segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

RE-conhecer, RE-existir, Re-sistir

Com base numa significação simplificada, pode definir-se ideologia como o conjunto de ideias ou valores defendidos por determinada pessoa, grupos ou institucionalização, a fim de justificar a sua acção. Neste conceito pode incluir-se, por exemplo, o comunismo. É a ideologia numa das suas vertentes políticas, mas com especificidades próprias que em alguns lugares do mundo já foram dominantes não sendo, contudo, globalizadas.

O comunismo, na sua ala mais puritana – a do Marxismo – defende ideais de igualdade social, sendo que o ponto nevrálgico do equilíbrio da Humanidade se rege pela força do trabalho. Ideologicamente, o comunismo defende uma distribuição de riqueza equitativa, valorizando por igual o papel de cada um no todo do proletariado. Para além de coexistir numa hierarquia piramidal através da qual há superiores e subordinados, o Marxismo defende uma hegemonia económica que pretende diluir fossos classicistas e valorizar o papel de cada um na sociedade.
          
           O sistema ideológico Marxista do comunismo nunca vingou em alguma parte do mundo, pela deturpação de que era vitimizado na sua génese. Criaram-se correntes e subcorrentes do mesmo, através das quais eram disseminados ideais adulterados para servir os interesses do topo piramidal, numa filosofia ditatorial e tirânica. Com base nesses exemplos práticos, o comunismo foi, historicamente, estando associado a uma ideologia non grata (não aceite) passando a ser o ideal eleito por pequenos segmentos fragilizados por pertencerem a uma minoria. Em simultâneo com o comunismo, desenvolveu-se o ideal da democracia que vingou na grande maioria dos países ocidentais e ocidentalizados. Contudo, as ideias de justiça e equidade que lhe asseguravam um mar de seguidores começou a revelar-se utópica e muito distante das promessas que disseminava inicialmente.

A resistência, que surgiu sorrateiramente através do processo de hegemonia, no qual uma classe dominante conquista o consenso das classes subordinadas assegurando a sua subordinação, foi sendo fortificada pelos poderes detentores do capital económico. Com o capitalismo não só se assistiu a um maior distanciamento dos valores Marxistas apregoados pelo próprio Marx, como a um gradual desaparecimento da democracia pela resistência defendida pelos chamados donos do mundo. A sua subtileza assente em falsas promessas de riqueza individual, bem-estar social e valorização do ter em vez do ser, conseguiu transformar-se ela própria num ideal de vida irresistível querido pela grande maioria. Aqui chegamos ao conceito de incorporação – através de um processo insidioso de uma ideologia resistente à global é atingido o ponto em que ela própria se transforma na ideologia dominante, assentando o seu poder no lugar da anterior. Tendo o capitalismo revelado a sua cara ditatorial e tirânica, recentemente, assiste-se a crescentes contestações e a uma recusa ao conformismo a este ideal, sendo posto em causa por uma (ainda) minoria à concepção de vida tal como ela se apresenta.

            Tal como Ernesto Sabato nos afirma na sua obra A Resistência (2008), esta crise não é a crise do sistema capitalista, como muitos imaginam: é a crise de toda uma concepção do mundo e na vida baseada na idolatria da técnica e na exploração do homem.     
     
  É essencial RE-conhecer uma consciência mais crítica e uma visão mais aguçada da realidade; RE-existir ao escaparmos às crenças ilusórias mantidas pela classe dominante; RE-sistir de modo a que os seres humanos livres actuem no campo de prisioneiros; ver com os nossos próprios olhos e não com os olhos que querem que vejamos.


           Podemos, deste modo, constatar que a trilogia de Ideologia/Resistência/Incorporação não é mais do que um ciclo da História, apresentando contornos inconstantes, de altos e baixos que produzem oscilações na própria vontade do Homem. A incorporação de qualquer ideologia passa, assim, pela fase de resistência, seguida pela hegemonia. Concluímos que a grande diferença da resistência actual é que a mesma não parte do topo piramidal mas sim da sua base. Chegada a vez da sua hegemonização surgirá um novo ideal, por enquanto desconhecido, mas que trará promessas igualmente irresistíveis à maioria. A característica cíclica da História ensina que tudo se repete. Só o futuro dirá se a próxima ideologia vai dar passos pelos caminhos da deturpação das anteriores.