segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Noções de Valor

“ Observamos que maquinaria dotada do maravilhoso poder de encurtar e de fazer frutificar o trabalho humano o leva à fome e a um excesso de trabalho. As novas fontes de riqueza transformam-se, por estranho e misterioso encantamento, em fontes de carência. Os triunfos da arte parecem ser comprados à custa da perda do carácter. Ao mesmo ritmo que a humanidade domina a natureza, o homem parece tornar-se escravo de outros homens ou da sua própria infâmia. Mesmo a luz pura da ciência parece incapaz de brilhar a não ser sobre o fundo escuro da ignorância. Todo o nosso engenho e progresso parecem resultar na dotação das forças materiais com vida intelectual e na redução embrutecedora da vida humana a uma força material. Este antagonismo entre a indústria e a ciência modernas, por um lado, e a miséria e a dissolução modernas, por outro; este antagonismo entre os poderes de produção e as relações sociais da nossa época é um facto palpável, esmagador, e que não é para ser controvertido.”

Este excerto reflecte um dos grandes paradoxos que estão eminentes na sociedade moderna, apesar de escrito em 9 de Abril de 1856 (Publicado no The People's Paper nº207), o paralelismo é evidente. Obliterando séculos de uma cultura por vezes errática mas obviamente necessária que contribuiu com milhares de descobertas fundamentais para a coexistência humana. A sociedade está entregue a noções como a de arte contemporânea onde qualquer deformação, manipulação ou simplesmente existência de um objecto ou ideal, assim que colocado num espaço museológico/galerístico é-lhe atribuído imediatamente o título de obra de arte.
Estamos a assistir a um fenómeno absolutamente incrível na própria existência artística, onde nos é praticamente impossível prever qualquer tipo de movimento vanguardista, devido á vasta abrangência do conceito de arte contemporânea, onde objectos de produção industrializada (com o devido valor artístico atribuído obviamente) convivem com pinturas utilizando técnicas académicas clássicas e suportes como a tela de linho e algodão, que se mantem inalterados à centenas de anos.

É num contexto não apenas filantrópico que a compra de obras de arte é dos investimentos económicos de maior fiabilidade, a prova disso é o crescente interesse por parte de empresas, grupos bancários e seguradoras, que cada vez mais, procuram assegurar valores monetários exorbitantes adquirindo com os mesmos propriedade intelectual.
Intrinsecamente o valor real e sintético de uma obra de arte não passaria das dezenas de euros. Concluímos então que a sociedade talvez não esteja tão alienada quanto realmente pensamos, é de certa forma reconfortante pensar que o ser humano começa a preferir salvaguardar ideias a investir em material puramente geológico como o a prata ou ouro.



Mark Rothko, Rothko Chapel (1971). Houston, Texas.