quinta-feira, 28 de novembro de 2013

NEVER LET ME GO

28 Anos de vida. O que se faz em 28 anos?
100 Anos de vida. O que se faz com 100 anos?

1952, uma outra dimensão em que a medicina passa a curar o incurável.
1967, expectativa de vida ultrapassa os 100 anos.

Hailsham, um colégio interno onde ninguém tem pais. Onde as crianças não podem sonhar em ser astronautas ou bailarinas. Crianças que não vão passar de crianças. Nunca chegaram à meia-idade. Um sítio em que tens de preservar a tua saúde. A partir dos 18 anos, sem qualquer experiência de vida, passam a habitar em casas com outros dadores. Quando lhes for pedido, irão doar os órgãos obrigatoriamente sem questionarem nada nem ninguém.
São clones modelados através de prostitutas, criminosos, psicopatas. Aquelas pessoas que são julgadas através de um certo juízo, errado ou não. Não é sobre esse tema que me vou debater.
Mas sim da clonagem.

«O trabalhador põe a sua vida no objecto; porém agora ela já não lhe pertence, mas ao objecto.»

Neste estranho processo de clonagem a vida do trabalhador passa para o objecto, para o novo corpo. O que quero com isto dizer? O “original” passa a ser a cópia quando a cópia passa a ser o “original”. A alma agora impressa no novo corpo tem uma nova vida.
Quando um clone morre, após a 3ª doação, o “original” vai com ele. Está nele impresso a sua vida.
A meu ver este processo de clonagem, passa a ser uma reinvenção de um ser. Ou seja, cada alma é diferente. E neste caso existem dois corpos parecidos mas com almas diferentes. E o que perdura é a alma do clone.
Trabalho baseado num filme “Never Let Me Go”.

Internet e comodismo

É impossível não reconhecer que cada vez mais o ser humano se considera vítima das suas próprias criações, das novas tecnologias, sendo uma delas a Internet.
Mas qualquer pessoa com o mínimo de bom senso tem a noção de que isso está redondamente errado e que somos apenas vitimas dos nossos defeitos, da nossa preguiça e do nosso comodismo. Isto no sentido em que dizemos que a Internet ocupa imenso do nosso tempo com coisas que não fazem qualquer falta ao nosso enriquecimento pessoal e à nossa felicidade. Culpamos os media por encherem os nossos televisores de assuntos banais e técnicas de marqueting e''fetishismo'' que nos levam cada vez mais a consumismos desnecessários. Ao utilizarmos a Internet na busca de informação isso não devia de acontecer, pois nela temos a oportunidade de ter num espaço de segundos (ou à distancia de um ''clique'') acesso a toda a  informação que procuremos. Infelizmente para mentes pobres, nela também somos constantemente abordados por milhares de informação que nos distrai daquela que realmente procuramos, desde publicidade a predadores sexuais, ou a alienar mo nos e perder horas e horas de vida na coscuvilhice da vida de pessoas que se for preciso nem gostamos nas redes sociais.
Esquecemos quase por completo as possibilidades maravilhosas que o mundo virtual tem para nos dar, a Internet nos dias de hoje é o mais próximo que temos da própria telepatia, esquecemos a velocidade que temos de partilhar informação de um lado ao outro do mundo em fracções de segundo! Dois excelentes exemplos disso são o caso de Maddie, uma menina que em segundos ficou conhecida pelo mundo inteiro e  em que todos nos unimos na busca desta criança desaparecida; o outro exemplo é conhecido como a campanha Stop Kony em que a cara de um criminoso procurado foi divulgada e ficou tão famosa como a de qualquer celebridade, na intenção de este ser capturado. 
É triste que algo que fora criado para nos poupar tempo em horas e horas de pesquisas e dúvidas seja principalmente utilizado para perder tempo com coisas que a partida nem nos interessam e mais triste que isso é as pessoas acharem se no direito de dizer que são vitimas da Internet por isso mesmo. 
Poupem me são vitimas de vocês próprios!

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Quem sou eu?

Uma pergunta que parece ser simples por se referir a nós mesmos, aparentemente teriamos que saber responder,

Então vamos tentar decifrar o conceito de identidade.
Podemos começar por observar que a identidade não é muito mais do que a descrição de um personagem de uma história, um personagem com uma vida criada por um autor e encaixado num enredo. Mas seremos nós um personagem na vida real? Não seremos antes o autor dessa história? Na realidade somos todos autores e personagens desta história a que chamamos de vida, nós mesmos damos o rumo ao nosso “personagem”, e ao mesmo tempo vamos vivendo os acontecimentos. Mas isto chega para sabermos quem somos? É verdade que somos nós quem comandamos o nosso “personagem”, mas quem somos nós propriamente? Sabemos que não somos apenas o que queremos ser, não rumamos o nosso ser totalmente, algo nos fez ser como somos, vamos ver um pequeno exemplo da semente, a semente contém dentro de si o começo de uma planta, essa planta virá a desenvolver-se e dos seus frutos virão novas sementes. Ser semente não é só ser a pequena “casca”, nem sequer ser a “casca” com a pequena planta lá dentro, é ser isso, a planta e os frutos que vai originar, ela é múltiplas coisas num só, uma unidade múltipla, a sua existência não se baseia numa pequena coisa,  pois dentro dela já existe mais do que isso,  se ela fosse só a pequena “caspa” ela não seria uma semente. Tal como a semente, a nossa identidade implica um desenvolvimento, é progressiva e continua, ao contrário da semente não estamos destinados a vir a ser algo, não nascemos para sermos políticos ou criminosos, podemos vir a sê-lo mas não estaria relacionado com algo pré determinado mas sim com o desenvolvimento da nossa identidade, pois a nossa identidade está permanentemente em mudança. O que somos hoje está relacionado com o que ontem aconteceu, durante a nossa vida vamos adquirindo coisas que nos vão transformando, não é necessáriamente negativo, não é como um assalto que nos fez desacreditar nas pessoas, pode ser só o ir a um café, ou virar uma esquina, tudo que vamos adquirindo faz parte da nossa identidade, resumindo nós somos o que somos neste momento, o que adquirimos de experiências passadas e o que está em aberto no futuro.

“Identidade é movimento, é desenvolvimento do concreto, Identidade é metamorfose.
É sermos o Um e o Outro, para que cheguemos a ser Um, numa infindável transformação.”
(Ciampa, Identidade)

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Educação para a Cidadania



Dois excertos de Educación para la Ciudadanía: Democracia, capitalismo y estado de derecho, de Carlos Fernández Liria, Pedro Fernández Liria e Luis Alegre Zahoner, com desenhos de Miguel Brieva [edição Akal]. Pode ser lido e/ou visto no Google Books, basta procurar pelo título. Vale a pena espreitar, nem que só para ver a capa.

"Geração lúcida?"


Nos dias actuais, pesquisar algo no Google, mandar SMS pelo telemóvel, actualizar o Twiter e adicionar fotos no Facebook são actividades normais que as crianças e adolescentes executam com bastante facilidade e por vezes ao mesmo tempo.


Até então, nada de novo ou de surpreendente, afinal somos a "Geração digital". No entanto, o impacto desta avalanche de conectividade se reflecte não apenas em aumento de riscos para a segurança, como também pode afectar o desenvolvimento social e psicológico das pessoas.




Além das ameaças para os jovens que são nossas velhas conhecidas, como a pedofilia e obesidade, surgem cada vez mais como o ciberbullying, o "sexting", o "grooming", entre outras.

O uso excessivo da tecnologia pode causar stress e provocar dificuldade de concentração e ansiedade. Segundo neurologistas existem pesquisas que já associam overdose de tecnologia com problemas neurológicos e psiquiátricos. Sem contar com o aumento dos casos de doenças relacionadas com o isolamento, a depressão por exemplo é a que mais cresce.


Especialistas alertam para os impactos causados pela era digital, com efeitos de ordem física e social. É comum ver casais, pessoas que estão juntas a utilizarem os telemóveis, smarthphones deixando de interagir com a pessoa mas próxima.





A possibilidade actual de internet móvel torna as pessoas ainda mais dependentes, chega ao ponto, de acordo com estatísticas, de cerca de 20% da população mundial, usuários de smarthphones não conseguirem exercer um uso equilibrado da internet.

Não existe também só o lado negativo, a tecnologia abriu portas, expandiu horizontes intelectuais e proporcionou oportunidades antes impossíveis. A internet quando utilizada correctamente, educa pessoas em locais isolados, promove a comunicação ao redor do mundo, cria novos mercados e aumenta a conscientização das pessoas sobre as questões globais, forçando-os a considerar problemas maiores do que os seus próprios. (Cajetan Luna, director do Center for Health Justice de Los Angeles.).

Todo este processo se deve para além da evolução tecnológica, ao próprio desenvolvimento da Cultura Visual e da forma como a Indústria Cultural molda o ser humano para seguir os padrões que lhes é mais interessante. Surgem nesta discussão diversos temas já abordados, como alienação, fetichismo da mercadoria e ideologia.

Portanto não devemos entrar em pânico, nem julgar se agora é pior ou melhor do que antes. Apenas ter a consciência que é diferente e que precisamos entender esta mudança e pesar os prós e os contras sem nos deixar levar ou influenciar por tanta informação e continuar a dar valor as pequenas coisas da vida, que são de longe objectos ou coisas materiais.




Mala Posta



Com a invenção do correio estatal, a chamada mala postal era um local em que o correio era passado das mãos de um cavaleiro para outro cavaleiro iniciando-se assim um sistema postal.
Desde o início dos ctt que o seu logotipo é um carteiro ou cavaleiro montado num cavalo, uma forma de distribuir carta como em outros tempos.
A privatização de algo tão essencial que sempre foi do estado põe em causa o funcionamento das entidades do estado. Gerou controvérsia, como seria de se esperar, pois como será admissível privatizar algo que todos nós pagamos para crescer e se tornar maior e melhor?
A carta em papel sendo considerada um meio de comunicação obsoleto, foi substituída por meios digitais, como o email e SMS. Mas considerando que Portugal tem uma população tão envelhecida será que a web é a melhor forma de comunicação para todas as pessoas? Nem todos conseguem usar um computador para fazer o pagamento de uma conta, nesse caso a facilidade de se pegar essa mesma conta (recebida pelo correio) e ir até uma payshop ou uma agência bancária é mais simples para muitos, apesar de mais trabalhoso. Também não podemos nos esquecer das encomendas e pacotes, que ainda precisam ser entregues pelo correio ou transportadora.
Esta privatização trata-se de uma pré-extinção do suporte em papel para comunicação pessoal, que muitos ainda precisam já que não tem formação para usar a web (restringidos pela idade ou outros fatores).
Numa carta escrita também é algo mais pessoal e íntimo, podemos sentir, cheirar e ler o que foi escrito, normalmente à mão, isso é algo que estimula os sentidos e até pode ser uma demonstração de afeto quando recebemos um postal de um ente querido.
Agora resta saber, deverá ser extinta uma tradição ou devemos criar uma nova?

Alienação e feitichismo da mercadoria


            Todo o processo da produção tem um objectivo: a concretização da natureza humana. A Alienação está presente numa relação que bloqueia e gera o constrangimento dessa realização, e instaura-se, dividindo socialmente o trabalho, distinguindo os que dirigem todo o processo envolvente bem como aqueles que o executam.
A capacidade do trabalhador passa a ser arranjar um meio para atingir certos fins. Fica limitado a certas necessidades básicas vivendo com uma ideia que é implantada na sua cabeça, sobre o que será o "normal". Na realidade, este trabalhador, ou esta massa gigantesca de trabalhadores, está condenada a uma atividade que não é livre.
            O trabalho torna-se "estranho" e existem sintomas de que este não é livre, mas sim hostil, alienado. Consequentemente, o produto confronta-se com quem o criou, o trabalhador. Deste modo, ao se apoderar do produto do trabalhador, um outro elemento vai criar as condições necessárias para haver uma efetivação da vida e da propriedade privada.
            A única solução que Marx apresenta para o fenómeno da alienação, é a emancipação do trabalhador perante este processo. Quando isso suceder, toda a humanidade estará livre dela.
Tome-se agora um outro aspecto dentro da alienação – o feiticismo da mercadoria. Isto é, ao ganhar vontade própria, o produto torna-se independente do seu produtor . Por conseguinte, a troca faz-se entre as coisas e não entre as pessoas, pois as coisas são na realidade seres humanos embora estes se deixem passar por meras "coisas". A mercadoria é então produzida pelo seu produtor em torno de necessidades alheias, e por essa razão, tudo se concentra no mercado. Determina, desta forma, a vontade do produtor. No envolver de todo este procedimento, existe uma sobrestimação do processo de troca sobre o processo de produção. 

"O dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do homem; a essência domina-o e ele adora-a." - Karl Marx

Tudo Esta Interligado

Para fugir um pouco há realidade, ou ao que se diz ser realidade nos dias de hoje, muitas vezes damos por nós a pensar em varias questões de metafísica. Existe Deus? Existe destino? Será que temos um espírito ou uma alma? Será que temos várias vidas? A maioria das pessoas tende a acreditar em algo que está para lá dos nossos sentidos, mas o que é certo, é que enquanto estamos vivos, dificilmente iremos ter uma resposta concreta a este tipo de questões, portanto, a única forma de podermos acreditar em algo que ainda não vimos ou sentimos é ter fé. Para dar um pouco de interesse, e quem sabe, esperança a estes crentes temos um filme que retrata algumas destas questões. ''Cloud Atlas''. Filme dos irmãos Wachowski, famosos pela triologia 'The Matrix'.


Cloud Atlas conta-nos seis historias diferentes, em tempos diferentes, e também diferentes contextos históricos políticos e sociais. Contudo são historias com um padrão comum, que no fundo formam um estudo de como as acções individuais impactam umas ás outras no passado, presente e futuro como uma alma é transformada de um assassino para um herói, e como um ato de bondade ecoa através de séculos para inspirar uma revolução. 
As historias do filme tem de certa forma um carácter épico tendo como protagonistas o típico herói, o velho sábio, o oráculo, o salvador, a deusa, etc...
É um filme que nos faz pensar principalmente nas questões da reencarnação e do karma sendo que nas seis historias são utilizados os mesmos actores para várias personagens que supostamente são a reencarnação umas das outras e que na linha de vida de cada uma delas acabam por ter as consequências, boas ou más, dos seus próprios actos. 

Para finalizar, temos esta mensagem do filme, de que tudo esta interligado. Independentemente de que no filme a ideia tenha sido retratada de uma forma fantasiosa não deixa de ter um pouco de verdade, porque de facto tudo o que somos hoje, o somos devido ao que já aconteceu , o somos devido a uma sucessão de acontecimentos desde sempre, e se por algum motivo, um pormenor dessa sucessão de acontecimentos tivesse que ser mudado, nos poderíamos já não estar aqui, o mundo poderia já estar destruído, ou poderia estar muito melhor do que aquilo que está hoje... quem sabe?  e quem sabe se se realmente esta questão do karma não é mesmo verdade?? quem sabe se os problemas que nos temos hoje não foram derivados de coisas más que já tenhamos feito nesta ou noutras vidas?? será que existiram mesmo outras vidas?? 

Fotografia: o seu uso e significado

"... é certo que o ato fotográfico tem como componente necessário a impressão de uma imagem sobre uma superficie sensível. A imagem, que logo se poderá tratar, que será possível de retocar, deformar, alterar, mas sem lograr jamais produzir, salvo por defeito ou metáfora, o equivalente de um esboço ou de um esquema. A fotografia conhece o borrado, o movido, à diferença da pintura e do desenho, ignora o esboço, o croqui, mas não há falhas" (Hubert Damishc, 2007)


A fotografia no seu berço, ofuscou a pintura, pois foi descoberta uma fórmula científica de registo de uma imagem, o que está lá é o que aparece, sem hipótese de engano, muito diferente da pintura. Até por vezes certos pormenores que não vemos nem ligamos, agora aparecem na fotografia.
Também com o aparecimento da fotografia começaram a ser retratadas todo o tipo de pessoas, pessoas anónimas pois era um meio mais barato do que a pintura; enquanto que até agora só podiam ser retratadas, as classes mais altas, por meio da pintura, com a fotografia, foi dado este direito a classes mais baixas.



Pessoalmente, penso o porquê de dar tanta importância à fotografia-retrato, porquê que gostamos tanto de ser retratados e apreciar as nossas representações? A fotografia é efémera, embora as pessoas não sejam, esta representação parece trazer algum conforto, pois é deixado um registo fotográfico que dura mais do que a própria vida, parece que nos deixa viver para sempre, sermos falados, admirados no futuro, analisadas as nossas características, através de uma fotografia, um instante captado, há pouco ou muito tempo, mas que pára no tempo e recorda um momento. 

Por isso, mantemos conosco fotografias de entes queridos que já faleceram. Olhamos para elas recordamos momentos, choramos. Prendemo-nos às imagens como se elas fossem o que representam, atribuímo-lhes inúmeros significados e memórias, mas elas são só isso, imagens, não são os significados nem as coisas.

Fetiche pela pintura mais cara vendida em leilão

Não sei há quantos dias foi, mas era hora de jantar e eu tinha a televisão ligada como tenho sempre sem lhe prestar grande atenção, quando oiço o seguinte plot de noticia: “pintura mais cara de sempre vendida em leilão atingiu os 106 milhões de euros”, admito que parei tudo o que estava a fazer e olhei incrédula para o ecrã da televisão. 106 Milhoes de euros? Deve ter ouro, só pode!

Escutei com atenção os factos. A obra é o tríptico Três estudos de Lucian Freud, de Francis Bacon. O triplo retrato do artista britanico foi arrematado em Nova iorque por 142,2 milhoes de dolares, ultrpassando assim O Grito, de Munch, que ocupava até então o primeiro lugar na lista.

Três estudos de Lucian Freud, de Francis Bacon

O que é que faz com que esta obra tenha um valor monetário tão elevado? A qualidade técnica e os nomes de pessoas marcantes na nossa história da sociedade que lhes estão associados é indiscutível, mas o que ganha o propietario do quadro com isso? Apenas o prazer que ter ele tal objecto único, apenas para safisfazer algum “fetiche”. A arte é, cada vez mais, uma mercadoria de luxo.

Imaginemos que tinhamos dois objectos semelhantes, por exemplo uma replica perfeita da obra de Francis Bacon por um falsificador talentoso mas para os media desconhecido e a obra em si. Continuaria ser valorizada a obra em concreto? Obvio que sim. Para além de ter sido pintada por alguem de remone, tido como superior na sua area artistica, representa outra importante personalidade do século XX que não era só o seu objecto de estudo mas era também seu amigo.

O preço desse quadro provém do fetiche que se criou envolta da história do objecto, das relações sociais implicadas e do desejo de fazer parte dessa mesma relação ou de ter direitos sobre uma parte dela.

De facto, os objectos de desejo trazem em si a aura que esconde o que realmente a mercadoria é, que esconde que aquele objecto pelo qual alguem pagou quantidades ridiculas de dinehiro é nada mais é do que tinta numa tela que mesmo com a mão de obra e o tempo dispendido custa muito muito menos.

O fetichismo é uma relação social entre pessoas e coisas, e os objectos de desejo escondem que aquela mercadoria é apenas um produto das relações sociais que lhe vêm agarradas. O conceito de fetichismo da mercadoria, para Marx, define o processo social e psicológico pelo qual um objecto/mercadoria ganha diferentes valores e simbolismos quando é processado e trabalhado pelo Homem. Simbolismos esses alterados de acordo com a intervenção da mercadoria na vida e no mundo com a sua intervenção social.

O quadro ganha pela sua "história de vida".

Popularidade versus Influência

Nós humanos gostamos de colocar algum sentido de ordem no mundo que nos rodeia. Devido a isto não é estranho todos os dias serem criadas listas de "Top 10" para uma variedade de tópicos. No entanto, a popularidade e a qualidade são conceitos raramente proporcionais um ao outro. Isto é para dizer:  algo conhecido não é necessariamente influente. Ou seja, alguém conhecido pode facilmente comunicar uma mensagem a centenas de pessoas mas não influenciar nenhuma. Por outro lado, alguém que consiga apenas comunicar com meia dúzia de pessoas pode influenciá-las a toda, de modo semelhante a como escreve Karl Marx "As ideias dominantes numa época nunca passaram das ideias da classe dominante". Este é um problema com a comunicação, apesar de chegar a vários ouvidos, a mensagem raramente causa um impacto.

O começo da alienação nacional

Até ao 25 de Abril de 1974, toda a produção industrial era de fabrico nacional, pois o regime salazarista protegia os bens nacionais em detrimento dos produtos importados, oferecendo mão de obra ao povo português, o qual vivia apenas com bens essenciais, sem sentirem necessidade de mais pois também não tinham acesso a mais informação e divulgação. Após este período e com a alteração do regime, começou a entrar em Portugal bens estrangeiros através da publicidade e com a mensagem de facilitar a vida social às famílias.


Começou assim a haver mais investimento estrangeiro em Portugal, possibilitando a deslocação de trabalhadores de outros sectores, como agricultura e artesanato onde conheciam todo o processo de produção, para empresas de produção em série que ofereciam melhores condições de trabalho e maiores salários. Com isto, o trabalhador passou a ter um determinado posto fixo, ou seja numa produção em série o seu conhecimento passou a ser restringido à fabricação de uma determinada peça, não conhecendo o produto final nem compreendendo o processo de realização das restantes peças produzidas.


Todas estas consequências derivam do facto de que o trabalhador se relaciona ao produto do seu trabalho como a um objecto estranho. (Karl Marx)


Nesta situação, Karl Marx reconhece dois tipos de alienação: a alienação da coisa e a auto alienação. O primeiro fala da relação entre o trabalhador e o produto, este que para si é desconhecido. O segundo pronuncia-se sobre a relação entre o trabalho e o trabalhador, que este realiza em sofrimento e com o qual não estabelece qualquer relação de interesse.



O trabalhador torna-se tento mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. (Karl Marx)

choose life

Cada vez mais a procura de objectos materiais como forma de atingir realização pessoal torna-se evidente. Somos constantemente bombardeados com propostas visuais que de alguma forma nos dizem como é que os produtos que consumimos nos definem. Esta forma de vida moderna definida por produtos vem se relacionar com o conceito de fetichismo da mercadoria de Karl Marx. 

A palavra fetiche tem origem no latim Facticius, "artificial, fictício", e define-se como um objecto material ao qual se atribuem poderes mágicos ou sobrenaturais, positivos ou negativos, tendo inicialmente sido usado o termo associado a objectos de culto religioso dos negros da África Ocidental.
   
A sedução feita pelos produtos da-se através da publicidade, transmitindo uma imagem com a qual o consumidor se procura definir. Esta imagem está quase sempre associada a conquistas sexuais, monetárias ou de fama. A compra do telemóvel topo de gama que na verdade o principal propósito é o mesmo de qualquer telemóvel banal é um exemplo de como estas perspectivas são transmitidas. O mesmo acontece com carros, relógios, perfumes e uma infinidade de outros produtos.
    
O assustador deste culto dos objectos é que é impossível viver no mundo actual ignorando a força que têm sobre nós. Somos constantemente obrigados a consumir para alem das nossas necessidades básicas subvertendo os valores de uso por valores ilusórios e não existe forma de escapar a tal fenómeno.
    
De forma a ilustrar esta publicação acrescento ainda um excerto do filme trainspotting que demonstra a forma como somos sobrecarregados com escolhas sem um verdadeiro propósito intrínseco à nossa sobrevivência como ser humano.


Ideologia na Comunicação

  Uma "antagonia" de pensamentos desenrolou-se enquanto mergulhava  em Louis Althusser. Usamos, de facto, linguagens estranhas um para o outro, nunca divergindo muito do seu significado. Tentarei condensar neste texto parcelas do que anda, há algum tempo, navegando no meu aquário.
  Procurarei usar uma linguagem "suficientemente concreta para ser reconhecida mas suficientemente abstracta para ser pensável e pensada dando origem a um conhecimento". Na realidade, o símbolo aquário, partindo de uma "obviedade primária" (concreta e conhecida por todos) conferi, metaforicamente falando, a ideologia do sujeito (eu), possibilitando uma abrangência na sua apreensão. No entanto, estou sempre a guiar o leitor nesta viagem.
  "O Tao que pode ser expressado, não é o Tao absoluto", sendo o Tao o indizível (a rejeição ao Logos, à razão). Aqui não há tolerância a qualquer tipo de ideologia, uma vez que o Tao é a realidade unitária, o Tao é Tudo, simplesmente é. Conseguiríamos alguma vez incorporar tudo nos nossos pensamentos, palavras e actos? Os taoistas procuram viver esse estado uno - uma renúncia à interpretação (sempre imperfeita e incompleta) da realidade -  semelhante ao momento em que, abrindo de repente os olhos, o nosso cérebro ainda não analisou o que está a ver, ainda não distinguiu as cores e as formas. Nós, contrariamente, parcelamos o Todo, não nos conseguindo desligar da nossa experiência individual; experiência essa que nos leva a deduzir as nossas conclusões ideológicas.
  Assim, ao limitar um conceito à sua "obviedade primária" o leitor/observador integra-o na sua percepção enquanto verdade, reconhecendo-o em vez de tomar conhecimento desse reconhecimento, ou seja, o leitor/observador saltou a etapa crucial em termos ideológicos: acredita que o seu reconhecimento é conhecimento.
  A consciência da limitação desta dualidade reconhecimento/conhecimento na mente humana levou à criação de Aparelhos Ideológicos que definem o modo como esta apreende os conceitos.
  Infelizmente esta realidade está presente desde o início da vida em sociedade.
  Althusser defende que os Aparelhos Ideológicos de Estado designam realidades que se apresentam na forma de instituições distintas e especializadas (AIE religiosos, AIE escolar, AIE familiar, AIE jurídico, AIE político, AIE sindical, AIE cultural, AIE de informação).
  Podemos afirmar que no passado o número dos Aparelhos Ideológicos de Estado era maior sendo a Igreja o dominante (concentrando funções religiosas, escolares, de informação e de cultura). Hoje em dia atrevemo-nos a nomear o Aparelho Ideológico de Estado escolar como seu substituto, estabelecido pela burguesia comerciante. São raros os professores que se posicionam contra este sistema; contrariamente, aplicam todo o seu esforço na execução do trabalho que esse Aparelho exige deles, não questionando a própria devoção que alimenta essa representação ideológica da escola que a faz tão "indispensável" e "certa" (tal como era a Igreja antigamente).

  Será, na realidade, necessária a existência de um Aparelho Ideológico que estabeleça uma base ideológica em que as pessoas comuniquem garantindo a previsibilidade das nossas palavras e actos? Ou será que a auto-determinação humana consegue estabelecer as bases de comunicação necessárias à evolução da vida em sociedade?

Tabu

Minuciosamente escrito e pensado, Miguel Gomes apresenta-nos o seu filme, Tabu, de uma forma peculiar e até pouco fora do comum.


Tabu divide-se em duas partes, uma primeira passada em Lisboa contemporânea, que transparece a vida quotidiana e quase solitariamente aborrecida de Aurora, uma senhora de idade, a sua criada Santa e a prestável vizinha Pilar; e uma outra parte que toma o monte Tabu, numa África dos anos 50/60 como cenário e onde as nossas dúvidas em relação à amargura de Aurora se dissipam, quando a observamos no seu “habitat natural” e testemunhamos o seu passado atribulado. Unindo as duas paisagens distintas da Lisboa confusa e barulhenta e dos infinitamente calmos campos Africanos pelo preto e branco do ecrã, Miguel Gomes homenageia os filmes clássicos mudos e sem cor, por onde passaram actores como Charlie Chaplin e os Irmãos Marx. E, numa escrita quase barroca, ouvimos a narração das acções africanas substituir a voz das personagens, acompanhada pelas melancólicas (mas com um travo de humor) Variações Pindéricas Sobre a Insensatez, escritas e interpretadas ao piano por Joana Sá. Além do piano melancólico de Joana Sá, a narração é interrompida ocasionalmente por rituais africanos cantados e por músicas interpretadas pela banda a que algumas personagens da segunda parte do filme pertencem. 
Fui surpreendida com uma simplicidade fotográfica que, no entanto, demonstrou de forma arrebatadora uma verdade nua e crua das personagens e que se tornou, aos meus olhos, em algo belo. Quer pela troca temporal das acções que desde cedo planta dúvida e curiosidade no espectador; quer pela beleza simplista da imagem saturada que, de uma forma magistral, engole as cores fortes africanas sem lhes tirar o calor; quer pela ausência de voz que torna as personagens misteriosas e estranhamente próximas, já que damos atenção redobrada às suas expressões e acções; quer pela melancolia que nos acompanha desde o final de 2010 com a maturidade já enlouquecida de Aurora, até à sua realidade africana juvenil, existe algo que nos atrai nesta obra intemporal de Miguel Gomes. 
Talvez a resposta esteja, como diz a revista francesa Cahiers du Cinéma, na liberdade aproveitada por Gomes, como sendo “aquilo que tem faltado ao cinema contemporâneo“.


Benedita Pinto Gonçalves, 6479
FBAUL Design de Comunicação, 2º ano

Entre a Igualdade e a Distinção

Muitos são os sujeitos, que hoje, mesmo perante uma colectânea das mais diversas opções de indumentária, vestem, voluntária ou involuntariamente, uma farda. Quem enverga esta farda traz consigo um significado, sentimento, apelo visual ou sentido, algo que cifra e logo de imediato consequentemente permite descodificar a pessoa, enquanto um ser que se insere em determinada comunidade.
A questão aqui será, é essa interpretação bem aplicada pelos demais transeuntes, numa sociedade cada vez mais multicultural?
O conceito de farda pode ter uma carga negativa ou substancialmente positiva, dependendo, claro está, da cultura e circunstâncias em que se insere. Está-lhe intrínseca uma linguagem visual, que pode ser dotada de significados mais ou menos acertados. O pensamento concebido de uma farda, remete automaticamente para um trabalhador fabril, um soldado/militar, traje estudantil, escuteiros, elementos do clero, de uma instituição singular, prisioneiros ou grupos políticos isolados, como os maçons e os seus aventais… São portanto grupos ou subculturas que usam um uniforme para se identificarem ou igualarem.
Esta tentativa de expressar igualdade é deveras subjectiva, na medida em que não constitui o indivíduo que a emprega, mas sim parte dele, representando uma escolha de determinada fase da sua vida, formas de pensar e encarar a sociedade ou outras que mais.
A verdade é que uma forma de vestir pode evidenciar-se muito mais ao invés de ser ignorada. Está imbuída de grande simbolismo, dependendo do espaço e tempo em que se insere, e daí adquire significado. Este é transmitido ou comunicado na linguagem visual, andando na rua o que se pensa ao ver um indivíduo fardado depende do conhecimento adquirido pela vida fora e de um outro campo de aspectos condicionantes. O que realmente interessa é o facto de a farda querer dizer algo ao mundo.
“O amor à camisola”, o orgulho e honra que cada um pode sentir, num íntimo imparcial, ou por outro lado humilhação, são consequências inerentes ao próprio individuo, que de uma forma ou outra é como que obrigado a vestir-se dessa forma. Se por um lado a identidade mundial é retirada, são criados à priori pequenos grupos etiquetados por aquilo que levam como casca do corpo individual e seu pensamento. Pressupõe-se que certos ideais ou crenças façam parte de quem emprega um determinado traje, mas não clarificam se o individuo se quer inserir num grupo para se massificar, fazer sentir parte ou por valores menos dissimulados. Isto quer dizer que alguém que está uniformizado não tem sempre de ser tomado como X ou Y, podendo claro ter as suas escolhas e pensamentos, que de certo modo fazem variar o sentido da farda de cada um. Imprime-se um certo respeito, divulga-se uma certa crença genuína ou não que pode não ser tão mundana e vulgar assim, transmite-se resignação, igualdade em forma crua, não fascista como pressupostamente entendida.
Se por um lado a utilização da farda uniformiza ou padronizar um determinado grupo com ideias idênticos, por outro lado, esta evita preconceitos de classes, ao encobrir modos de vestir e consequentemente evidenciar uma classe social de trabalho ou gostos pessoais.
De certo modo pode dizer-se que é de alguma ignorância atribuir à farda um sentido globalizado, de poucas variâncias, pois esta pode antes significar reuniões de grupos de bons valores que pretendem harmonizar-se sem criar grande conflito, indicando apenas a sua existência e combatendo pela igualdade de direitos civis, sociais, um movimento de força humana.
Uma farda pode ser uma prova em forma de metáfora de que a realidade não é o que os olhos realmente vêm, e muito menos o que estes comunicam ao cérebro. Caracteriza-se por uma ambiguidade contraditória de um individuo que se assemelha e insere no meio de tantos outros, mas que prevalece ou se destaca do resto da multidão, é reveladora de um movimento, mas poder-se-á dizer que descreve o sujeito? Talvez toda esta reflexão seja ilusória, de quem acha que pode ser um elemento activo e revolucionário na sociedade e ainda assim contradizer-se “ao fazer parte” porque pertence a grupos onde a igualdade e a distinção andam de mãos dadas. Fora de questão está tentar renovar o mundo e enche-lo de códigos visuais têxteis idênticos, mas a excepção faz a regra e as aparências iludem como a plebe diz…
Implícitos estão os conceitos de irregularidade comunitária, expectativas, decepções e conflitos, mudanças de comportamento, resgate de dignidade, prestigio, descriminação controlo camuflado e subtil, pelos quais se veste uma farda periodicamente e princípios pelos quais muitas são despidas.
Há uma linha ténue entre distinção e igualdade, união e separação, uma separação pouco estipulada, uma anarquia de anti globalização ou um comunismo de um só.

A Máquina Cultural

Um elemento característico da sociedade moderna (em países desenvolvidos) é o da indústria cultural, que afecta várias (se não todas) as áreas da nossa vivência. Esta indústria cultural é-nos imposta à nascença, e influencia o nosso comportamento e os nossos desejos (e os de todos os outros à nossa volta), sendo considerada como tão básica como o nosso direito à educação e à saude. Aliás, o que nos distancia de países menos desenvolvidos é a facilidade com a qual podemos aceder a filmes, livros, exposições, etc.

A (considerada) personalidade de uma pessoa está intrinsicamente ligada e baseada aos seus gostos culturais, desde a escolha de roupa que usa ao que ouve no seu iPod. 

A componente aparentemente positiva desta abundância cultural é a sua grande panóplia variada, permitindo assim a cada sujeito determinar aquilo que quer ouvir e ver. A ilusão do gosto pessoal está enraizada na nossa consciência, e sentimos que, ao optarmos por certos objectos culturais, estamos a definir a nossa individualidade. É claro que nenhum homem é uma ilha, como dizia Donne, e que somos influenciados por tudo e todos à nossa volta, e assim esta individualidade é sempre distorcida pela nossa experiência. Mas o problema da industria cultural é o facto de esta ser, antes de mais nada, um negócio, baseado no lucro. Por esta razão, o que ela nos oferece não costuma estar baseado no seu valor de utilidade ou artístico, mas na sua capacidade de vender. Isto é, então, uma desculpa para a falta de qualidade de muitos objectos a que somos expostos. Os próprios criadores das obras culturais não se preocupam com o valor destas, desejando apenas atingir um certo público e agradá-lo, assim vendendo mais. Pela sua natureza, a produção em massa da sociedade capitalista visa a apelar a uma audiência vasta e, assim, tanto as classes mais altas como as mais baixas são vítimas desta. A industria cultural é mais uma maneira de categorizar os seus cidadãos, propondo algo para todos os gostos. Dependendo do seu “nível”, o indivíduo escolhe o carro mais caro ou o livro mais prestigiado, não só pelo prazer pessoal que ele recebe do objecto, mas principalmente pela imagem que este vai deixar sobre si para os outros. Esta indústria rouba os indivíduos da sua capacidade de imaginação, oferecendo a possibilidade de pensar por eles, e homogenizando a população. 

A sociedade baseada na produção é apenas produtiva, não criativa.” – Albert Camus


Baseado em: '‘A Indústria Cultural: o iluminismo como mistificação das massas’' de Max Horkheimer e Theodor Adorno (1986)

Entre nós e as palavras


Talvez a distancia entre o que somos e o que dizemos seja tão ou mais extensa do que a das palavras e elas mesmas; talvez o paradigma na escolha de uma palavra não seja mais que uma ilusão e uma divagação, habito comum de alguém que se afastou na unidade, ilusão na qual toda e qualquer forma de representação onde se possa estabelecer uma ligação significado significante é apenas um afastamento da realidade a transmitir, tentando nós seres humanos fazer entender e entender algo afastando-nos do que cremos compreender e dar a compreender. Entre nós e o que dizemos, falando ou pensando, da palavra ao ser respectivamente estará o paradigma, a ilusão, a constatação da presença destes dois anteriores e dos que se seguem (pois a meu ver de momento, tal como o paradigma o tempo poderá se representado não por uma linha horizontal mas sim por uma vertical no qual o ser o ser humano permanece estático fazendo-se a linha passar por ele), o sentir e o vazio.
Perdoem me o afastamento

Estas palavras são aparentemente tão verdadeiras quão a fictícia realidade que criam, haverá então um outro mundo por conhecer entre nos e as palavras. 

                                                                                                                                              


You are welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas      portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny
Pena Capital
Lisboa, Assírio & Alvim, 1982

Janela Virtual do Real


Programas como o “Secret Story” ou “Big Brother” são movidos pela vontade de uma sociedade exibicionista e consumista e são o género de entretenimento que hoje em dia tem lugar de primazia em horário nobre na televisão portuguesa .

 São chamados de “reality shows” e pelos vistos são atraentes á maioria dos espectadores , que demonstram o interesse por este tipo de programa televisivo que tem a moral, a ética e os julgamentos sociais como fenómenos culturais e sociais .
Os protagonistas destes programas são pessoas comuns, anônimos cuja missão é interagir com outros desconhecidos e ganhar dois prémios – dinheiro e fama- fáceis de adquirir, sendo apenas necessário uma boa dose de romances, diálogos, brigas, situações banais e conversas do mais baixo nível, como a vida íntima e sexual.

O programa que se apresenta em horário nobre de tão fraca qualidade cultural demonstra claramente que o público sente satisfação de invadir e explorar a vida alheia, juntamente com a necessidade de guardar e cuidar de sua própria privacidade. Uma sociedade que tem o desejo de ser invisível e ter acesso á visibilidade dos outros, uma sensação do ver sem ser visto e neste caso de controlar a vida de quem participa do programa.

Programas como este onde existem apenas concorrentes que não têm que fazer nada para além da própria vida  estão no topo das audiências.O conteúdo do programa é apenas o show da vida e não pretende chegar a lugar nenhum, a não ser a ele mesmo.