segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Insularidade

     Quando se nasce numa ilha, vive-se a ilusão de que o mundo são apenas 17 Km2, uma pista de aviões de pequeno porte, uma escola, um hospital e um posto de bombeiros. Com o passar do tempo tomamos consciência de que o pedaço de terra que os nossos pais nos reservaram, é insuficiente para a nossa existência. Um dia acordamos com a sensação claustrofóbica, mas sabemos que nada podemos fazer – estamos destinados a passar uma parte significativa das nossas vidas rodeados de mar, tendo como escape o imenso oceano que embora nos devolva todos os dias a realidade e a consciência do isolamento, permite-nos projectar na linha do horizonte todos os sonhos que nos fazem crescer e expandir a nossa imaginação. Aqui o tempo é contado de maneira diferente. É a natureza que nos controla o dia e a noite. É o mar alteroso que nos desperta e nos interrompe os sonhos alertando para a nossa vulnerabilidade. Não raras as vezes, a natureza recorda-nos duramente a sua superioridade, a nós, seres indefesos, que habitam um pedaço de terra onde os alimentos escasseiam, onde não há condições para a prática da agricultura porque as rajadas de vento castram qualquer tentativa de fertilização. Aqui, a única coisa que se movimenta são os moinhos. Limitados a ligações externas três vezes por semana, onde as ligações por cabo espreitaram timidamente as nossas casas para depois as abandonarem. Estamos esquecidos no atlântico. Somos o que resta do lado mais ocidental de um continente que desconhece a nossa existência. 



Durante o rigoroso inverno, os limitados 17Km2 reduzem-se a metade. Há um recolher obrigatório que nos torna, a nós humanos, imprescindíveis das relações, do calor, da troca, da partilha, da empatia, da cumplicidade. Somos apenas homeo spiritualis porque aqui temos maior consciência da nossa ignorância face à força da natureza e por isso, agarramo-nos a uma religião que, sabendo que nos ilude, torna-se no único narcótico capaz de tornar os nossos dias mais suportáveis. Aqui, quatrocentas pessoas no mesmo espaço, onde primos casam com primos e o cenário congénito propaga-se a olhos vistos. Aqui, muitos estarão destinados à neurose, à psicose e ao mundo autistico. Somos o lado romantico de uma civilização com a qual não nos identificamos. Vivemos o primitivismo e sentimos a liberdade de quem alimenta uma ignorância induzida pelo isolamento. O conhecimento aqui não se justifica, não alimenta, não constroi...não há condições para usufruirmos da nossa inteligência. Ao sairmos deste pedaço de terra, descobrimos que há um mundo, mas muito diferente do imaginado no contexto insular. Percebemos o quão perdidos e à deriva nos deixaram, e olhamos para uma parte significativa da nossa vida como um autêntico deserto. Decerto, nem todos os dias serão tão negros como esta ilha: o Corvo