As
pessoas não têm todas uma vida igual. Pelo que tenho vindo a compreender, esse
é um facto difícil de aceitar por muita gente. Num mundo onde habitam biliões
de pessoas, ainda há quem pense que, na prática, existe algum tipo de sistema
perfeito que permita a toda a gente ter o mesmo grau de felicidade, como se
esta, para além de poder ser “medida”, partisse na sua essência da
materialidade e em nada tivesse que ver com a atitude interior de cada pessoa.
O mundo só não é justo porque os seres humanos também não são. Cabe-nos a cada
um de nós procurar ser justo, independentemente da nossa posição relativamente
a uma sociedade. A justiça está intimamente ligada às acções de cada pessoa,
individualmente, e não em ideias conceitos ou movimentos generalizados. Em
muitas conversas ouvi pessoas queixarem-se disfarçadamente de que outros
possuem tudo e da culpa que têm por não terem problemas nenhuns na vida. Às
vezes juro que quase os ouço a dizerem baixinho que desejavam ter o mesmo mas,
então, o seu sarcasmo fala mais alto e disfarça o murmúrio. Todos temos um
papel a desempenhar neste mundo e todos são diferentes segundo os parâmetros
humanos do que é bom ou mau. É verdade que alguns são mais facilitados que
outros, mas isso não é decisivo para a felicidade; para a verdadeira
felicidade, a que preenche verdadeiramente as pessoas. A dificuldade de uma
vida não a definirá. De muitas outras coisas depende a felicidade para além das
condições de vida e a maioria delas está em nós mesmos. É importante que todos
tentemos encontrar a nossa maneira de contribuir para uma sociedade e ficarmos
realizados com essa mesma contribuição. Por mais distante e metafórico que
pareça, todos nós somos uma pequena parte que pode ser essencial para uma
construção sólida de um todo. Uma vez que estejamos a contribuir, o nosso
trabalho é sempre imprescindível e mesmo que por vezes nos pareça “menor”-
relativamente a outros- ele acrescenta sempre uma pequena e importante parte a
algo maior. São precisamente essas pequenas coisas que fazem toda a diferença.
Por
isso quando ouço dizer que o trabalho é decisivo no estatuto social de uma
pessoa, algo soa a falso. Se faz, não devia fazer. Vejo como as pessoas
transformaram essa ideia, repetiram-na para si próprias tantas vezes ao ponto
de se convencerem disso e discretamente o têm passado ao longo das gerações.
Todo o trabalho digno e honesto, independentemente do seu rendimento monetário,
tem o mesmo valor social. O valor social que uma sociedade atribui a um
determinado trabalho nem deveria ser relevante. Ser avaliado como trabalhador
ou ser avaliado como pessoa pelo meu trabalho são duas coisas completamente
diferentes. Depois dizem que o trabalho escraviza as pessoas, quando a única
coisa que as escraviza são elas mesmas. Como levam as pessoas o trabalho? Quanto
investimos, cada um de nós, naquilo que estamos a fazer por mais detestável que
achemos ser? Será que há algum trabalho digno e honesto que seja inteiramente
penoso? Parece-me às vezes que fazemos questão de não procurar as pequenas
grandes coisas que fazem cada trabalho valer a pena. Aliás, por vezes fazemos
questão de alimentar exactamente o contrário.
Quando
expostos a situações que nos desagradam e que estão fora do nosso controlo
podemos ainda escolher a atitude que queremos adoptar. A nossa atitude estará
sempre sobre o nosso controlo e penso que é um grande mediador tanto para a
felicidade como para a miséria de espírito. Está claro que é importante
garantir as necessidades básicas num ambiente de trabalho e que se deve lutar
por aquilo a que se te direito e isso nem é posto em causa. Toda essa luta pode
ser feita com serenidade e paciência e isso será muito mais recompensador do
que ganhar ódios de estimação. E muita gente tem os seus ódios de estimação no
trabalho...
Quando
a atitude é bem escolhida e uma pessoa encontra humildade e persistência no que
faz, é impossível que o trabalho escravize. Pode sim libertar.