Com base numa significação simplificada, pode definir-se ideologia como o conjunto de ideias ou
valores defendidos por determinada pessoa, grupos ou institucionalização, a fim
de justificar a sua acção. Neste conceito pode incluir-se, por exemplo, o
comunismo. É a ideologia numa das suas vertentes políticas, mas com especificidades
próprias que em alguns lugares do mundo já foram dominantes não sendo, contudo,
globalizadas.
O comunismo, na
sua ala mais puritana – a do Marxismo – defende ideais de igualdade social,
sendo que o ponto nevrálgico do equilíbrio da Humanidade se rege pela força do
trabalho. Ideologicamente, o comunismo defende uma distribuição de riqueza
equitativa, valorizando por igual o papel de cada um no todo do proletariado.
Para além de coexistir numa hierarquia piramidal através da qual há superiores e
subordinados, o Marxismo defende uma hegemonia económica que pretende diluir
fossos classicistas e valorizar o papel de cada um na sociedade.
O sistema ideológico Marxista do comunismo nunca vingou em
alguma parte do mundo, pela deturpação de que era vitimizado na sua génese.
Criaram-se correntes e subcorrentes do mesmo, através das quais eram
disseminados ideais adulterados para servir os interesses do topo piramidal,
numa filosofia ditatorial e tirânica. Com base nesses exemplos práticos, o
comunismo foi, historicamente, estando associado a uma ideologia non grata (não aceite) passando a ser o
ideal eleito por pequenos segmentos fragilizados por pertencerem a uma minoria.
Em simultâneo com o comunismo, desenvolveu-se o ideal da democracia que vingou
na grande maioria dos países ocidentais e ocidentalizados. Contudo, as ideias de
justiça e equidade que lhe asseguravam um mar de seguidores começou a
revelar-se utópica e muito distante das promessas que disseminava inicialmente.
A resistência, que surgiu
sorrateiramente através do processo de hegemonia,
no qual uma classe dominante conquista o consenso das classes subordinadas assegurando
a sua subordinação, foi sendo fortificada pelos poderes detentores do capital
económico. Com o capitalismo não só se assistiu a um maior distanciamento dos
valores Marxistas apregoados pelo próprio Marx, como a um gradual
desaparecimento da democracia pela resistência defendida pelos chamados donos
do mundo. A sua subtileza assente em falsas promessas de riqueza individual,
bem-estar social e valorização do ter em vez do ser, conseguiu transformar-se
ela própria num ideal de vida irresistível querido pela grande maioria. Aqui
chegamos ao conceito de incorporação
– através de um processo insidioso de uma ideologia resistente à global é
atingido o ponto em que ela própria se transforma na ideologia dominante,
assentando o seu poder no lugar da anterior. Tendo o capitalismo revelado a sua
cara ditatorial e tirânica, recentemente, assiste-se a crescentes
contestações e a uma recusa ao conformismo a este ideal, sendo posto em causa
por uma (ainda) minoria à concepção de vida tal como ela se apresenta.
Tal
como Ernesto Sabato nos afirma na sua obra A Resistência (2008), esta crise não é a crise do sistema
capitalista, como muitos imaginam: é a crise de toda uma concepção do mundo e
na vida baseada na idolatria da técnica e na exploração do homem.
Podemos,
deste modo, constatar que a trilogia de Ideologia/Resistência/Incorporação
não é mais do que um ciclo da História, apresentando contornos inconstantes, de
altos e baixos que produzem oscilações na própria vontade do Homem. A
incorporação de qualquer ideologia passa, assim, pela fase de resistência,
seguida pela hegemonia. Concluímos que a grande diferença da resistência actual
é que a mesma não parte do topo piramidal mas sim da sua base. Chegada a vez da
sua hegemonização surgirá um novo ideal, por enquanto desconhecido, mas que
trará promessas igualmente irresistíveis à maioria. A característica cíclica da
História ensina que tudo se repete. Só o futuro dirá se a próxima ideologia vai
dar passos pelos caminhos da deturpação das anteriores.
