Quando se nasce numa ilha, vive-se a
ilusão de que o mundo são apenas 17 Km2, uma pista de aviões de
pequeno porte, uma escola, um hospital e um posto de bombeiros. Com o
passar do tempo tomamos consciência de que o pedaço de terra que os
nossos pais nos reservaram, é insuficiente para a nossa existência.
Um dia acordamos com a sensação claustrofóbica, mas sabemos que
nada podemos fazer – estamos destinados a passar uma parte
significativa das nossas vidas rodeados de mar, tendo como escape o
imenso oceano que embora nos devolva todos os dias a realidade e a
consciência do isolamento, permite-nos projectar na linha do
horizonte todos os sonhos que nos fazem crescer e expandir a nossa
imaginação. Aqui o tempo é contado de maneira diferente. É a
natureza que nos controla o dia e a noite. É o mar alteroso que nos
desperta e nos interrompe os sonhos alertando para a nossa
vulnerabilidade. Não raras as vezes, a natureza recorda-nos
duramente a sua superioridade, a nós, seres indefesos, que habitam
um pedaço de terra onde os alimentos escasseiam, onde não há
condições para a prática da agricultura porque as rajadas de vento
castram qualquer tentativa de fertilização. Aqui, a única coisa
que se movimenta são os moinhos. Limitados a ligações externas
três vezes por semana, onde as ligações por cabo espreitaram
timidamente as nossas casas para depois as abandonarem. Estamos
esquecidos no atlântico. Somos o que resta do lado mais ocidental de
um continente que desconhece a nossa existência.
Durante o rigoroso
inverno, os limitados 17Km2 reduzem-se a metade. Há um recolher
obrigatório que nos torna, a nós humanos, imprescindíveis das
relações, do calor, da troca, da partilha, da empatia, da
cumplicidade. Somos apenas homeo spiritualis porque
aqui temos maior consciência da nossa ignorância face à força da
natureza e por isso, agarramo-nos a uma religião que, sabendo que
nos ilude, torna-se no único narcótico capaz de tornar os nossos
dias mais suportáveis. Aqui, quatrocentas
pessoas no mesmo espaço, onde primos casam com primos e o cenário
congénito propaga-se a olhos vistos. Aqui, muitos estarão
destinados à neurose, à psicose e ao mundo autistico. Somos o lado
romantico de uma civilização com a qual não nos identificamos.
Vivemos o primitivismo e sentimos a liberdade de quem alimenta uma
ignorância induzida pelo isolamento. O conhecimento aqui não se
justifica, não alimenta, não constroi...não há condições para
usufruirmos da nossa inteligência. Ao sairmos deste pedaço de
terra, descobrimos que há um mundo, mas muito diferente do imaginado
no contexto insular. Percebemos o quão perdidos e à deriva nos
deixaram, e olhamos para uma parte significativa da nossa vida como
um autêntico deserto. Decerto, nem todos os dias serão tão negros
como esta ilha: o Corvo
