segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

"Se desejam esboçar uma amizade, um namoro, devem evitar cuidadosamente parecer tomar a iniciativa; os homens não gostam de mulher-homem, nem de mulher culta, nem de mulher que sabe o que quer: ousadia demais, cultura, inteligência, caráter, assustam-nos. -   Simone de Beauvoir


            Muito me parece que desde o curto espaço de tempo que Simone de Beauvoir imortalizou O segundo sexo, pouca coisa mudou. O texto que é atual por um período indefinido de tempo. Obviamente que há exceções à regra. Gostaria de falar dum caso em particular e pessoal — o da minha mãe.
            Pelo que sei, das histórias que me contam em cada reunião de família, é que a minha mãe viveu em Paris muitos anos durante o regime Salazarista. Voltou para Portugal para um colégio religioso no Porto para fazer a 1º classe e passar consequentemente mais doze anos da sua vida lá fechada. Até aqui tudo normal, até que a minha tia, que estava presente, decide evocar um acontecimento curioso. "Lembras-te quando a Madre Superior te quis expulsar daquela vez em que defendeste o aborto?" Aí eu virei a cara, perplexa com esta pequena analepse vinda da boca da minha tia. A minha mãe riu-se e eu em poucos segundos pensei e realmente apercebi-me que era um ato completamente normal vindo dela. Pelo que me lembro hoje em dia, ela protestou para que se construíssem hospitais pediátricos antes de eu mesma ser planeada. Existem, mas infelizmente já sou maior de idade e significa que demoraram mais de vinte anos a ser construídos. Mas para mim não me importa. Ela estava lá a protestar para que um dia eu ou os meus filhos tivéssemos boas estruturas de saúde.
            Voltando um pouco mais atrás nesta história, queria especificar o caso que foge à regra, invocando um outro herói que tenho presente na minha vida — o meu pai. Conheceram-se em Coimbra. E a minha mãe já tinha este espírito de protesto. Apaixonaram-se numa república de estudantes quando o português do meu pai era provavelmente erudito. O que os uniu, vejo eu, foi a cultura, a inteligência e o carácter.  Tudo aquilo que provavelmente é diagnosticado como uma fobia, já que o mundo está cheio de hipocondríacos de doenças imaginárias. Fobia a uma pessoa culta não existe, não se tem medo de uma pessoa culta. O homem tem medo que a sua chama de macho seja apagada.

            Hoje em dia, apesar de não haver um equilíbrio entre sexos, verifica-se que muitos homens têm medo e nojo de mulheres com poder. E utilizo "poder" na mulher que pensa por si própria e que escolhe livremente que emprego, que roupas e que posição quer assumir.