segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Consciência: inibidora e um obstáculo à acção?

    Marx dizia, “não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência”. A nossa consciência é fruto do mundo em que vivemos, do contexto social que conhecemos, e como seres humanos e com consciência individual, somos confrontados com a realidade e com a necessidade de fazer escolhas e tomar decisões. Desta forma, pode a consciência ser inibidora e um obstáculo à acção?

    A consciência surge em nós como capacidade de nos apercebermos do que fazemos. Sem ela, somos como qualquer outro animal que age unicamente por necessidade ou por instinto, reagindo assim de forma automática. Torna-se assim uma componente da acção. Ao sermos dotados desta, antes de agir, pensamos e esse pensamento pode surgir como obstáculo.
    A hesitação é o resultado da consciência: queremos agir, mas por vezes a nossa acção é travada pelo pensamento. Surge como fruto dos nossos medos, ou como uma análise da eficiência ou utilidade da nossa acção. Em certas situações a consciência leva-nos à reflexão sobre a decisão, e ao levar tempo a ser tomada ou ainda ao ser contrária à vontade inicial, pode impedir a realização do nosso desejo. Já Hamlet, no terceiro acto da peça de Shakespeare, dizia “Thus conscience does make cowards of us all” (A consciência faz de todos nós covardes). 

    Em todo o caso, a escolha é sempre acção, e provém sempre da nossa consciência. A escolha tomada, independentemente desta ser a que inicialmente queria, é resultado do julgamento que o sujeito fez, julgamento esse que pode ou não ser posto em questão pela sociedade que o envolve. Não existe acção reflectida automática, e toda acção surge como fruto da consciência e da vida e mundo em que estamos. 
    A consciência é o que nos permite saber o que estamos a fazer, nasce com o sujeito, e não é à partida a verdadeira inibidora da acção. O mundo em que nos encontramos, o nosso contexto social, as nossas relações com o próximo é que tornam essa consciência inibidora. Mas apesar da escolha do sujeito ser posta em questão, a acção “para bem ou para mal” acaba por ser realizada. O sujeito não é impedido de realizar a acção porque acaba por realizá-la, de uma maneira ou de outra. Sendo assim, a consciência é de certa forma inibidora, mas não é propriamente um obstáculo à acção do sujeito.