Uma cerveja morna e um maço de tabaco a chegar ao fim. Na sala onde me encontro com dois amigos — um bar sujo depois de uma noite de concertos — há um sofá onde dormem quatro raparigas, cantoras. Na sala do lado, cuja porta aberta deixa transitar o ruído, canta-se karaoke — é a noite de aniversário do dono. A conversa deste lado é a que costumo ter quando encontro o mais velho destes dois amigos, já com 40 anos e sempre pronto a divagar sobre mais uma história, livro ou música. Falamos da religião e de como ela engana os homens, da política e da sua perversidade, da cultura e do discurso ausente dos seus responsáveis. Dou mais um golo na cerveja e atiro outra ideia ao ar. “Porra, tu não podes ter a certeza que vais morrer, apenas deduzes isso porque vês tudo a morrer à tua volta!” Tenho dito isto muitas vezes, mas começo a pensar cada vez mais que se calhar não pensei suficientemente bem no assunto. “Olha, Spice Girls, no meu tempo era o que estava a dar!” — responde-me, ignorando a minha observação, poucos minutos depois de recomendar uma cantora fenomenal de cânticos islâmicos e tibetanos. Voltamos à conversa e a coisa abstrai-se cada vez mais. Este amigo mais velho, ostentando uma barba que poderia, noutros tempos, evidenciar uma sapiência ateniense, afirma arrojadamente que o ser humano foi alterado geneticamente há cerca de 200 mil anos atrás. Talvez da cerveja, da circunstância ou da barba, não me ri. Talvez fosse o cepticismo que vou tentando cultivar, ou então simplesmente boa educação, mas até ponderei a hipótese. Afinal, de onde veio a consciência? Eu que não percebo nada do assunto, cuja minha curiosidade vem das dúvidas existenciais antes do sono e que agora procuro as respostas na série “Cosmos” do Carl Sagan que uma amiga me recomendou, não sei por onde começar a responder. Rejeito deus em todas as suas materializações. Rejeito até pensar num início porque talvez nada tenha começado e tudo sempre esteve cá (outra possível barbaridade que se calhar devia repensar). Mas na verdade não tenho uma resposta, um princípio de algo, uma noção que faça sentido. Sou ignorante quanto ao facto mais importante da minha existência, que é ela própria, mas não acredito que possa ser mais que isso. Assumir uma certeza seria tirar a beleza à existência. A ciência mostrou-nos o fascínio grandioso dos mecanismo do universo. Na ciência como na arte, rejeitam-se teses como os pós-modernistas rejeitaram Corbusier. Emancipa-se a beleza da ignorância que motiva a procura. Talvez a beleza, e quem sabe o motivo, da nossa existência, aqui e agora, nesta condição de seres humanos ignorantes, é podermos discuti-la num bar sujo, com cheiro a tabaco entranhado na madeira velha, tão alto que acordamos a quatro raparigas que agora se apercebem que há karaoke.