- Não sei o que dar ao padrinho da
tua irmã este ano… epá e ainda nem fiz “filhoses”. Isto anda esquisito – diz a
minha mãe indignada no seu reboliço constante enquanto levanta o testo da
panela numa dessas noites pós-natal.
- Não faças nada- respondo-lhe eu, em
tanto retoricamente no ímpeto de a parar, de a fazer sentar e deixar as coisas
para trás uma vez que seja, para que sinta o bem que faz, para que sinta o
agrado do vento numa metáfora à vida; não a critico pela sua educação, nem lhe
respondi assim apenas em tom de brincadeira. A conversa prossegue e surge-me na
ideia analisar este “não faças nada” que sei que não será ouvido e que tenta
inocentemente salvar a minha querida mãe desse flagelo a que ela se auto
condenou. Já não sabe viver de outra maneira, apesar de muito se queixar da
quantidade imensa de trabalho que tem e da sua azáfama diária … Usa a horta, a
gata e uma criação de galinhas jurássicas assustadoras como catarse. Não sei se
tenta enganar o destino a que se auto propôs, ou no qual foi caçada.
Este “não faças nada”, na minha
esperança salvador dos encantos do trabalho, não sei bem como o tomar. Somos
educados desde sempre a trabalhar e somos elogiados quando fazemos um bom
trabalho e quando nos dedicamos só a isso e cansamos a vida nessas andanças;
morremos com um título digno porque eramos trabalhadores e cumprimos a nossa
parte ao fazer muito. Mas isto tudo não é um tanto contraditório? Como o ser
humano se sente realizado só por ver obra feita? E se nada fizer se sente num
tédio e estagnação, numa inércia e abulia, num estado de morte cerebral, de
produtividade zero, um estado vegetativo? Como tem isto uma conotação negativa?
Quer dizer, então uma pessoa anda frustrada ao não dedicar tempo a si, ao seu
pensamento, e antes prefere pôr-se num rotineiro formigueiro, operária da roda-viva
a que nada leva. Ou leva? Isso é uma questão que sempre me interpelou e intrigou…
Para quê sempre trabalhar e avançar se tudo acaba, se tudo morre? Do que serviu
esse esforço se tudo é efémero? Não sei se será uma visão demasiado romântica e
radical, ou um tanto egoísta, visto que por aí mais vale dedicarmo-nos só a
nós, ou à boémia já que nada vale a pena, ou ao nos dedicarmos a nada e apenas
talvez, atingir uma espiritualidade que assim justifique a nossa existência.
Penso que o não fazer nada nos oferece uma desintoxicação da alma, mente, corpo
e espírito. Penso que se for para deixar coisas feitas, que estas sejam então em
prol do bem-estar, já que de nada vale a pena sermos escravos sem finalidade.
Cultivar a mente deveria ter mais importância que ter um emprego.
Serei só uma indignada que procrastina
a vida e preguiça a vida, ou uma estoicista/epicurista romântica que acha que
as coisas podem mesmo cair do céu. Não sei no que nos tornamos, não procuro
saber, procuro esquecer e ignorar para escapar à contaminação. Estou-me a
fartar de tanta pergunta e de palavras bonitas mal empregues, talvez tudo deva
existir em medida q.b…. eu sei lá!
Já nem sei se este comentário se contradiz
pelo próprio processo de fazer o comentário, teve que se fazer, distanciou-se dessa
atmosfera desabitada de produção