domingo, 29 de dezembro de 2013

SEXO E SOCIEDADE


Ao longo dos tempos a mulher submetida ao homem torna-se um panorama rotineiro, onde esta, é muitas vezes vista como um objecto perante o mesmo. A sociedade desenvolve-se e evolui perante esta mesma hierarquia de género social. O homem conheceu-se como espécie dominante e a partir deste preconceito o ser humano criou os seus espaços e surgiram as formas que o definem. O género como ferramenta de construção revela-se por toda a parte, desde a mulher como objecto de consumo ao homem como ferramenta de poder.
As grandes cidades demonstram esta tal hierarquia do homem sobre a mulher e também de uma sociedade criada a partir destes valores. A arquitectura da cidade surge com base em tal, e partindo das melhores características para transmitir uma hierarquia não só de classes como de géneros, traduz estes valores nas suas formas mais simbólicas. Os hábitos humanos adaptam-se á forma e a sociedade desenvolve-se perante uma constituição que lhe é imposta, somos levados a viver a cidade, na constituição em que esta se nos apresenta. “O espaço urbano estabelece – na sua distribuição, utilização, transferência e simbolismo – hierarquias e prioridades que favorecem determinados valores e anulam outros”(Cortés). O homem assume a sua presença dominante na forma da cidade, os aranha-céus, assumindo uma forma fálica, admitem então o exemplo do poder masculino e uma autoridade dominante perante as outras formas, o poder é assumido e criam-se hierarquias através da forma do espaço que a sociedade ocupa. Tal como a mulher se tornou objecto através do cinema narrativo vemos isto acontecer nas ruas do dia-a-dia através do controlo imposto pela anatomia do espaço.
O tempo passa e a sociedade desenvolve-se nas suas ideias. O ser humano começa a aperceber-se deste domínio do objecto/espaço sobre si, e como este toma o seu controlo através das suas características. O consumo apodera-se destas relacções e faz-se crescer de acordo com as hierarquias que a cidade estabelece, o sujeito como objecto controlado e o objecto como controlador. O sujeito tenta libertar-se do espaço e a mulher afirma um papel de resistência á hierarquia que lhe foi, até hoje, imposta. Vemos uma mulher presente, quer ocupando cargos superiores na sociedade, quer afirmando e adquirindo os seus direitos. A mulher tem, no entanto, de resistir aos factores externos que o meio lhe foi apresentando nas suas constituições.
O filme “Sexo e a cidade” destaca o exemplo de como a mulher do séc. XXI tenta assumir um papel de poder, perante a situação social onde é vista a necessidade desta resistir ao meio que a rodeia para assumir o seu papel e importância. Conhecemos o exemplo da cidade imponente de Nova Iorque, onde a mulher acaba por se destacar através de um grupo de amigas que se mostra como uma excepção e motivação para outras do mesmo género, em relação ao constante destaque do poder masculino, acabando por se revelar uma obvia tentativa da afirmação de um género perante o outro, onde o consumo se torna o principal meio controlador. O filme começa com a necessidade da mulher de superar determinados obstáculos impostos pelas diferenças de género que o espaço e o ambiente de consumo da cidade, e termina demonstrando o poder que o sexo feminino consegue conquistar, por fim, no exemplo da cidade ocidental dos dias de hoje. Embora revelando-se um ser de destaque, a mulher apenas o demonstra através da necessidade de resistir e contrariar a sua submissão e controlo. O consumo e o estilo de vida levado, tornam-se o fetiche de cada um, criado pelo espaço que envolve o sujeito.
São os preconceitos um dia deixados por outros antecedentes a nós, que muitas vezes criam marcas e condicionantes externas ao ser humano, que o levam a agir como ser controlado (fantoche) e a sentir a necessidade de “obedecer ao espaço” autodisciplinando as suas atitudes de acordo com o mesmo e não com a sua livre vontade.

Cortés, José, 2008, in “Políticas do Espaço: Arquitectura, Género e Controle Social”, São Paulo
Mulvey, L. (1975) “Visual Pleasure and Narrative Cinema” Screen, vol.16 (Autumn)