segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Determinismo em Ramos


A questão do que realmente define liberdade persiste desde o início do pensamento filosófico. Ainda antes de Aristóteles, se perguntavam como poderíamos ser livres, se Deus - ou uma outra entidade divina – já tinha conhecimento do que iria acontecer.

No pensamento contemporâneo, a Ciência tem tomado o papel de Deus na sua essência determinista. Entendemos agora, através desta perspetiva, que o planeta funciona a partir de um dado conjunto de Leis Físicas que controlam o comportamento de todo e qualquer objeto. O ser humano é constituído pelas mesmas substâncias do seu redor, não sendo uma exceção a estas Leis. Tudo o que tomamos por consciente ou racional ilude-nos: cada movimento muscular é um “espasmo” causado por uma súbita voltagem elétrica aplicada no tecido muscular; cada complexo pensamento são meros impulsos elétricos e sinapses químicas que ocorrem no cérebro; tudo aparenta ser mecânico e planeado. A questão que é proposta, agora que existimos no paradigma científico, é: “Como poderemos ser livres se a Ciência já sabe antecipadamente o que irá acontecer?”  Entre Deus e a Ciência, parece não existir muito lugar para o livre-arbítrio.

Para que seja entendido o pensamento de autores que se opõem (intencionalmente ou não) esta visão, irei recuar para o pensamento de Hegel. G.W.F. Hegel propõe a existência do Geist, uma consciência universal, uma unidade que contém uma infinidade de partes que são expressão de toda a existência. Tal pensamento trouxe reverberações teóricas como a ideia de Inconsciente Coletivo de Jung, a de Consciência Coletiva de Durkheim, do Campo Morfogenético de Rupert Sheldrake, entre outros. Farei referência ao último para prosseguir o comentário.

A invenção da máquina a vapor foi altamente polémica, foi extremamente difícil entender qual teria sido o inventor da máquina quando, na mesma semana, cinco pessoas reclamavam terem-na criado. Poderá um tê-la criado e os outros praticado plágio, poderão dois ter criado por coincidência, ou terão todos inventado a máquina?
Rupert Sheldrake, para além de outros fatores, sugere que toda a existência persiste entre duas dimensões espaciais: a física/material e outra, a que chama de Campo Morfogenético. Este espaço é co-habitado por uma enorme diversidade de espectros de consciência que inclui tanto seres vivos como também outros organismos como estrelas, minerais e até pensamentos, todos interligados de forma ramificada. Esta teoria pretende justificar fenómenos de “interligações tipo-telepatia entre organismos”. Tais ligações influenciam inevitavelmente qualquer organismo: um rato num laboratório aprende determinado exercício para uma recompensa e um outro rato, noutro ponto geográfico, cumpre o mesmo exercício sem ter sido ensinado ou tido contacto com o primeiro roedor; o mesmo poderíamos concluir quanto à máquina a vapor e quanto a outros saltos na investigação científica. Somos, na verdade, mais responsáveis do que achamos pelo nosso pensamento, existe sempre o risco de ser apreendido por outro, influenciando-o.
Como referi anteriormente, esta ligação vai além dos organismos vivos. Estamos também ligados com todo o nossos habitat e, tal como células nos constituem a nós, nós constituímos a Terra que, por sua vez é um dos constituintes do Universo. Através do pensamento científico entendemos que todo o nosso redor trabalha mecanicamente pondo em questão se nós também nos comportamos como tal. Na verdade, nós comportamo-nos através de hábitos e, provavelmente também o resto do Universo funciona neste registo. A Ciência toma como dogma que existem invariáveis no Universo, caso da velocidade da luz, no entanto, até esta tem variado – o que tomamos como lapso de calculo – no entanto, poderemos estar bem mais próximos da verdade do que pensamos. A velocidade da luz poderá estabilizar dentro de um determinado valor, dada a habituação do fenómeno a esse mesmo, apesar de tudo, nada a impede de ser inconstante como realmente se tem comprovado. As Teorias Relativistas vêm a demonstrar que as Leis Físicas podem ser quebradas, o que as liberta de estatuto de Lei.

Questiono-me, através dos pensamentos de R. Sheldrake, se a nossa mente, poderá, através do Campo Morfogenético, ter um papel na estabilização dos hábitos da Natureza. Será que a mentalização (fenómeno explorado por práticas filosóficas orientais) de que a Natureza funciona de uma forma mecânica poderá realmente influenciar na habituação dela própria a um determinado comportamento?
E visto que existe uma dicotomia entre cérebro (in praesentia, no mundo material) e mente (in absaentia, num espaço de consciências), será que os fenómenos mentais são consequência destes acontecimentos eletro-químicos no cérebro, como a Ciência sugere, ou será que a mente manifesta-se, como reflexo do pensamento, nessa atividade?

Concluo que a nossa liberdade será bem mais complexa do que uma máquina sistematizada para um dado objetivo. A noção de livre-arbítrio torna-se uma ilusão criada pela mente, o nosso percurso, determina-se pelas influencias a que somos sujeitos entre o Campo Morfogenético.