segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

有许多环境友 [i.e., amigos do ambiente há muitos]

Este fim-de-semana foi necessário um saco forte, que aguentasse transportar um certo volume de coisas pesadas, e encontrou-se um, 
daqueles "amigos do ambiente", habitualmente à venda nas cadeias [substantivação apropriadíssima] de supermercados, com o nome da marca impresso e bem visível (caso estranho em que, sob um certo ponto de vista, se paga para usar publicidade), mas também pontualmente oferecidos, por exemplo, com os jornais semanários. Há uns meses vinha um de oferta com o Expresso, em parceria ecológica com a ex-electricidade de portugal:


A criação deste saco surge integrada num plano de um ano inteiro dedicado pelo jornal ao tema do ambiente, cada uma das 52 edições com reportagens diferentes e dossiers aprofundados, publicados em várias partes ao longo de várias semanas, muitos dos quais patrocinados por empresas portuguesas que procuram mostrar elevadas preocupações ambientais. 
A ilustração usada vale milhares de palavras, ou pelo menos algumas reflexões soltas na senda do espírito apocalíptico deste blog: 

  • No seu design infantil e nada inocente, nas "boas práticas de gestão ambiental" ou no papel de Noé salvador de espécies em perigo, com (b)arca atracada no Lago Alqueva, a edp acaba por revelar, sim, a violenta ambição do seu programa empresarial, e a vermelho bem vivo, para avisar do perigo. Que natureza é esta que a edp vê? Um par de árvores e arbustos, três girassóis, duas espigas --- tudo o resto campos e montes desertos. De animais, quase apenas os de "criação": galinha, pintos, coelho. Animais "naturais": uma caracoleta, a coruja que já não tem sítio onde se esconder; ao longe, a reintroduzida águia da edp, com direito a texto de apresentação mais abaixo no saco. 
  • A bicicleta do cliente e leitor do expresso deverá ser eléctrica, para o ajudar a percorrer estas longas paisagens abandonadas pela natureza mas não pela edp; 
  • o próprio balão será um dia eléctrico, pois a edp domina também o vento, e pontilha com as suas hélices gigantes os horizontes das auto-estradas, e são eles os objectos em maior número na ilustração, talvez a par dos girassóis  porque a edp também tem um pé na energia solar, e dos pintos, embora um dos três tenha ficado para trás, na contemplação desolada das duas últimas espigas de cereal do mundo, desfazendo o trio como que para explicar a falta de interesse da edp na criação avícola doméstica, estando por ora mais concentrada nos altos vôos da singular águia pesqueira.
  • Ao cliente-edp-leitor-do-expresso sugere-se que explore a natureza ao alcance da bateria da sua bicicleta eléctrica. Em Portugal já é pouca e muito escondida. Follow the white rabbit deixou de ser uma opção, o coelho cansou-se de esperar, resignou-se, engordou, já não cabe na toca. Está parado. Já não te irá conduzir a lado nenhum, agora tens a edp e o expresso e tens que defender o planeta.



  • Esta recente imagem corporativa da edp, criada por alturas da privatização (vide manual da marca), tentou suavizar a imagem da empresa num momento em que se acumulavam críticas por destruir património ambiental através da criação contínua de barragens hidroeléctricas. Algumas décadas antes, a imagem da empresa foi a de um relâmpago de energia domado pela força da edp, mas agora não interessaria ter sinais de perigo tão evidentes, a própria caligrafia do logotipo é infantil, ali já não cabe o trovão [a luz expulsou o papão, a edp é o sol que alumia o mundo que perdeu a sua cor].  
  • O grosso desta imagética está reproduzido em três dimensões cinéticas nas grandes montras da sede da empresa em Lisboa, na esquina da Praça Marquês de Pombal com a Avenida Fontes Pereira de Melo, e também em duas dimensões estáticas nos tapumes das obras da colossal futura sede, entre a Avenida 24 de Julho e a Rua D. Luís I, por enquanto tão-só um poço infernal a céu aberto, ali mesmo em frente à Adega do Lagarto, coio de cultura alfacinha.
  • Entretanto, continuam a ser construídas duas das barragens mais contestadas por biólogos e associações ambientalistas, a da Foz do Tua e a do Baixo Sabor. Ironicamente, uma boa fatia da população local parece aprovar a obra. É difícil esquecer aquela troca de palavras entre António Mexia, face da edp antes e após a privatização, e José Sócrates, o primeiro-ministro, em passeio mediático pelo início das obras de uma dessas barragens, no documentário Pare, Escute e Olhe (interessante banda-sonora de Frankie Chavez), sobre as consequências das ditas barragens e o fim das ferrovias na região. Diz o primeiro-ministro (cerca dos 39 minutos e 43 segundos), fazendo tabula rasa de todos os estudos do impacte ambiental: "Agora só falta aqui é cimento…"