O ritmo das transformações da nossa sociedade torna-se a cada dia mais frenético, principalmente pela utilização das novas tecnologias e meios de comunicação. Esta cultura em que somos constantemente "bombardeados" por imagens tem inquestionavelmente as suas bases no pós-guerra, a partir da década de 50, quando o consumo se torna na palavra de ordem e a produção deixa de ser vinculada às necessidades, passando assim a saciar os desejos supérfulos.
O âmbito artístico procura então dialogar com este contexto, sugerindo a necessidade de produzir também uma arte que esteja em consonância com esta efervescência da produção e consumo. Surge então a Pop Art a partir desta crescente circulação de mercadorias e acima de tudo de imagens produzidas para a sedução dos consumidores. É neste contexto que Andy Warhol, utilizando elementos banalizados e amplamente difundidos pelos media, consegue imprimir nas suas obras uma marca pessoal, sendo possível reconhecê-la entre tantas outras difundidas por esta nova cultura.
No entanto, diante deste constante apelo à reprodução de imagens e de obras de arte, observa-se naturalmente que o seu carácter de unicidade, aquilo a que Walter Benjamin denomina de "aura" se perde bruscamente: “A arte contemporânea será tanto mais eficaz quanto mais se orientar em função de sua reprodutibilidade e, portanto, quanto menos colocar no seu centro a obra original” (Benjamin, 1987, p. 180)
Deste modo, de que forma é que a particularização das obras de Warhol se efectiva, uma vez que a natureza dessas produções é profundamente marcada pelo seu próprio carácter reprodutível?
Um dos principais aspectos desta corrente artística prende-se precisamente com o desejo de criar obras susceptíveis de serem produzidas em grande escala, por forma a serem acessíveis a uma larga parcela da população, reestruturando as relações entre o sujeito e a obra de arte. Neste contexto, a singularidade outrora valorizada pela ritualização de admirar uma obra no seu próprio espaço e tempo é deixada de lado em nome da possibilidade de ser possível adquirir o objecto, trazê-lo para si e particularizá-lo enquanto seu.
Fazer as coisas “ficarem mais próximas” é uma preocupação tão apaixonada das massas modernas como sua tendência a superar o carácter único de todos os factos através da sua reprodutibilidade. Cada dia fica mais irresistível a necessidade de possuir o objecto, de tão perto quanto possível, na imagem, ou antes, na sua cópia, na sua reprodução. (Benjamin, 1987, p. 170)Assim, encontramos elementos que outrora seriam descartáveis ou banais mas que pelas mãos de artistas como Warhol, são elevados à categoria de objecto artístico. A utilização de marcas ou personalidades amplamente expostas, proporcionava um reconhecimento imediato pela população, associando o sucesso destes produtos à própria imagem das suas obras, valorizando-as. Warhol via-se como sujeito integrante de uma cultura contemporânea pautada pelo consumo de imagens e considerava impossível desvincular a sua arte desse contexto.
No entanto, a Marilyn que Warhol reproduz não procura a revelação da mulher por detrás da personagem. A actriz é "deusificada" e associada ao seu carácter inatingível, em que a fama se mostra como um elixir de imortalidade, contrastando com o carácter efémero e descartável dos produtos, e com a própria afirmação de Warhol que afirma que "um dia todos terão 15 minutos de fama".
Assim, quando se observa a sua obra, conclui-se que o sucesso de Warhol não está vinculado ao ineditismo das suas telas mas sim à proximidade destas com os seus consumidores.
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| Andy Warhol, Shot Light Blue Marilyn, 1964. |
No entanto há que realçar que o conceito de inédito e original apesar de perder importância não deixa de ser valorizado, como se pode observar no caso das Shot Marilyns, de 1964, em que Dorothy Podber, uma jornalista americana pediu a Warhol para fotografar as quatro telas da recente falecida Marilyn Monroe. No entanto, na língua inglesa, a palavra "shoot" aplica-se tanto a tirar fotografias como a disparar um tiro. Assim, depois de Warhol ter permitido o que ele pensava ser uma fotografia das suas obras, Podber pegou na sua pequena pistola com a qual disparou um tiro em cada tela. Este acontecimento, apesar de ter transtornado Warhol, que nunca mais permitiu a sua entrada no estúdio, ficou lembrado como uma performance, além de ter aumentado o valor das próprias obras em questão pela sua unicidade: em 1989 a Shot Red Marilyn foi vendida por 4 milhões de dólares, o preço mais elevado até então pago por uma obra deste artista!
Referências:
Benjamin, Walter. (1955/1987) A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica. Sobre Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense
Wikipedia contributors (2013). ‘Shot Marilyns.’ In Wikipedia, The Free Encyclopedia [Consult.. 2013-12-29]. Disponível em <URL: http://en.wikipedia.org/wiki/Shot_Marilyns>
