domingo, 29 de dezembro de 2013

Matemática e Literatura



A matemática é a base das ciências e a ela são associadas disciplinas como a engenharia, a física, a estatística ou até ciências naturais como a biologia e a geologia. Tal como foi referido por Descartes a matemática é a base do universo. É impossível escapar à matemática no mundo moderno em que vivemos, até as ciências sociais como a sociologia baseiam o seu estudo dos padrões sociais em modelos matemáticos. Existem contudo áreas em que a matemática parece estar completamente arredada, talvez por preconceito. Uma dessas áreas é a literatura. Embora alguns dos escritores mais famosos da literatura tenham tido formação em matemática ou tenham até sido matemáticos famosos, a influência da matemática na criação literária é um tema raramente tratado no seio da comunidade de letras. E nos raros casos em que esta ligação é referida, utilizam-se muitas vezes exemplos prosaicos sem qualquer valor para a verdadeira investigação deste tema. A ideia perpetuada ao longo dos anos da literatura como uma actividade romântica em oposição à análise concreta e metódica da matemática teve uma influência da separação destas duas áreas. A verdade é que métodos de análise literária como o estruturalismo foram alargados ao estudo matemático, ao longo da história verificou-se também o movimento oposto, alguns métodos matemáticos foram utilizados na análise literária. Contudo se regressarmos às bases de ambas as disciplinas, ambas procuraram desde o princípio interpretar o mundo em que vivemos. Keith Devlin questionou na sua obra se haverá semelhança entre fazer matemática e escrever um romance, a sua resposta foi afirmativa, afinal em ambos os casos existe um processo mental que envolve a imaginação. Estas duas disciplinas embora aparentemente desconexas funcionam na maior parte dos casos em comunhão. A arte e literatura são conhecidas por colocarem as questões que a ciência e a matemática acabam por provar. Por outro lado o raciocínio e a lógica que são as bases da matemática, são também a base da produção literária. Este uso da matemática não é necessariamente decoração ou ridicularização de um problema matemático, é por vezes essencial para realçar o ponto que o autor quer, para atingir os objectivos da obra. A literatura pode usar diversas matérias e de diversas formas a matemática. Estas matérias são geralmente relacionadas com o mundo em que vivemos, como a geometria estatística e probabilidade. No artigo de Sally Lipsey e Bernard Pasternack são referidos autores que usaram matemática nas suas obras e com que intenções a usaram. Um dos exemplos referidos no artigo, é um poema de JoAnne Growney,”December and June”, onde não apenas no conteúdo mas também na estrutura do poema podemos encontrar matemática, neste caso em factorização primária (1,2,3,2x2): 

cold
winds howl
geese go south
nights long tea steeps
(…) 

Tal como referido anteriormente existem alguns trabalhos sobre este tema e embora muitos desses trabalhos sejam desinteressantes e até muitas vezes incorrectos, existem contudo obras fundamentais para o seu estudo. São exemplos disso, as obras A morte e o compasso de Jorge luís Borges e Gravity’s rainbow deThomas Pynchon ambas referidas no artigo de D.O.Koehler pelo seu uso da simetria e probabilidade, respectivamente, e também o famoso “Alice no País das Maravilhas” de Charles Lutwidge Dodgson.



DEVLIN Keith apud SAIBER, Arielle e S.TURNER, Henry, “Mathematics and the Imagination A Brief Introduction”, Vol. 17, nº1, Inverno 2009, p.2

D.O.Koehler (1982),”Mathematics and Literature”, Mathematics Magazine,Vol.55, nº2, Marco, p.81

I.LIPSEY, Sally e S.PASTERNACK, Bernard, “Mathematics in Literature”, ,p.1

D.O.Koehler,op.cit, p.83 et seq.