sexo oposto, o masculino. O sexo feminino é por ideologia o sexo que melhor funciona como objecto erótico, que mais é explorado nesse sentido, e que mais facilmente consegue cativar um espectador através do prazer do olhar.  
O que me intriga nesta questão do prazer do olhar, a escopofilia, tem a ver com o que terá originado esta ideologia da mulher como símbolo erótico e sedutor. Terá que ver apenas com as suas condições físicas que a tornam atraente (as curvas, os longos cabelos) ou terá raízes na consciência mais profundas associadas a algo mais espiritual?
Esta ideologia do erotismo que a mulher evoca está presente desde os tempos mais antigos. O sagrado feminino e o culto da deusa, símbolos de uma extrema importância no passado, louvavam a mulher e contemplavam-na pela sua capacidade de criar vida. O seu erotismo nascia provavelmente desta sua capacidade geradora (talvez por que nos faz lembrar o afecto e carinho que recebemos primeiramente pela nossa mãe). O sexo passivo e sensível, submetido maioritariamente à vontade do sexo activo, o masculino, ganhava com o culto do sagrado feminino uma função espiritual, que continha ainda o seu trunfo para se conseguirem manifestar num mundo controlado por homens, o seu erotismo e poder de sedução. Porém, nos dias de hoje, a ideologia que é transmitida em filmes e outros meios é a de mulher como objecto de contemplação, com a função cativar os espectadores, e cativar o protagonista, fazendo-o desencadear a acção. Ainda que inicialmente esta seja representada como atraente e excitante, o seu poder é diminuído à medida do filme até ao ponto de servir apenas para estar bonita, para ser olhada, tornando-se propriedade do elemento masculino e sujeitando o seu erotismo a ele apenas.
Esta ideologia que o cinema transmite, do homem como herói que faz desencadear a acção e de mulher como espectáculo representa uma ‘realidade’ onde o sexo feminino parece fazer o sexo masculino querer exaltar-se e realizar acções magníficas e surpreendentes, que consigam equiparar a capacidade da mulher de gerar vida. Parece haver um certo complexo do sexo masculino que desperta uma vontade constante de se exibirem tanto quanto o sexo feminino o faz, numa tentativa de superação deste. De facto, há vários casos na história onde o sexo masculino se sentiu de certa forma ameaçado pelo feminino. Um deles, foi a propósito dos cultos associados ao sagrado feminino, quando a Igreja Católica, controlada por homens, ao temer que as suas crenças fossem desvalorizadas pelo culto da deusa, demonizou vários símbolos relacionados com o feminino de forma a sua imagem ser considerada impura, para que a imagem do homem fosse considerada como a do verdadeiro Criador.
O que pretendo concluir é que embora o sexo masculino esteja satisfeito com a sua posição de carregador do olhar, e o sexo feminino também participe na sua função de suportar o olhar como objecto erótico e de sedução, parece existir um pequeno complexo do sexo masculino face as capacidades sedutoras do sexo feminino que os faz despertar para acções heróicas. Portanto, a indústria cinematográfica sempre ilustra bem este facto, a mulher desencadeia a acção do homem, mas talvez não da forma óbvia esperada. A meu ver, estes actos do sexo masculino desencadeados pelo poder erótico feminino decorrem não só para impressionar o ser feminino representado, mas sim também numa tentativa de o superar. Tal como a igreja católica, também as indústrias parecem por vezes tornar o feminino impuro ao exibirem-no como objecto erótico. No entanto, ao contrário do que se passou quando foram demonizados os símbolos do culto da deusa, já não se poderá responsabilizar o sexo masculino por esta ideologia, tendo em conta que o sexo feminino também participa dela, dando continuidade aos estereótipos incluídos nesta, e sentindo ‘prazer em ser olhada’.