“ Observamos que maquinaria dotada do maravilhoso poder de
encurtar e de fazer frutificar o trabalho humano o leva à fome e a um excesso
de trabalho. As novas fontes de riqueza transformam-se, por estranho e
misterioso encantamento, em fontes de carência. Os triunfos da arte parecem ser
comprados à custa da perda do carácter. Ao mesmo ritmo que a humanidade domina
a natureza, o homem parece tornar-se escravo de outros homens ou da sua própria
infâmia. Mesmo a luz pura da ciência parece incapaz de brilhar a não ser sobre
o fundo escuro da ignorância. Todo o nosso engenho e progresso parecem resultar
na dotação das forças materiais com vida intelectual e na redução embrutecedora
da vida humana a uma força material. Este antagonismo entre a indústria e a
ciência modernas, por um lado, e a miséria e a dissolução modernas, por outro;
este antagonismo entre os poderes de produção e as relações sociais da nossa
época é um facto palpável, esmagador, e que não é para ser controvertido.”
Este excerto reflecte um dos grandes paradoxos que estão
eminentes na sociedade moderna, apesar de escrito em 9 de Abril de 1856 (Publicado no The People's Paper nº207), o
paralelismo é evidente. Obliterando séculos de uma cultura por vezes errática
mas obviamente necessária que contribuiu com milhares de descobertas
fundamentais para a coexistência humana. A sociedade está entregue a noções
como a de arte contemporânea onde qualquer deformação, manipulação ou
simplesmente existência de um objecto ou ideal, assim que colocado num espaço
museológico/galerístico é-lhe atribuído imediatamente o título de obra de arte.
Estamos a assistir a um fenómeno absolutamente incrível na
própria existência artística, onde nos é praticamente impossível prever
qualquer tipo de movimento vanguardista, devido á vasta abrangência do conceito
de arte contemporânea, onde objectos de produção industrializada (com o devido
valor artístico atribuído obviamente) convivem com pinturas utilizando técnicas
académicas clássicas e suportes como a tela de linho e algodão, que se mantem inalterados
à centenas de anos.
É num contexto não apenas filantrópico que a compra de obras
de arte é dos investimentos económicos de maior fiabilidade, a prova disso é o
crescente interesse por parte de empresas, grupos bancários e seguradoras, que
cada vez mais, procuram assegurar valores monetários exorbitantes adquirindo
com os mesmos propriedade intelectual.
Intrinsecamente o valor real e sintético de uma obra de arte não
passaria das dezenas de euros. Concluímos então que a sociedade talvez não esteja
tão alienada quanto realmente pensamos, é de certa forma reconfortante pensar
que o ser humano começa a preferir salvaguardar ideias a investir em material puramente
geológico como o a prata ou ouro.
