A questão do que realmente define liberdade persiste desde o
início do pensamento filosófico. Ainda antes de Aristóteles, se perguntavam
como poderíamos ser livres, se Deus - ou uma outra entidade divina – já tinha
conhecimento do que iria acontecer.
No pensamento contemporâneo, a Ciência tem tomado o papel de
Deus na sua essência determinista. Entendemos agora, através desta perspetiva,
que o planeta funciona a partir de um dado conjunto de Leis Físicas que
controlam o comportamento de todo e qualquer objeto. O ser humano é constituído
pelas mesmas substâncias do seu redor, não sendo uma exceção a estas Leis. Tudo
o que tomamos por consciente ou racional ilude-nos: cada movimento muscular é
um “espasmo” causado por uma súbita voltagem elétrica aplicada no tecido
muscular; cada complexo pensamento são meros impulsos elétricos e sinapses
químicas que ocorrem no cérebro; tudo aparenta ser mecânico e planeado. A
questão que é proposta, agora que existimos no paradigma científico, é: “Como
poderemos ser livres se a Ciência já sabe antecipadamente o que irá
acontecer?” Entre Deus e a Ciência,
parece não existir muito lugar para o livre-arbítrio.
Para que seja entendido o pensamento de autores que se opõem
(intencionalmente ou não) esta visão, irei recuar para o pensamento de Hegel.
G.W.F. Hegel propõe a existência do Geist,
uma consciência universal, uma unidade que
contém uma infinidade de partes que são expressão de toda a existência. Tal
pensamento trouxe reverberações teóricas como a ideia de Inconsciente Coletivo de Jung, a de Consciência Coletiva de Durkheim, do Campo Morfogenético de Rupert Sheldrake, entre outros. Farei
referência ao último para prosseguir o comentário.
A invenção da máquina
a vapor foi altamente polémica, foi extremamente difícil entender qual teria
sido o inventor da máquina quando, na mesma semana, cinco pessoas reclamavam
terem-na criado. Poderá um tê-la criado e os outros praticado plágio, poderão
dois ter criado por coincidência, ou terão todos inventado a máquina?
Rupert Sheldrake, para
além de outros fatores, sugere que toda a existência persiste entre duas
dimensões espaciais: a física/material e outra, a que chama de Campo Morfogenético. Este espaço é
co-habitado por uma enorme diversidade de espectros de consciência que inclui tanto
seres vivos como também outros organismos como estrelas, minerais e até
pensamentos, todos interligados de forma ramificada. Esta teoria pretende
justificar fenómenos de “interligações tipo-telepatia entre organismos”. Tais
ligações influenciam inevitavelmente qualquer organismo: um rato num
laboratório aprende determinado exercício para uma recompensa e um outro rato,
noutro ponto geográfico, cumpre o mesmo exercício sem ter sido ensinado ou tido
contacto com o primeiro roedor; o mesmo poderíamos concluir quanto à máquina a
vapor e quanto a outros saltos na investigação científica. Somos, na verdade,
mais responsáveis do que achamos pelo nosso pensamento, existe sempre o risco
de ser apreendido por outro, influenciando-o.
Como referi
anteriormente, esta ligação vai além dos organismos vivos. Estamos também
ligados com todo o nossos habitat e,
tal como células nos constituem a nós, nós constituímos a Terra que, por sua
vez é um dos constituintes do Universo. Através do pensamento científico
entendemos que todo o nosso redor trabalha mecanicamente pondo em questão se
nós também nos comportamos como tal. Na verdade, nós comportamo-nos através de
hábitos e, provavelmente também o resto do Universo funciona neste registo. A
Ciência toma como dogma que existem invariáveis no Universo, caso da velocidade
da luz, no entanto, até esta tem variado – o que tomamos como lapso de calculo
– no entanto, poderemos estar bem mais próximos da verdade do que pensamos. A
velocidade da luz poderá estabilizar dentro de um determinado valor, dada a
habituação do fenómeno a esse mesmo, apesar de tudo, nada a impede de ser
inconstante como realmente se tem comprovado. As Teorias Relativistas vêm a demonstrar
que as Leis Físicas podem ser quebradas, o que as liberta de estatuto de Lei.
Questiono-me, através dos pensamentos de R. Sheldrake, se a nossa mente, poderá, através do Campo Morfogenético, ter um papel na estabilização dos hábitos da Natureza. Será que a mentalização (fenómeno explorado por práticas filosóficas orientais) de que a Natureza funciona de uma forma mecânica poderá realmente influenciar na habituação dela própria a um determinado comportamento?
E visto que existe uma dicotomia entre cérebro (in praesentia, no mundo material) e mente (in absaentia, num espaço de consciências), será que os fenómenos mentais são consequência destes acontecimentos eletro-químicos no cérebro, como a Ciência sugere, ou será que a mente manifesta-se, como reflexo do pensamento, nessa atividade?
Concluo que a nossa
liberdade será bem mais complexa do que uma máquina sistematizada para um dado
objetivo. A noção de livre-arbítrio torna-se uma ilusão criada pela mente, o
nosso percurso, determina-se pelas influencias a que somos sujeitos entre o Campo Morfogenético.