segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Tarefas domésticas pré-destinadas

"Fecham a mulher numa cozinha ou num camarim e espantam-se de que o seu horizonte seja limitado; cortam-lhe as asas e lamentam que não saiba voar. Que lhe abram o futuro e ela não será mais obrigada a instalar-se no presente."
- Simone de Beauvior, 1967

     Embora se pense que nos dias actuais, a mulher já possua um papel semelhante ao do homem na maioria das sociedades, acho que isso seja uma mentira. Haverá sempre alguém que mostre o contrário. Haverá sempre um macho a se auto-promover diante da fêmea. E haverá certamente uma fêmea que se deixe acanhar por tal superioridade do sexo oposto. Ainda há muito que os diferencie, e sempre haverá. 
     Tal diferença é notável no próprio lar de cada família. Na cozinha, todas os dias lá se encontra a mãe ou a filha a preparar a próxima refeição ou a lavar a sujidade da anterior. Todas as semanas lá se encontra uma fêmea a limpar o chão, os móveis ou a mudar os lençóis das camas. São tarefas que não se pôem em questão de não ser o homem a exercer-las. Nunca. As justificações  “não foi assim que me educaram” e “não é para isso que o homem serve” são as usadas para calar as fêmeas e as submeter continuamente a tais rituais. Por não ser assim que foi educado, é claro que não irá mudar tal educação contra seu favor. Nesses momentos o homem serve para estar sentado no sofá a actualizar-se do mundo através do jornal, ou então usando as tecnologias, através do computador ou mesmo da televisão. Nesses momentos o homem encontra-se no descanso. Pergunto-me quando é que a mulher nessa família tem o seu momento de descanso. Pergunto-me quando é que chegará o dia em que a mesma não tem de mergulhar as mãos em água gordurosa e enxaguar a loiça que a restante família usou para se alimentar.
     São estes subtis preconceitos, ainda existentes em muitos lares, que revelam o quanto a mulher ainda se encontra limitada, que ainda não alcançou a sua independência. Gerações passaram, muito as mulheres conquistaram, no entanto ainda existem homens que dificilmente aceitam tal perda de “controlo” e tentam mante-lo nos seus lares. Naquilo que eles possuem. Quem saiba isso mude, numa próxima geração.