Todos os sentidos do ser humano comportam a possibilidade
de sentir prazer. Como tal, o olhar não é excepção. Muito desse prazer de olhar que sentimos é causado pelas características
físicas de um outro ser humano. É no entanto fácil de observar que o sexo
feminino é aquele que por norma suporta o olhar do sexo oposto, o masculino. O
sexo feminino é por ideologia o sexo que melhor funciona como objecto erótico,
que mais é explorado nesse sentido, e que mais facilmente consegue cativar um
espectador através do prazer do olhar.
O que me intriga nesta questão do prazer do olhar, a
escopofilia, tem a ver com o que terá originado esta ideologia da mulher como
símbolo erótico e sedutor. Terá que ver apenas com as suas condições físicas
que a tornam atraente (as curvas, os longos cabelos) ou terá raízes na
consciência mais profundas associadas a algo mais espiritual?
Esta ideologia do erotismo que a mulher evoca está
presente desde os tempos mais antigos. O sagrado feminino e o culto da deusa,
símbolos de uma extrema importância no passado, louvavam a mulher e
contemplavam-na pela sua capacidade de criar vida. O seu erotismo nascia
provavelmente desta sua capacidade geradora (talvez por que nos faz lembrar o
afecto e carinho que recebemos primeiramente pela nossa mãe). O sexo passivo e
sensível, submetido maioritariamente à vontade do sexo activo, o masculino, ganhava
com o culto do sagrado feminino uma função espiritual, que continha ainda o seu
trunfo para se conseguirem manifestar num mundo controlado por homens, o seu erotismo
e poder de sedução. Porém, nos dias de hoje, a ideologia que é transmitida em
filmes e outros meios é a de mulher como objecto de contemplação, com a função cativar
os espectadores, e cativar o protagonista, fazendo-o desencadear a acção. Ainda
que inicialmente esta seja representada como atraente e excitante, o seu poder
é diminuído à medida do filme até ao ponto de servir apenas para estar bonita,
para ser olhada, tornando-se propriedade do elemento masculino e sujeitando o seu
erotismo a ele apenas.
Esta ideologia que o cinema transmite, do homem como
herói que faz desencadear a acção e de mulher como espectáculo representa uma ‘realidade’
onde o sexo feminino parece fazer o sexo masculino querer exaltar-se e realizar
acções magníficas e surpreendentes, que consigam equiparar a capacidade da
mulher de gerar vida. Parece haver um certo complexo do sexo masculino que
desperta uma vontade constante de se exibirem tanto quanto o sexo feminino o
faz, numa tentativa de superação deste. De facto, há vários casos na história
onde o sexo masculino se sentiu de certa forma ameaçado pelo feminino. Um deles,
foi a propósito dos cultos associados ao sagrado feminino, quando a Igreja
Católica, controlada por homens, ao temer que as suas crenças fossem desvalorizadas
pelo culto da deusa, demonizou vários símbolos relacionados com o feminino de
forma a sua imagem ser considerada impura, para que a imagem do homem fosse
considerada como a do verdadeiro Criador.
O que pretendo concluir é que embora o sexo masculino
esteja satisfeito com a sua posição de carregador do olhar, e o sexo feminino
também participe na sua função de suportar o olhar como objecto erótico e de
sedução, parece existir um pequeno complexo do sexo masculino face as
capacidades sedutoras do sexo feminino que os faz despertar para acções
heróicas. Portanto, a indústria cinematográfica sempre ilustra bem este facto,
a mulher desencadeia a acção do homem, mas talvez não da forma óbvia esperada. A
meu ver, estes actos do sexo masculino desencadeados pelo poder erótico feminino
decorrem não só para impressionar o ser feminino representado, mas sim também
numa tentativa de o superar. Tal como a igreja católica, também as indústrias parecem
por vezes tornar o feminino impuro ao exibirem-no como objecto erótico. No
entanto, ao contrário do que se passou quando foram demonizados os símbolos do
culto da deusa, já não se poderá responsabilizar o sexo masculino por esta
ideologia, tendo em conta que o sexo feminino também participa dela, dando
continuidade aos estereótipos incluídos nesta, e sentindo ‘prazer em ser olhada’.