A
matemática é a base das ciências e a ela são associadas disciplinas como a
engenharia, a física, a estatística ou até ciências naturais como a biologia e
a geologia. Tal como foi referido por Descartes a matemática é a base do
universo. É impossível escapar à matemática no mundo moderno em que vivemos,
até as ciências sociais como a sociologia baseiam o seu estudo dos padrões
sociais em modelos matemáticos. Existem contudo áreas em que a matemática
parece estar completamente arredada, talvez por preconceito. Uma dessas áreas é
a literatura. Embora alguns dos escritores mais famosos da literatura tenham
tido formação em matemática ou tenham até sido matemáticos famosos, a
influência da matemática na criação literária é um tema raramente tratado no
seio da comunidade de letras. E nos raros casos em que esta ligação é referida,
utilizam-se muitas vezes exemplos prosaicos sem qualquer valor para a
verdadeira investigação deste tema. A ideia perpetuada ao longo dos anos da
literatura como uma actividade romântica em oposição à análise concreta e
metódica da matemática teve uma influência da separação destas duas áreas. A
verdade é que métodos de análise literária como o estruturalismo foram
alargados ao estudo matemático, ao longo da história verificou-se também o
movimento oposto, alguns métodos matemáticos foram utilizados na análise
literária. Contudo se regressarmos às bases de ambas as disciplinas, ambas
procuraram desde o princípio interpretar o mundo em que vivemos. Keith Devlin questionou na
sua obra se haverá semelhança entre fazer matemática e escrever um romance, a
sua resposta foi afirmativa, afinal em ambos os casos existe um processo mental
que envolve a imaginação. Estas duas disciplinas embora aparentemente
desconexas funcionam na maior parte dos casos em comunhão. A arte e literatura
são conhecidas por colocarem as questões que a ciência e a matemática acabam
por provar. Por outro lado o raciocínio e a lógica que são as bases da
matemática, são também a base da produção literária. Este uso da matemática não
é necessariamente decoração ou ridicularização de um problema matemático, é por
vezes essencial para realçar o ponto que o autor quer, para atingir os
objectivos da obra. A literatura pode usar diversas matérias e de diversas
formas a matemática. Estas matérias são geralmente relacionadas com o mundo em
que vivemos, como a geometria estatística e probabilidade. No artigo de Sally
Lipsey e Bernard Pasternack são referidos autores que usaram matemática nas
suas obras e com que intenções a usaram. Um dos exemplos referidos no artigo, é
um poema de JoAnne Growney,”December and June”, onde não apenas no conteúdo mas
também na estrutura do poema podemos encontrar matemática, neste caso em
factorização primária (1,2,3,2x2):
cold
winds howl
geese go south
nights long tea steeps
(…)
Tal como referido anteriormente
existem alguns trabalhos sobre este tema e embora muitos desses trabalhos sejam
desinteressantes e até muitas vezes incorrectos, existem contudo obras
fundamentais para o seu estudo. São exemplos disso, as obras A morte e o
compasso de Jorge luís Borges e Gravity’s rainbow deThomas Pynchon
ambas referidas no artigo de D.O.Koehler pelo seu uso da simetria e
probabilidade, respectivamente, e também o famoso “Alice no País das
Maravilhas” de Charles Lutwidge Dodgson.
DEVLIN Keith apud SAIBER, Arielle e S.TURNER, Henry,
“Mathematics and the Imagination A Brief Introduction”, Vol. 17, nº1, Inverno
2009, p.2
D.O.Koehler (1982),”Mathematics and Literature”, Mathematics
Magazine,Vol.55, nº2, Marco, p.81
I.LIPSEY, Sally e S.PASTERNACK, Bernard, “Mathematics in Literature”,
,p.1
D.O.Koehler,op.cit, p.83 et seq.